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21 de setembro de 2026
A Quarta Revolução Industrial em curso transforma o mercado de trabalho de uma forma sem precedentes. Entusiastas ou refratários, todos se perguntam em que medida a tecnologia ajudará os seres humanos a trabalhar melhor e, quem sabe, menos, com mais qualidade de vida. E em que medida a força de trabalho será substituída. Neste mês que abarca o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, nesta segunda-feira (21.09), estive investigando a opinião de amigos que vivenciam os desafios de ser uma pessoa com deficiência no mercado de trabalho brasileiro. Afinal, a tecnologia está incluindo ou criando novas barreiras?
Nosso senso comum nos leva, provavelmente, a vídeos curtos assistidos nas redes sociais. Neles, vemos braços biônicos, ou seja, próteses robóticas avançadas que substituem membros amputados ao captar impulsos elétricos dos músculos restantes e transformá-los em movimentos precisos. Exoesqueletos robóticos, que consistem em um dispositivo de assistência robótica projetado para ajudar pessoas com deficiências motoras ou lesões a se movimentar de forma mais fácil e independente. Novas cadeiras de rodas verticais, um equipamento de tecnologia assistiva que eleva o usuário da posição sentada para a posição ereta (em pé) com segurança.
São iniciativas que nos alegram e inspiram. No entanto, pouco pensamos em complexidades ou profundidades tais como o audiobook, que está cada vez mais presente em espaços como exposições. Mas, ele substitui o sistema Braille (código de escrita e leitura tátil usado por pessoas cegas ou com baixa visão)?
Recentemente, tive a oportunidade de escutar de Regina Caldeira, autora do livro Protagonistas 2 e uma das maiores especialistas em Braille do Brasil, que não. Ela comenta que “o audiobook é sempre a narrativa a partir do ponto de vista de uma outra pessoa e, portanto, não substitui a compreensão direta que o Braille possibilita para uma pessoa cega”.
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Da mesma forma, já escutei de um amigo cadeirante que toda essa tecnologia robótica segue financeiramente muito distante de uma pessoa com deficiência física no Brasil, ainda que pertença à classe média. Sinalizou ainda que nem todas as pessoas têm letramento digital suficiente para compreender e utilizar as novas tecnologias.
Essa discussão me remete ao conceito de design justice, sistematizado por Sasha Costanza-Chock, que propõe deslocar uma pergunta fundamental da inovação: não apenas “o que conseguimos criar?”, mas quem participa das decisões sobre aquilo que criamos e quem se beneficia delas. Quando aplicamos essa lente às pessoas com deficiência, a contradição fica evidente. Podemos celebrar inteligência artificial, próteses biônicas, exoesqueletos e ambientes digitais cada vez mais sofisticados, mas se pessoas com deficiência não estiverem no centro da concepção, dos testes e das decisões, corremos o risco de usar tecnologias do futuro para reproduzir exclusões muito antigas.
Talvez, portanto, a pergunta mais importante não seja até onde a tecnologia pode chegar, mas quem consegue chegar até ela. Uma inovação pode ser extraordinária do ponto de vista técnico e, ainda assim, pouco transformadora socialmente se permanecer inacessível por renda, território, letramento digital ou desenho excludente. Para pessoas com deficiência, o verdadeiro avanço não está apenas em criar tecnologias capazes de ampliar a autonomia, mas em garantir que essa autonomia não seja um privilégio de poucos. Porque tecnologia que existe, mas não pode ser acessada, compreendida ou utilizada por quem mais poderia se beneficiar dela é inovação pela metade.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil.
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