categoria Conexão
Data 15 de setembro de 2026

Praga é revolução, é arte e é mesa, també. Foi nessa cidade que Ana Isabel de Carvalho Pinto passou alguns dias e voltou impressionada com a delicadeza que sobrou de um século inteiro de rupturas. “Carreguei essa imagem pelos dias em que andei por Praga, porque ela explica tudo o que eu estava vendo na rua. As pessoas falam baixo. Cedem passagem. Explicam o prato inteiro antes que você pergunte. Há uma cortesia de fundo que sobreviveu ao século XX, ao regime e ao turismo, e que, num país que saiu de uma ditadura há pouco mais de trinta anos, era a última coisa que eu esperava encontrar”, contou a co-fundadora do Shop2gether à Vogue. É nessa inspiração que ela entrega seu roteiro aos leitores da Vogue: três dias entre o Art Nouveau de Alphonse Mucha, a única arquitetura cubista do mundo e mesas que inovam sem esquecer da tradiçã. “Praga desfaz uma ideia comum, a de que passar por opressão deixa marcas de aspereza. Dá para avançar sem perder a doçura”, resumiu.

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Praga segue mudando. A inovação chegou pela arte, pela cultura e pela mesa.
Roteiro
Dia 1: a Praga que não muda
Comece na Praça da Cidade Velha antes das dez, quando ainda dá para olhar para o Relógio Astronômico sem cotovelo alheio no caminho. Ele é de 1410 e é o mais antigo do mundo ainda em funcionamento. Depois pegue um bonde, e pegue com intenção. A rede elétrica funciona desde 1891 e é a coisa mais antiga de Praga que ainda trabalha de verdade, levando gente ao trabalho todo dia. Enquanto os monumentos viraram espetáculo, o bonde continuou sendo serviço. A linha 22 atravessa a cidade e sobe até o Castelo.
Mucha Foundation_ (7)
Reprodução
A tarde é do Art Nouveau, e aqui entra o personagem que praticamente desenhou a cara do país. Alphonse Mucha ficou famoso em Paris, em 1894, com o cartaz da Gismonda para Sarah Bernhardt. Voltou para casa, e quando a Tchecoslováquia nasceu, em 1918, foi ele quem desenhou o brasão nacional, os documentos oficiais e até os uniformes da polícia, além dos primeiros selos e cédulas, quase sempre de graça, ou cobrando apenas o custo do material. Por uma geração, um tcheco não pagava uma conta sem segurar um Mucha na mão.
O Museu Mucha (Panská 7) é pequeno e resolve em uma hora, com os cartazes originais da fase parisiense e da tcheca. A três quarteirões dali, o Obecní dům é o Art Nouveau no auge. No arco da fachada, o mosaico Homenagem a Praga, de Karel Špillar, e uma inscrição correndo pela borda que pede à cidade que resista ao tempo e à maldade como resistiu a todas as tempestades dos séculos. Vale visitar: Mucha decorou o Salão do Primaz, e ele não se vê de fora.
Ana Isabel de Carvalho Pinto no Mucha Foundation
Reprodução
Guarde meia hora para o Národní muzeum, no alto da Praça Venceslau. É de 1891, neorrenascentista, e serve de régua. É a Praga anterior a tudo isso, a que ainda afirmava a nação copiando as formas da Europa. Três anos depois veio a Gismonda, e a cidade nunca mais pareceu a mesma. A claraboia sobre a escadaria monumental é a melhor foto de interior que fiz na viagem.
Restaurante Alma
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Jantar no Alma (V Jirchářích 8). Cozinha aberta, fermentação e aproveitamento integral, vinhos naturais, uma cozinha tcheca contemporânea comandada por Petr Židek e Michal Daněk. Havia flores lilás na mesa, a paleta de Mucha reaparecendo onde eu menos esperava.
Dia 2: o Castelo, a ópera e a beira do rio
Atravesse a Ponte Carlos cedo. Às oito e meia ela está vazia e com a melhor luz do dia. Às dez, impraticável. Do outro lado começa Malá Strana, de ruas barrocas e jardins, boa para o café da manhã.
Catedral de São Vito
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Castelo de Praga. Catedral de São Vito, e o motivo de estar ali é o vitral que Mucha assinou em 1931. Um detalhe que quase ninguém repara. Ele não foi montado no método tradicional, com vidros coloridos encaixados em chumbo. O vidro foi pintado. Mucha pintou até a luz.
Nový Svět. A ruazinha de casas miúdas atrás do Castelo, onde moravam os serviçais da corte. É o lugar mais silencioso de Praga e o melhor fecho possível para a manhã. Almoce por ali e desça por volta das quatro.
Ópera Estatal (Wilsonova 4). Talvez a coisa mais reveladora da viagem sobre o caráter da cidade. Uma casa grandiosa, ingressos acessíveis, plateia local, ninguém se exibindo.
Restaurace U Kalendů
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Jantar no U Kalendů (Rašínovo nábřeží 383/58). Era uma taverna de operários do antigo bairro ribeirinho de Podskalí, que abria às seis da manhã. Hoje é restaurante com padaria dentro. Curam e defumam a própria carne e assam o próprio pão. Clássicos regionais em menu curto, lebre braseada, bochecha de porco, os knedlíky doces de sobremesa. Bib Gourmand, sempre cheio, reserve. Peça o pão com manteiga mesmo já tendo pedido tudo o mais.
Restaurace U Kalendů
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O contraste com o Alma é o coração desta cidade. O Alma cozinha ingrediente e memória tchecos com técnica de agora, e o U Kalendů recuperou uma taverna proletária com um cuidado que só existe hoje. Não é tradição contra inovação. É tradição virando inovação.
Dia 3
Reserve a manhã para o achado da viagem, que quase ninguém conta. Praga é a única cidade do mundo com arquitetura cubista. O cubismo pictórico está espalhado pela Europa, mas levá-lo para a arquitetura foi um fenômeno puramente tcheco, entre 1911 e 1914.
Estátua Madona Negra
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Vá à Casa da Madona Negra (Celetná 34). Projetada por Josef Gočár entre 1911 e 1912, é o primeiro edifício integralmente cubista já construído, e o detalhe que resume a cidade inteira. Substituiu uma construção barroca, mas a estátua da Madona Negra foi preservada e mantida na fachada, como elo com o passado. Praga inventando o mais radical da Europa e, ainda assim, sem jogar fora o que estava ali antes.
Grand Café Orient
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No primeiro andar fica o Grand Café Orient, o único café cubista do mundo, restaurado ao projeto de 1912 a partir de plantas e fotografias. Gočár desenhou desde o mobiliário até as luminárias. Peça o věneček. Nos andares acima, o museu do cubismo tcheco, e na saída peça o mapa das outras construções do estilo pela cidade. A caminho, passe pela Nová Síň (Voršilská), galeria de fachada funcionalista dos anos 1930, a camada que fica entre o Art Nouveau e o presente e que ninguém fotografa.
DOX Centre for Contemporary Art
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À tarde, Holešovice, o antigo bairro industrial ao norte. O DOX é o principal centro de arte contemporânea do país, com o dirigível de madeira Gulliver atravessado sobre a estrutura, e a Vnitroblock, uma fábrica virada café, loja e espaço de design, fica a poucos minutos.
E, o dia inteiro, olhe para cima. Praga não apagou nada para se modernizar, acrescentou por cima. O gesto fundador é de David Černý, que em 1991 pintou de rosa um tanque soviético que servia de monumento e plantou um dedo em cima da torre. Foi preso brevemente, e o país entendeu aquilo como desobediência civil. Não derrubaram o monumento, pintaram de rosa. É a diferença entre raiva e ironia.
DOX Centre for Contemporary Art
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Desde então a cidade se encheu de intervenções, e as melhores estão no alto. Na Torre de Televisão de Žižkov, construída entre 1985 e 1992, doze bebês gigantes escalam os pilares, nunca abaixo dos cem metros. Seriam temporários, ficaram, com o aval do próprio arquiteto da torre. Uma estrutura pesada da era comunista que o país não demoliu, apenas cobriu de bebês. Não há metáfora melhor para esta cidade. Na rua Husova, procure Sigmund Freud pendurado numa viga, segurando-se com uma mão só.
O que se leva
Vista aérea de Praga
Reprodução
“Praga desfaz uma ideia que a gente carrega sem perceber, a de que passar por opressão deixa marcas de aspereza. Ali, quarenta anos de regime produziram o contrário, uma cidade que derrubou uma ditadura balançando chaves, que respondeu a um tanque com tinta rosa e a uma torre soviética com bebês, e que hoje inova pela arte e pela cozinha em vez de pela ruptura. Saí convencida de que dá para avançar sem perder a doçura. Poucos lugares provam isso tão bem.”
Onde ficar
BoHo Prague (Senovážná 4, Nové Método). Boutique, discreto, do tamanho certo. Fica a cinco minutos a pé da Ópera Estatal e a oito da Praça da Cidade Velha, o que resolve a logística de uma cidade que se faz inteira a pé e de bonde.
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Fonte: Vogue