categoria Conexão
Data 16 de setembro de 2026

Em 2010, os pesquisadores Karina Schumann e Michael Ross pediram a homens e mulheres que registrassem em diários as ofensas que cometiam ou sofriam no cotidiano, e se haviam pedido ou recebido desculpas por elas. As mulheres pediam mais desculpas do que os homens, mas o achado interessante estava na conta seguinte: a proporção entre ofensas percebidas e desculpas oferecidas era praticamente a mesma nos dois grupos. A diferença parecia estar também na percepção do que merece reparação. Em outro experimento, diante das mesmas situações, as mulheres tendiam a avaliar as transgressões como mais graves. Isso sugere que a diferença não está simplesmente numa maior disposição feminina para pedir desculpas. Mulheres e homens parecem divergir também sobre aquilo que consideram ofensivo o suficiente para exigir reparação.
O dado complica uma leitura bastante comum, aquela que trata o excesso de desculpas femininas apenas como falta de assertividade a ser corrigida. Talvez exista uma pergunta anterior: por que algumas mulheres parecem tão atentas ao efeito que produzem nos outros? E quanto custa passar o dia monitorando se alguém se incomodou, se uma frase soou dura demais, se um pedido foi excessivo ou se ocupar determinado espaço causou algum desconforto? Uma leitura psicanalítica permite pensar que essa atenção ao outro não nasce necessariamente de uma insegurança consciente. Ela pode se formar muito antes, nas experiências em que preservar o vínculo, perceber mudanças de humor e antecipar reações se tornam maneiras de encontrar um lugar nas relações. A cultura também participa dessa formação. Meninas e meninos não recebem exatamente as mesmas mensagens sobre cuidado, agressividade, delicadeza ou sobre o quanto podem incomodar. Para algumas mulheres, estar atenta ao estado emocional do outro acaba se tornando tão habitual que a vigilância continua funcionando mesmo quando já não é necessária.
O superego, essa instância que Freud descreveu como herdeira das exigências e proibições que atravessam nossa constituição psiquica, ajuda a entender parte dessa experiência. Para algumas mulheres, a própria assertividade pode rapidamente ganhar, aos seus ouvidos, o tom de agressão, o próprio pedido direto parecer exigência e a própria discordância vir acompanhada de culpa. Uma frase perfeitamente razoável é dita durante o dia e reaparece à noite para ser examinada: será que fui grossa? Será que precisava ter falado daquele jeito? Será que ela ficou chateada? O “desculpa” antes da pergunta no trabalho, o “desculpa incomodar” que abre uma mensagem ou a justificativa antes mesmo de apresentar uma ideia podem funcionar como uma espécie de pedágio antecipado. Paga-se antes mesmo de saber se houve alguma infração.
Há uma contradição interessante nisso. Outras pesquisas já mostraram que quem pede desculpas com mais frequência tende a ser percebido como mais caloroso, cuidadoso e agradável, mas também como um pouco menos assertivo e poderoso. O mesmo comportamento que ajuda uma mulher a corresponder à expectativa de ser gentil pode diminuir a autoridade que os outros atribuem a ela. No trabalho, isso produz uma situação particularmente difícil: o “desculpa” pode facilitar o vínculo e, ao mesmo tempo, enfraquecer a posição de quem fala.
Essa contradição fica ainda mais clara no que o psicólogo Stephen Hinshaw chama de tripla exigência dirigida às mulheres. Espera-se que sejam compassivas e cuidadoras, mas também competitivas e determinadas, além de desejáveis, e que consigam sustentar tudo isso como se não exigisse esforço algum. Nesse arranjo, até a firmeza passa a ser monitorada. Uma mulher pode dizer exatamente o que precisava dizer e, segundos depois, sentir necessidade de suavizar a própria fala. Às vezes pede desculpas pela firmeza que acabou de exercer ou acrescenta tantas justificativas que quase retira a força do que havia dito.
Mas a pesquisa também impede uma conclusão fácil no sentido contrário. Não se trata simplesmente de ensinar mulheres a pedir menos desculpas. Se elas identificaram mais situações como ofensivas nos experimentos, vale perguntar também o que acontece do outro lado: quantas situações deixam de ser percebidas como suficientemente graves para merecer reparação? Um limiar muito baixo pode produzir culpa e exaustão, enquanto um limiar muito alto deixa passar despercebido o efeito sobre o outro.
Talvez por isso a questão mais interessante não seja quantas vezes alguém diz “desculpa” ao longo do dia. Pedir desculpas é uma capacidade importante. Implica reconhecer que nossas palavras e nossos atos têm consequências e que, às vezes, ferimos alguém. O problema começa quando a culpa chega antes da falta.
Há uma diferença entre reparar algo que fizemos e tratar a própria presença como um incômodo a ser compensado. Talvez valha prestar atenção, na próxima vez que um “desculpa” aparecer quase sozinho, ao que exatamente estamos tentando reparar. Pode haver ali alguém que realmente ferimos. Mas pode haver também apenas um juiz interno cobrando pedágio por uma infração que nunca aconteceu.

Fonte: Vogue