categoria Comportamento
Data 09 de julho de 2026

“Ué, mas por que então que você não me chamou?” A pergunta foi feita por Camila Pitanga a Bete Coelho no Festival de Curitiba de 2024. Camila tinha acabado de assistir a Ana Lívia, peça da companhia Teatrofilme estrelada por Bete, quando ouviu dela que havia pensado em convidá-la para o espetáculo, mas recuou imaginando que a agenda da atriz seria um obstáculo. “Falei: não, pra você nunca seria difícil”, conta Camila em entrevista à Vogue Brasil. Meses depois, o convite oficial chegou por escrito, e ela abraçou, nas suas palavras, com unhas e dentes. Em pouco tempo, as duas estavam na sala de ensaio de Lia Lia, espetáculo que estreia em Campinas nesta quinta-feira (09.07), no Centro Cultural Sesi da cidade, e chega a São Paulo no dia 24 de julho, no Centro Cultural Fiesp.
A admiração, porém, é bem mais antiga. Camila viu Bete no papel-título de Cacilda!, montagem de Zé Celso no Teatro Oficina sobre a vida da atriz Cacilda Becker. “Quando eu vi, entendi que eu tava diante das maiores atrizes do teatro brasileiro”, diz. “Fiquei siderada e nunca mais perdi o fio de acompanhar a carreira dela. Porque ela me incendeia.” O convite da Teatrofilme, companhia fundada por Bete e Gabriel Fernandes, chegou e pegou a atriz de surpresa. “Nem posso dizer que era um sonho, porque eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Foi uma linda surpresa. É um encontro para a vida, na vida e na arte.”
Lia Lia adapta Lia: Cem vistas do Monte Fuji (2024), primeiro romance de Caetano W. Galindo. É a terceira colaboração do autor com a cia, depois de Molly-Bloom (2022) e Ana Lívia (2023). Como o próprio título indica, a referência vem das gravuras de Katsushika Hokusai, série em que o Monte Fuji é observado de ângulos, luzes e distâncias diferentes. Aqui, essa imagem se traduz em Lia, uma mulher revelada por episódios de diferentes momentos da vida, que, sem seguir uma ordem cronológica, vão compondo aos poucos o retrato da personagem. A adaptação é assinada por Bete, com trechos inéditos escritos por Galindo para a montagem.
Bete Coelho e Camila Pitanga
Divulgação/Gleeson Paulino
“Não me interessava organizar esse material para torná-lo mais explicável, mais comportado. O que me interessava era escutar a lógica íntima desses fragmentos, porque eles já carregam uma pulsação, uma musicalidade, uma forma de pensamento.” O trabalho, complementa, se abriu para o coletivo. “Não foi apenas um trabalho entre nós dois. Foi uma elaboração conjunta, abraçada pelo elenco, pelas equipes da Teatrofilme e, de maneira muito intensa, pelo Gabriel, que teve uma visão e uma escuta dramatúrgica fundamentais no processo.”

o
Para quem entra na personagem, a experiência tem outro ângulo. “Tudo parte do livro do Caetano Galindo, que apresenta quase que instantâneos da vida de uma mulher, dando foco a cada instantâneo, a cada etapa de vida de maneira não cronológica, mas transbordando humanidade”, conta Camila. “Eu fui convidada a me pensar também como mulher, pensar sobre o meu tempo, pensar sobre essas mesmas relações. O que fica é esse prazer que eu tenho de pensar, de estar no mundo. Mais do que pensar, de estar no mundo.”
Bete Coelho e Camila Pitanga
Divulgação/Gleeson Paulino
A divisão da personagem entre duas atrizes é o eixo da montagem. Bete e Camila fazem a mesma Lia em fases distintas, e em alguns momentos aparecem simultaneamente em cena. O elenco tem ainda Roberto Audio, Laís Lacôrte e Lindsay Castro Lima, além de um coro cênico que se renova a cada cidade. A direção é dividida entre Bete e Gabriel, o cenário é assinado por Daniela Thomas e Felipe Tassara, com direção de arte da própria Daniela; o figurino é de Renata Correa; a luz, de Beto Bruel. “Desde o início, me interessava que a relação entre nós duas não fosse resolvida de maneira exterior, como se bastasse construir semelhanças”, diz Bete. “O desafio era outro: entender que mulher era essa, que matéria humana era essa, para que essa personagem pudesse preencher e tomar conta de dois corpos, duas vozes, duas presenças fortes e complementares.”
Para Camila, é o próprio teatro que abre esse jogo. “O teatro tem que ter essa liberdade que, no filme realista, é mais raro de você ver, que é o fato das atrizes poderem fazer tudo. Então tem a gente fazendo as duas, fazendo a Lia com oito anos de idade, fazendo fases de vida muito distintas, atuando na mesma circunstância, ao mesmo tempo. O barato é justamente esse risco, essa aventura que é a gente fazer um pouco de tudo da vida dessa mulher Lia.” E completa: “Pelo fato de sermos mulheres tão diferentes, de escolas diferentes, de experiências, de vidas diferentes, isso também traz um colorido muito interessante. A gente acaba sendo, por ora, complementares, por ora, pelo contrário, divergentes. Isso aqui é a riqueza também do espetáculo.”
Bete retoma a referência ao Hokusai. “A Lia também é isso: uma figura que nunca se entrega inteira de uma vez. Assim como o Monte Fuji, ela permanece e se desloca, as duas coisas ao mesmo tempo, dependendo do ângulo, da luz, da distância, do momento, do olhar de quem vê. Você não vê uma imagem fixa: você vê uma presença sendo reinventada a cada instante.”
A carreira de Bete inclui trabalhos com Gerald Thomas, Antunes Filho, Zé Celso e Bob Wilson. Do que ficou dessa formação, ela nomeia um traço. “Ficou, antes de tudo, uma confiança no espectador. Uma confiança de que ele não precisa receber tudo explicado, mastigado, resolvido”, diz. “Cada um à sua maneira, compreendiam que a cena pode produzir pensamento, sensação, inquietação, sem precisar se fechar num sentido único. Como diretora, me interessa criar um campo de percepção, sem respostas prontas.”
Bete Coelho e Camila Pitanga
Divulgação/Gleeson Paulino
Camila também tem o teatro como herança de casa. Filha de Antônio Pitanga, cresceu numa família de atores e, neste ano, tem dois trabalhos que a levam de volta à trajetória do pai: Malês, filme dirigido por ele, e a Mostra Pitanga, retrospectiva do seu trabalho como ator e diretor, que Camila ajuda a curar e que passa por Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Brasília. “É ter a chance de poder pensar o ofício. Quando eu estou pensando na carreira dele, eu também estou pensando na minha”, reflete. “Também estou pensando o que é ser ator, ser atriz num país como o Brasil. Também estou pensando como é que a política cultural pode determinar uma mudança radical na vida de uma pessoa, como é o caso do meu pai, um cara filho de lavadeira, que pode mudar os rumos do que seria mais predestinado por um homem negro. Ele é um ator, um homem vencedor. E a cultura, como ele mesmo diz, fez as vezes de trampolim.”
Antes de chegar a Campinas, Lia Lia percorreu o interior de São Paulo passando por Sorocaba, Ribeirão Preto, Itapetininga, São José dos Campos e Rio Claro, desde março. Em cada cidade, duas alunas do Núcleo de Artes Cênicas do Sesi (NAC) integram o coro cênico, que se renova a cada parada. Para Bete, o formato faz parte do que a peça é. “Cada nova presença altera discretamente a vibração da montagem, o desenho interno das relações, a temperatura da cena. O teatro também é essa arte da permeabilidade, daquilo que se transforma sem perder sua estrutura”, observa. “A participação de alunas do NAC em cada cidade tem, para mim, um valor muito especial, porque está profundamente alinhada a um modo de fazer teatro que a companhia acredita e pratica: um teatro de encontro, de escuta, de troca real, que não chega aos lugares de maneira fechada, mas se deixa provocar por eles.”
Bete Coelho e Camila Pitanga
Divulgação/Gleeson Paulino
Camila fala do lado do público. “Me anima demais que a peça seja essa dádiva ofertada para a comunidade e para pessoas que não estão tão habituadas ao teatro. Mas isso só se completa porque a peça comunica, porque a peça emociona, porque a peça chega”, conta. “Nos ensaios abertos, a gente teve a oportunidade de ter muito feedback, e ver, mesmo nos aplausos finais, muita gente chorando, muita gente comovida. Tocar a alma das pessoas, fazer com que pessoas que nunca foram ao teatro se encantem com o teatro, é uma alegria para quem faz.” Sobre o que fica do processo, Camila resume. “A peça convida as pessoas a também terem esse tesão de estar, de pensar o presente, estar presente no mundo.”
Revistas Newsletter

Fonte: Vogue