Comportamento
25 de junho de 2026
Recentemente fui à abertura de uma exposição e contei, sem querer, nove pessoas usando versões diferentes do mesmo sapato. A Tabi da Maison Margiela. Aquele com o bico dividido, criado por Martin Margiela em 1988 para questionar o que a moda entendia como belo. Durante anos, usar o modelo exigia uma certa coragem. Era um sapato cult, no sentido mais literal da palavra: para iniciados, para quem conhecia a história, para quem aguentava o estranhamento na rua como parte da escolha. Então veio TikTok, algoritmo, caso viral e o cult virou uniforme.
Não que eu estivesse de fora. Olhei em volta e percebi que também tinha chegado com minha própria versão de uniforme. Outra combinação, outro código, igualmente previsível para quem quisesse ler.
Quando foi que até o desejo de parecer único começou a produzir pessoas tão parecidas?
A questão não é a escolha do sapato. É o que aconteceu com a nossa capacidade de escolher. Num mundo dominado pelas redes sociais, pelo excesso de estímulos e pelo consumo visual acelerado, começa a surgir uma sensação difícil de ignorar: a de que recebemos tudo já desejado, antes mesmo de podermos escolher desejar.
A top Paloma Elsesser usando os tabis, da Maison Margiela, criado em 1988 para questionar o que a moda entendia como belo
Getty Images
Susan Sontag, escritora e crítica cultural americana que dedicou a vida a entender como formamos julgamento estético, escreveu que o gosto governa toda resposta livre do ser humano. Não apenas o gosto estético, mas toda a capacidade de entender o que ressoa, o que merece atenção, o que nos forma. Para Sontag, gosto não era acúmulo de referências nem consumo ou status, era uma forma refinada de percepção. Um mecanismo para distinguir diferenças reais em meio ao ruído e que, como qualquer outro, atrofia se não for exercitado.
Há mais de uma década, plataformas digitais transformaram desejo em previsibilidade. O algoritmo deixou de apenas mostrar produtos: agora antecipa comportamentos, sugere identidades e reduz a distância entre consumo e validação social. É uma promessa de liberdade de escolha infinita, mas tudo ficou excessivamente otimizado, imediato e validado. O desejo passou a circular já acompanhado de consenso, aprovação e pertencimento.
As pessoas não perderam o desejo, mas perderam a capacidade de formá-lo com autonomia. Construir gosto exige tempo, curiosidade, estranhamento e repetição. Gostar exige errar, estranhar, duvidar. Exige não entender imediatamente, sustentar um interesse antes que ele seja legitimado coletivamente. Gostar sozinho exige algum grau de desconforto e talvez também um pouco de coragem.
Street style na semana de moda da Austrália
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No entanto, há uma armadilha em ler essa repetição apenas como preguiça estética. O gosto, afinal, nunca foi um exercício puramente solitário; ele se nutre do espelhamento. Para muitos, calçar o bico dividido não é um ato de submissão cega, mas um sinal de reconhecimento mútuo — a busca por uma “tribo” em um deserto digital cada vez mais impessoal. O problema não é o desejo de pertencer, que é humano e legítimo, mas o quanto delegamos às máquinas a tarefa de decidir a qual grupo devemos pertencer antes mesmo de entendermos quem somos.
Talvez o desafio contemporâneo não seja encontrar um desejo “puro” e isolado, mas sim ter a consciência de quando estamos escolhendo um uniforme para pertencer e quando estamos, de fato, exercitando o músculo do estranhamento. No fim, a moda continua sendo esse jogo eterno de esconde-esconde entre o eu e o nós. A pergunta que fica não é se o seu desejo é original, mas se você ainda consegue reconhecer a sua voz no meio do coro.