categoria Comportamento
Data 11 de julho de 2026

Você chega no evento e vive uma jornada pensada nos mínimos detalhes: fila organizada, credenciamento rápido, orientação clara, tudo fluindo. Isso tem nome no mercado: jornada do cliente (user experience).

O que ninguém para pra pensar é no passo a passo de quem está por trás dessa jornada. Enquanto você vive uma experiência extraordinária, boa parte da equipe que sustenta esse evento já está de pé há mais de dez horas, começou o dia antes do sol nascer, e vai continuar ali muito depois de você ir embora. Esse é o ponto de partida desta coluna e da série que começo hoje aqui no Promoview.

Depois de mais de dez anos operando bastidores dos maiores eventos do país, aprendi uma coisa que o mercado ainda não quer encarar: cuidamos com obsessão da jornada de quem consome o evento e quase não cuidamos da jornada de quem o produz.

O que a lei já está dizendo sobre isso

Em maio deste ano, entrou em vigor de forma plena a atualização da NR-1, a norma que regula a segurança e saúde no trabalho no Brasil. Desde a Portaria MTE 1.419/2024, os chamados riscos psicossociais — sobrecarga, jornadas exaustivas, assédio, falta de apoio da liderança — passaram a fazer parte obrigatória da gestão de riscos de qualquer empresa com empregados CLT. Depois de duas prorrogações, a fiscalização com caráter punitivo começou em 26 de maio de 2026. Ou seja: não é mais recomendação de RH, é lei em vigor agora.

E aqui está o ponto que o setor de eventos ainda não encarou de frente: praticamente todos os fatores de risco psicossocial que a norma descreve acontecem, rotineiramente, na operação de um evento.

Jornada de staff que começa de madrugada e passa de dez horas em pé. Remuneração que, em muitas operações do mercado, não corresponde ao esforço físico exigido. Falta de estrutura básica de alimentação. Tratamento grosseiro por parte de contratantes que enxergam staff como recurso descartável, não como profissional. E, do outro lado, o desgaste de lidar com um público que enfrentou horas de fila sob sol ou chuva, muitas vezes alterado pelo álcool, e descarrega a frustração em quem está na linha de frente.

Hoje, a maioria das operações do setor não gerencia nada disso de forma formal. Não existe mapeamento de risco psicossocial pensado para rotina de um evento, não existe protocolo de apoio para staff que passa o turno inteiro sendo hostilizado por um público alterado, não existe sequer o hábito de perguntar como aquela pessoa está saindo dali depois de dez, doze horas de operação.

A gente aprendeu a gerenciar palco, som, luz, logística, segurança patrimonial — e esqueceu de gerenciar o principal ativo de tudo isso, que é quem está ali sustentando a operação. E a lei já não trata mais isso como opcional: o que era invisível na cultura do setor agora é item de fiscalização.

Bico não, profissão

Existe uma palavra que resume um preconceito enorme com quem trabalha em eventos: “bico“. Tem gente que ainda enxerga essa função como um favor, uma diversão disfarçada de trabalho, como se bastasse se candidatar para garantir lugar de honra pertinho do palco, curtindo o show do artista que está se apresentando. Mas quem está na operação sabe: controlar acesso, recepcionar convidados, orientar fluxo de público sob pressão, por horas seguidas, é trabalho técnico, e trabalho sério.

Tive um caso, há cerca de cinco anos, que ilustra bem essa falta de respeito. Três jovens se infiltraram na equipe com a intenção de, na prática, abandonar o posto no meio da operação para ir curtir o evento como público. Nosso time percebeu a tempo e conseguiu tirá-los da operação antes que colocassem em risco o trabalho de toda a equipe. Foi mais do que uma tentativa de furar fila: foi a prova de como uma parte do mercado ainda vê essa função como brecha para se divertir de graça, e não como profissão que exige compromisso, treinamento e responsabilidade.

Esse tipo de episódio não é sobre três pessoas mal-intencionadas. É sintoma de uma falta de reconhecimento profissional mais ampla. A mesma que explica por que tanta gente entra na operação sem noção do que o trabalho exige, e por que tanta gente boa sai depois de descobrir que não é isso que procurava. Uma pesquisa interna na minha empresa, recente feita com centenas de staffs de operações de eventos em todo o país mapeou os motivos reais de saída, e boa parte deles nem chega perto de convocação ou pagamento: é o desgaste de lidar, dia após dia, com convidado alterado pelo álcool que ofende ou agride verbalmente quem está apenas cumprindo protocolo de acesso, e com produtores sem experiência de operação que pressionam a equipe por decisões que colocam em risco a segurança do próprio evento.

Não é falta de gente disponível para trabalhar. É falta de reconhecimento de que essa é, sim, uma profissão, e agora também é, cada vez mais, uma questão de conformidade legal para quem contrata essa mão de obra.

O invisível tem nome, função e trajetória

Gosto de chamar quem trabalha nos bastidores de guardiões da experiência: são eles que seguram a estrutura para que a experiência do público aconteça sem perrengue. Mas ser o guardião não é sinônimo de ser descartável. Tem staff que começou como iniciante e hoje coordena equipes de duzentas pessoas. Tem gente que aprendeu a operar o credenciamento de nível internacional sem nunca ter passado por uma faculdade de eventos, aprendeu ali no “com o pé na lama” [Como dizemos nos bastidores], literalmente.

O mercado de eventos brasileiro é gigantesco, mexe com bilhões, enche estádios, para cidade inteira, mas ainda trata sua espinha dorsal operacional como commodity. E commodity a gente troca sem culpa. Só que agora, trocar sem cuidado também é risco jurídico.

Um convite

Essa coluna nasce para dar rosto e voz a quem sustenta o setor por dentro. Nas próximas semanas, vou trazer os bastidores de como o mercado está e como precisa se profissionalizar: da forma como tratamos quem convocamos até o próximo grande diferencial competitivo que a maioria ainda trata como checklist.

Se você trabalha com eventos e nunca parou para pensar em quem constrói a experiência antes de você chegar e depois de você ir embora, essa série é para você. Se você é esse guardião invisível, essa série é sobre você.

Fonte: Promoview