categoria Comportamento
Data 29 de junho de 2026

Enquanto os jogos acontecem nos Estados Unidos, Canadá e México, a batalha de verdade, a que decide quem vai ficar na memória do consumidor, está sendo travada aqui.

Trabalho com brand experience há mais de duas décadas. E posso dizer com convicção: raramente vi uma Copa do Mundo gerar tanta movimentação criativa dentro do Brasil sem que o Brasil fosse sede. Isso diz muito sobre o nosso mercado. E, honestamente, diz ainda mais sobre o que está em jogo para as marcas.

A Copa de 2026 começou em 11 de junho, com 48 seleções espalhadas por 16 cidades em três países. A final acontece em 19 de julho no MetLife Stadium, em Nova Jersey. São 39 dias de torneio, mais de 100 jogos. Mas o número que mais me interessa não está no regulamento da FIFA. São os R$ 4 bilhões que o evento deve movimentar na economia brasileira, segundo a CNC. Todo esse dinheiro em um país que não foi para a competição nos mais elevados níveis de confiança em trazer o hexa.

O que isso explica? Que o brasileiro não precisa estar no centro do palco para protagonizar a festa.

O ritual coletivo como ativo de marca

Tem um dado que costumo usar com clientes que me perguntam se vale investir em live marketing durante a Copa: o futebol é um dos últimos rituais de experiência coletiva em larga escala que restam na nossa cultura. O brasileiro não assiste à Copa sozinho. Assiste com a família, com os amigos, no bar, no fan fest, na rua. Grita junto. Chora junto. Comemora junto. É um dos momentos únicos de catarse da nossa nação.

E rituais coletivos são o ambiente natural do live marketing.

Enquanto a TV aberta ainda concentra maior percentual da audiência, YouTube e redes sociais disputam uma fatia bem interessante da atenção das pessoas que estão com o celular na mão comprando, reagindo, compartilhando memes em tempo real. A atenção do consumidor está fragmentada, mas o sentimento é unificado. Esse paradoxo é exatamente onde as marcas mais inteligentes estão operando, além das camisas do Brasil que sumiram das prateleiras.

Relevância não se compra com patrocínio oficial

Uma das coisas que mais me chama atenção nessa Copa é a movimentação de marcas que não têm qualquer vínculo com a FIFA ou com a CBF e que ainda assim estão criando memória.

O QuintoAndar passou a se apresentar como SextoAndar. Simples, ousado, sem precisar de contrato com nenhuma entidade esportiva. A Casas Bahia lançou o “Ganhou, É Pix”, prometendo premiar clientes a cada vitória do Brasil e pagar carnês inteiros se vier o hexacampeonato. A Pizza Hut ressignificou o trauma do 7×1: criou uma promoção progressiva em que, conforme o Brasil avança no torneio, mais pizzas você ganha pelo preço de uma. De 2×1 na fase de grupos até 7×1 na final. É criatividade com propósito.

O Duolingo aproveitou o árbitro Wilton Pereira Sampaio, que viralizou nas redes por se atrapalhar com o inglês ao anunciar um cartão vermelho, e o colocou em uma campanha da marca em tempo real. A Snickers fez diferente: sem poder patrocinar a Seleção Brasileira, virou patrocinadora do Brasil de Pelotas, o time gaúcho. Com Neto como embaixador. Resultado? Repercussão nacional com fração do investimento de um patrocínio oficial.

Cada uma dessas ações responde a uma pergunta diferente do consumidor. O que as une é que nenhuma delas ficou esperando que o patrocínio oficial fizesse o trabalho por elas e todas repercutiram em ações criativas com bons materiais.

A lição que o mercado ainda demora a aprender

Já escrevi sobre como as marcas costumam esquecer a jornada completa do consumidor. Na Copa, esse erro aparece com força. Investir apenas em inserção de mídia durante os jogos é como aparecer no casamento de um amigo só para a foto. Você estava lá, mas ninguém vai lembrar de você.

O que constrói memória é estar presente nos momentos de emoção, na preparação e no pós-jogo. É criar um ponto de contato que faça sentido dentro do ritual, não que o interrompa.

Isso vale para marcas com orçamento de patrocinador global. Vale ainda mais para quem não tem.

O Brasil sempre encontra um jeito

Tem uma frase que eu gosto de repetir: o Brasil entrega o impossível todo santo dia. Com verba reduzida, briefing que muda três vezes e prazo que ontem já era tarde, o nosso mercado produz experiências que emocionam e que ficam.

A Copa de 2026 é mais uma prova disso. Sem ser sede, sem ter os jogos aqui, sem tanta confiança em campo, o Brasil está competindo, e vencendo, na batalha de brand experience.

Fonte: Promoview