Comportamento
03 de julho de 2026
Vinte e um anos depois de Confessions on a Dance Floor consagrar uma das fases mais celebradas de sua carreira, Madonna lança Confessions II nesta sexta-feira (03.)7, reunindo-se ao produtor Stuart Price para dar continuidade a esse capítulo. O álbum chega em duas versões, uma com 12 faixas e outra deluxe com 16, e a expectativa em torno dele era grande, sobretudo por vir depois de Madame X (2019), disco que passeou por diferentes sonoridades globais, do fado ao afrobeat, e manteve o tom político que sempre esteve presente na trajetória de Madonna.
Desta vez, ela se dedica quase inteiramente à pista de dança, e repete até na engenharia a lógica do disco de 2005: as faixas são mixadas umas nas outras, sem pausas, como um set contínuo de DJ. O resultado é um trabalho mais linear do que se poderia esperar, com faixas que se complementam e conduzem o ouvinte por um arco que caminha da euforia inicial à introspecção. Boa parte do disco funciona como uma espécie de arqueologia pessoal. Em I Feel So Free, faixa de abertura, Madonna recebe o ouvinte com um convite falado, como quem abre a porta de um clube escondido, sobre uma linha de baixo que remete a Giorgio Moroder e usa como sample o clássico house “French Kiss”, de Lil Louis.
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Esse gesto de reverência à própria história do gênero se repete ao longo do álbum: “Bring Your Love”, com Sabrina Carpenter, interpola o clássico “Good Life”, do grupo pioneiro de house de Detroit Inner City, e “Danceteria” vai na direção oposta, olhando para dentro da própria biografia -cita nomes da cena nova-iorquina como Keith Haring, Basquiat e o DJ Mark Kamins, e ainda interpola “Walk on the Wild Side”, de Lou Reed. A faixa mistura house, nu-disco e spoken word, e bem no meio solta um trecho falado que lembra diretamente a cadência de “Vogue” – não à toa, é onde a voz da rainha do pop parece mais à vontade, num terreno que ela já domina há décadas.
Esse fio se cruza com outro, mais espiritual, que permeia o disco desde o conceito declarado por ela: consciência e liberdade. “Good For The Soul” é, talvez, o momento mais instantâneo do álbum – algo raro num disco que não aposta em hooks fáceis. O refrão ganha um brilho particular com o uso de vocoder cobrindo os vocais mais graves de Madonna, e a produção é etérea na maior parte do tempo, ainda que a bateria e a percussão tragam uma urgência que contrasta com o resto, mais suave.
Cordas orquestrais entram de forma sutil, mas elevam a faixa nos momentos certos, aproximando a cantora do espírito de Ray of Light. One Step Away caminha na mesma direção de forma mais discursiva, com um trecho falado que defende a pista de dança como espaço ritualístico, um manifesto contra o rótulo de superficialidade que a música eletrônica costuma carregar. E Love Without Words é talvez o momento mais surpreendente nesse sentido: apesar do andamento dentro do padrão house, a produção usa camadas de sintetizador e reverb longo que dão uma sensação de lentidão, como se a faixa estivesse debaixo d’água.
Do outro lado, fica o lado mais confessional, que dá nome ao projeto. Fragile, dedicada ao irmão Christopher Ciccone, é um dos pontos mais emocionantes do disco: a batida tem uma pegada sutil de drum and bass, mas sem nenhuma agressividade, mantendo o foco na fragilidade emocional da letra. A faixa ainda conta com vocais de apoio da Estere, uma das filhas de Madonna, o que dá ainda mais peso ao tom familiar que domina a reta final do álbum. É impossível não pensar em Frozen e The Power of Good-Bye, as duas grandes baladas de Ray of Light – o mesmo tipo de produção orquestral combinada a uma batida eletrônica, e a mesma forma de lidar com perda e desapego.
The Test, com a filha Lola Leon, segue essa linha como um momento de cura entre mãe e filha. Betrayal aposta num synth minimalista e um compasso que remete a Sweet Dreams (Are Made of This), do Eurythmics, para tratar do fim de uma relação marcada por perda de fé, e Bizarre, com Martin Garrix, parece revisitar um relacionamento antigo com uma intensidade autodestrutiva, os vocais cortados e reprocessados como se refletissem esse estado. My Sins Are My Savior, com Stromae, segue por caminho parecido.
Em School’, a popstar usa metáforas de arte e pintura para construir uma crítica afiada disfarçada de lição, com os vocais bastante processados eletronicamente, e a abertura falada da faixa remete a Justify My Love – tanto pelo clima sussurrado do spoken word quanto pela melodia.. Vale lembrar que não é a primeira vez que Madonna recorre a esse tipo de imagem. Em Graffiti Heart, faixa da edição deluxe de Rebel Heart (2015), ela já comparava amor a pintura, citando Basquiat e Frida Kahlo para defender que expor as próprias imperfeições é um ato quase artístico. Aqui, a referência a Picasso serve pra outro propósito e usa o gênio criativo do pintor como contraponto pra escancarar a desonestidade de alguém.
O desejo físico é uma presença constante no álbum. Madonna nunca costumou fugir desse assunto, e o disco deixa isso claro mais de uma vez. Read My Lips, com Feid, traz um deep house e reggaeton num tom sedutor por trás da provocação, e Love Sensation trata a conexão física de forma direta, quase como um convite repetido ao longo da faixa. É um terreno que ela vem explorando abertamente desde o início da carreira, e que aqui segue firme, prova de que a sexualidade também continua tão presente no repertório dela quanto a espiritualidade ou a memória afetiva.
Talvez o maior contraste de Confessions II com o pop atual esteja no tempo dedicado à construção das faixas. Enquanto boa parte da música pop contemporânea aposta em canções curtas e descartáveis, Madonna insiste (ainda bem!) em trabalhar pontes, seções e arranjos completos, com direito a samples e interpolações como forma de costurar sua própria trajetória à história do gênero. O disco, no entanto, não tem muitas faixas que grudem de imediato – com Good For The Soul como exceção mais clara. Ainda assim, mesmo os momentos menos óbvios carregam a assinatura inconfundível dela. É difícil não comparar Confessions II ao disco que o inspirou. O original ainda é mais impactante, com uma safra de faixas que grudam de cara. Mas a esse ponto da carreira, a cantora possivelmente pensou a sequência para vencer o teste do tempo em vez do teste da primeira semana. Inclusive, é o disco mais coeso desde o próprio Confessions on a Dance Floor.
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