categoria Comportamento
Data 15 de julho de 2026

Vamos do início, afinal, são trinta trilhões de células. Dentro da gente. Nos tornando únicos e especiais. Esse universo dentro de você se movimenta numa engrenagem maravilhosa que pede um maravilhamento. Entender a grandeza cheia de privilégio em estar vivo, com essa metamorfose ambulante e contínua, em nós, é imperativo. A largada para sermos lembrados de algo maior, a terra, que, surge no palco linda, iluminada e sozinha. Carente de observação. Não dos satélites, mas do nosso olhar para a grande excepcionalidade que caracteriza nossa existência naquele sistema solar, também chamo de “nosso verdadeiro bairro”.
“Somos uma grande exceção, e o que estamos fazendo com essa chance?”
Enquanto estamos todos na plateia ainda digerindo as primeiras provocações – nós e o nossos trilhões de células – Regina Casé faz a pergunta indigesta.
A distância que criamos sobre a maravilha dentro de nós mesmos se estende para a relação com o planeta que nos acolheu, com as pessoas que coexistem e que tornam essa maravilha chamada VIDA possível. Regina ajuda na resposta: “temos um negócio do tamanho do universo dentro da gente, precisamos carregar isso com respeito, ainda mais se for mulher, afinal, ainda não inventaram outro portal pra chegar até aqui sem ser a mulher”.
Claro que o primeiro anticlímax não demora a chegar no espetáculo VIVA!VIDA!, em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. Diante da grandeza milagrosa da existência, ao fim, viramos poeira de estrela, química purinha. Surge uma tabela periódica – aquele que somos obrigados a decorar no colégio e que explica, de fato, a criação do mundo – mas quando, também, o que a gente mais precisa é de uma disciplina fixa nas grades escolares onde se aprenda o nome das árvores com a mesma devoção. Das oito espécies colocadas numa tela ao fundo do palco, reconheci apenas o Ipê, o Buriti e a Sapucaia. “Nos seus deslocamentos cotidianos, você repara nas árvores que estão pelo caminho?”. Mais uma pergunta indigesta e importante porque são elas que garantem ar puro, beleza, sombra, esperança… e não as conhecemos. As florestas estão por aqui há 400 milhões de anos e toparam cuidar de nós, recém-chegados.

Regina Casé e Aline Midlej
Divulgação
Desconhecemos quem cuida de nós o tempo todo mesmo diante das urgências climáticas, de um fenômeno El Nino que se aproxima e pode ser o mais brutal em sete décadas, levando os extremos das chuvas e das secas a diferentes partes do globo, inclusive, onde ainda se enfrenta o luto de perdas recentes numa luta inglória contra os sinais de esgotamento da exploração desenfreada.
O freio sugerido por Estevão Civiatta – a cabeça por trás do brilhante texto da peça VIVA!VIDA! – está num caminho onde o Sagrado e a Ciência dão passos mais próximos, atentos um ao outro. Sem derrubar o amiguinho, aprendendo com ele. Em tempos de algoritmos tiranos, que tal aproveitar essa curiosidade crescente com a vida do outro, para aprender e repensar mais?
Regina Casé
Ariel Cavotti/Divulgação
Entre as florestas e nós – que caminhamos pelas ruas urbanizadas desatentos às árvores que nos cuidam ininterruptamente – estão os povos originários dessa Terra. As árvores são primas e todo ser humano é parente, nos lembra Regina a partir de ensinamentos como o do mestres da florestas David Kopenawa ou de Ossanha, orixá supremo das plantas.
Quando estiver em casa e abrir a torneira, lembre da raridade da água. Um junção de elementos químicos que nos preenche de vida e é capaz de ganhar todas as formas. Celebremos as brilhantes cianobactérias, os fungos, as algas, as samambaias, todos os seres que nos permitem estar aqui há 300 mil anos.
Depois de mais de uma hora, eis que Terra surge, novamente, em primeiro plano. Mas já não está sozinha, se encontra dentro do ventre de Regina Casé, sendo cuidada, gestada, por todos nós.
“Tudo o que você ama está aqui. Eu não quero que acabe. E vocês”?
A última resposta para um espetáculo a serviço da reconciliação pelo lúdico veio de uma plateia. Mas pra saber qual foi, precisa ir à peça que acabou de chegar a São Paulo e ainda levará as perguntas mais indigestas e importantes a outras cidades do país.
Serviço
Espetáculo: Viva a Vida Local: Teatro Sérgio Cardoso
Endereço: Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista, São Paulo/SP – CEP: 01326-010
Temporada: 09 de julho até 02 de agosto
Classificação: Livre
Duração: 90 minutos
Sessões: As sessões acontecem de quintas à sábado, às 20h, e aos domingos, às 17h
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Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue

Fonte: Vogue