Comportamento
28 de junho de 2026
Existe uma conquista que raramente é lembrada durante o Mês do Orgulho: envelhecer. Para muitas mulheres trans que hoje têm 40, 50, 60, 70 anos…, chegar à maturidade é a maior conquista. E isso em uma lista enorme de desafios, como enfrentar expulsão de casa, abandono da escola, dificuldade para conseguir emprego, violência cotidiana, preconceito… Atravessar tantas décadas de vida, em um mundo com altos índices de violência contra pessoas trans, é uma história de resistência.
Segundo levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil segue liderando os rankings mundiais de assassinatos desse grupo. Entre 2017 e 2023, de acordo com a Antra, cerca de 79% das pessoas trans assassinadas no Brasil tinham menos de 35 anos. Ao mesmo tempo, estudos internacionais mostram que ao envelhecer, elas apresentam maior risco de isolamento social, discriminação e dificuldades de acesso à saúde, resultado de décadas de exclusão acumulada.
Hoje vemos atrizes, modelos, parlamentares, empresárias e criadoras de conteúdo trans ocupando espaços que antes pareciam impossíveis. Mas antes dessa representatividade, existiu uma geração de mulheres que precisou abrir essas portas, tornando-se uma espécie de construtoras de futuros.
Força e coragem
Quando Roberta Close, hoje com 61 anos, apareceu nas capas das revistas brasileiras nos anos 1980, o país praticamente não conhecia outra mulher trans tratada com respeito pela grande imprensa. Sua beleza chamava atenção e desmontava estereótipos. Ao longo da carreira, Roberta sempre evitou assumir o papel de porta-voz de uma causa. “Nunca quis ser símbolo de nada. Só queria viver minha vida”, declarou em diferentes entrevistas. Ainda assim, tornou-se um símbolo. Estrelou campanhas publicitárias, desfiles, novelas e capas de revistas de grande circulação, virando um ícone da moda e da cultura pop. Em 1993, também fez história ao obter na Justiça o direito de retificar seu registro civil, um marco para o reconhecimento dos direitos das pessoas trans no país.
Roberta Close
Roberto Filho
Outra pioneira brasileira foi Claudia Wonder, que faleceu em 2010 aos 55 anos. Cantora, escritora, atriz e ativista que ajudou a construir parte importante da luta pelos direitos LGBTQIA+ durante as décadas de 1980 e 1990. Em seus livros e entrevistas, defendia que pessoas trans tinham direito não apenas de existir, mas de envelhecer com dignidade. Já a ativista Keila Simpson, fundadora e atual presidente da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), tornou-se uma das vozes mais respeitadas do movimento trans brasileiro. Aos 60 anos, segue atuando na defesa dos direitos humanos e costuma lembrar que envelhecer sendo uma mulher trans ainda continua sendo um enorme desafio social.
Do outro lado do Atlântico, April Ashley, que faleceu em 2021 aos 86 anos, já havia percorrido um caminho semelhante. Nos anos 1960, construiu carreira internacional na moda até que sua identidade fosse exposta pela imprensa britânica. Perdeu contratos, sofreu enorme perseguição pública e enfrentou batalhas judiciais que marcaram a história dos direitos das pessoas trans no Reino Unido. Décadas depois, seria reconhecida pelo próprio governo britânico por sua contribuição à sociedade.
April Ashley
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Também britânica, Caroline Cossey, 71, conhecida como Tula, tornou-se uma das primeiras modelos trans de projeção mundial. Participou de um filme da franquia James Bond, estampou a Playboy e enfrentou uma longa disputa judicial para ter sua identidade reconhecida legalmente.
Caroline ‘Tula’ Cossey
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A modelo estadunidense Tracey Norman, hoje com mais de 70 anos, tornou-se um símbolo de perseverança. Ela brilhou nos anos 1970, teve a carreira interrompida quando descobriram que era trans e décadas depois voltou às passarelas como ícone de diversidade e envelhecimento.
Tracey Norman
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Legado que vai além da visibilidade
Se aquela geração lutou principalmente pelo direito de existir, as mulheres trans que vieram depois puderam começar a disputar também o direito de ocupar espaços de poder. É impossível falar dessa mudança sem lembrar da atriz Laverne Cox, 54. Primeira mulher trans indicada ao Emmy na categoria de atuação pela série Orange Is the New Black, ela costuma lembrar que representatividade, sozinha, não resolve tudo. Visibility isn’t enough (“Visibilidade não basta”), afirmou recentemente. Para ela, reconhecimento precisa caminhar junto com segurança, acesso à saúde, educação e oportunidades de trabalho.
Laverne Cox
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No Brasil, Erika Hilton, 33, representa uma nova etapa dessa trajetória. Primeira deputada federal assumidamente trans e uma das vozes mais influentes da política brasileira, costuma destacar que nenhuma conquista individual acontece isoladamente. Cada espaço ocupado hoje foi construído sobre o esforço de quem veio antes. A ativista Indianara Siqueira, 55, talvez seja um dos maiores exemplos disso. Durante anos, dedicou sua atuação à criação de redes de acolhimento para pessoas trans em situação de vulnerabilidade, oferecendo muito antes do Estado aquilo que muitas vezes faltava: proteção, pertencimento e possibilidade de futuro.
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Vogue
Há ainda mulheres cuja maior contribuição talvez tenha sido mostrar que nunca existe uma idade certa para viver quem se é. Quando a cartunista Laerte Coutinho, 75, tornou pública sua identidade de gênero depois dos 50 anos, desmontou a ideia de que mudanças profundas pertencem apenas à juventude. No universo da moda, Lea T, 45, consolidou uma presença inédita nas passarelas internacionais e nas campanhas de luxo. Filha do ex-jogador Toninho Cerezo, tornou-se musa de Ricardo Tisci na Givenchy e abriu caminho para uma nova geração de modelos trans em grandes marcas globais.
Lea T
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Faz parte das comemorações do Mês do Orgulho falar de novas pautas e próximas conquistas. Mas há um ponto que deveria ser mais valorizado e que é o símbolo maior do que é Pride: as mulheres trans que hoje atravessam a barreira dos 40 anos. Elas pertencem à primeira geração que conseguiu permanecer visível por tempo suficiente para envelhecer diante do público. São testemunhas das transformações sociais que ajudaram a construir.