categoria Comportamento
Data 02 de julho de 2026

Como já aconteceu com outros medicamentos, a semaglutida, princípio ativo análago ao GLP-1 e presente no Ozempic e Wegovy, surgiu com uma indicação específica e, com o tempo, foi ganhando novas funções. Primeiro foi conhecida como um tratamento para diabetes. Depois, virou protagonista no combate à obesidade. Hoje, já é estudada por seus possíveis benefícios para coração, rins, fígado e até o cérebro. Agora, uma nova pesquisa publicada na Nature Communications levanta a possibilidade de ela ter mais um efeito surpreendente: desacelerar o envelhecimento biológico.
Pela primeira vez, um ensaio clínico randomizado encontrou sinais de que a substância pode reduzir a velocidade com que o organismo envelhece — pelo menos do ponto de vista biológico. Para chegar a essa conclusão, pesquisadores acompanharam 84 adultos vivendo com HIV durante 32 semanas. O objetivo inicial do estudo era avaliar a redução da gordura visceral, mas os cientistas resolveram analisar também amostras de sangue dos participantes para medir a chamada idade epigenética.

Diferentemente da idade que aparece na carteira de identidade, a idade biológica procura mostrar como o organismo está envelhecendo. Para isso, os estudiosos usam marcadores presentes no DNA que funcionam como uma espécie de relógio interno, estimando se o corpo está envelhecendo mais rápido ou mais devagar do que o esperado.
Foi justamente nesses marcadores que apareceu a surpresa. Em comparação com o grupo que recebeu placebo, os participantes tratados com semaglutida apresentaram uma desaceleração consistente do envelhecimento biológico. Em um dos indicadores utilizados pelos pesquisadores, a velocidade do processo foi cerca de 9% menor após oito meses de tratamento.
Os cientistas também observaram melhora em marcadores ligados à inflamação e em indicadores que estimam o envelhecimento de sistemas como cérebro e coração. Mas ainda não está claro se esse efeito acontece porque a semaglutida reduz a gordura visceral — um importante fator de inflamação crônica — ou se o medicamento atua diretamente em mecanismos envolvidos na senescência.
Os próprios autores fazem questão de destacar as limitações do trabalho. A investigação sobre o envelhecimento não fazia parte do objetivo original do estudo e foi realizada posteriormente. Além disso, a pesquisa incluiu um número relativamente pequeno de participantes, todos vivendo com HIV, uma condição que acelera os processos de desgaste celular. Por isso, ainda não é possível afirmar que os resultados se repetiriam na população em geral.
Ainda é cedo para dizer se a semaglutida poderá ser considerada um medicamento para a longevidade. Mesmo assim, o estudo chama atenção porque reforça uma área de pesquisa que cresce rapidamente: a busca por medicamentos capazes de retardar o envelhecimento.

Fonte: Vogue