categoria Comportamento
Data 23 de setembro de 2026

Tem um roteiro que ninguém nunca escreveu, mas que qualquer comitê de aprovação reconhece de cor, como se fosse instinto: o palco sempre ao fundo, o telão de LED sempre um pouco maior que o do evento anterior, as cadeiras sempre em fileira reta, como plateia de teatro que nunca foi convidada a se levantar, e o coffee break sempre às três da tarde, pontual como se existisse uma lei não escrita determinando esse horário exato. Dá para prever o evento inteiro só de olhar a planta baixa, antes mesmo da primeira reunião de alinhamento, e isso não devia ser motivo de orgulho para ninguém, muito menos para mim, que já previ dezenas deles com uma precisão que preferia sinceramente não ter.

Mas o que realmente me incomoda, cada vez mais, é outra coisa: um roteiro que ninguém escreveu formalmente virou, sem que ninguém percebesse o momento exato da virada, uma regra tácita, e toda regra tácita esconde um motivo real para existir, ainda que raramente seja o motivo mais óbvio. Foi atrás desse motivo que passei a prestar atenção não nos eventos em si, mas nas salas onde eles são aprovados, porque é nessas salas, e não nos pavilhões, que o formato repetido nasce e se perpetua.

Quem aprova o formato de um evento corporativo, na maioria das vezes, não escolhe o palco e o telão porque acredita profundamente neles. Escolhe porque nenhum diretor, em toda a história desse mercado que eu conheço, jamais foi chamado a uma sala fechada para explicar por que o coffee break aconteceu precisamente às três da tarde. Existe uma fartura enorme de precedentes protegendo o formato repetido (décadas de eventos iguais funcionando como uma espécie de jurisprudência silenciosa a favor de quem repete), enquanto para o que ainda não foi tentado não existe precedente nenhum; e sem precedente, qualquer decisão vira risco pessoal, carregado sozinho por quem teve a infelicidade de propô-la.

Não quero simplificar isso como acomodação ou preguiça, porque seria injusto e também impreciso. É racionalidade legítima, funcionando exatamente como deveria dentro de um sistema que pune o erro visível com uma violência muito maior do que a recompensa que oferece ao acerto ousado. Quem escolhe o caminho seguro não está escolhendo o melhor evento possível; está escolhendo a frase que, se tudo desandar, ainda vai soar como defesa razoável numa reunião de avaliação (eu segui o padrão consolidado do mercado), e ninguém nunca se defendeu bem, nesse tipo de reunião, dizendo apenas que teve uma ideia. Enquanto a estrutura de incentivos for essa, cobrar ousadia individual das pessoas que trabalham dentro dela é exigir coragem justamente de quem pagaria sozinho o preço inteiro dessa coragem.

Lembro de uma reunião específica, ainda que prefira não dizer de quem, porque isso nunca é o que realmente importa na história. A ideia original, naquele projeto, era genuinamente boa: quebrava o formato esperado, redesenhava o fluxo de circulação do público, tirava o palco do centro geométrico da sala e colocava as pessoas dentro da ação, em vez de diante dela. Chegou à quarta revisão com o palco de volta, exatamente no centro de onde tinha saído. E o mais estranho é que ninguém, em nenhuma daquelas quatro reuniões, disse abertamente que não tinha gostado do formato; cada pessoa, educadamente, perguntou apenas um pequeno “e se”, e cada “e se”, pequeno, razoável, individualmente defensável, foi limando um pedaço da ideia original, até sobrar exatamente o formato que todos já conheciam de cor, o mesmo que qualquer comitê aprovaria sem hesitar.

Ninguém, em nenhuma dessas salas, é o vilão da história, e é importante insistir nesse ponto, porque a tentação de procurar culpados individuais é grande e erra sempre o alvo. Cada pessoa, isoladamente, está sendo perfeitamente razoável: quem pergunta o que acontece se chover está protegendo o projeto, quem pergunta o que acontece se o presidente não gostar está protegendo a equipe, quem pergunta se o público não vai estranhar está, a rigor, pensando no público. O problema nunca é uma única pessoa decidindo mal: é um sistema inteiro de pessoas razoáveis decidindo em conjunto, produzindo, coletivamente, o resultado mais covarde possível. E a covardia coletiva tem uma característica cruel: ela nunca parece covardia enquanto está acontecendo, porque naquele momento, dentro daquela sala, com aquelas ponderações educadas atravessando a mesa, ela sempre parece prudência.

O que essa prudência custa, ninguém mede, porque o custo dela não aparece em nenhuma planilha do projeto: ele aparece meses depois, na memória de quem participou, ou, para ser mais preciso, na ausência dela. Pergunte a si mesmo, com honestidade, quantos dos eventos corporativos de que participou nos últimos anos você consegue de fato distinguir uns dos outros: qual palestra aconteceu em qual convenção, qual telão pertencia a qual marca, qual coffee break das três da tarde era de qual empresa. A verdade desconfortável é que os eventos que seguem o roteiro seguro vão se dissolvendo uns nos outros na lembrança de quem os viveu, e um evento que ninguém distingue é um investimento que ninguém se lembra de ter recebido, de forma que o formato que parecia a escolha de menor risco carrega, escondido dentro de si, o maior risco de todos, que é o de não ter acontecido para ninguém, ainda que tenha custado como se tivesse.

O roteiro que descrevi lá no início vai continuar funcionando amanhã, e depois de amanhã, e provavelmente por muito tempo ainda, porque continua sendo, matematicamente, a escolha mais segura de qualquer sala de aprovação, e eu não tenho a ingenuidade de esperar que um artigo desmonte uma estrutura de incentivos que décadas inteiras construíram com tanto capricho. Eu só queria, sinceramente, que da próxima vez que alguém perguntasse o que acontece se não funcionar, alguém ali dentro tivesse a coragem, rara, cada vez mais rara, de responder que vamos descobrir juntos, dividindo entre todos o peso que hoje esmaga qualquer ideia antes da quarta revisão. Porque enquanto essa resposta não existir, o palco vai continuar voltando para o centro da sala, mais uma vez, como sempre, e todos nós vamos continuar fingindo, uns para os outros, que a repetição foi uma escolha.

Fonte: Promoview