categoria Saúde
Data 16 de setembro de 2026

O avanço dos medicamentos baseados em GLP-1, utilizados no tratamento de obesidade e diabetes, está transformando o cenário da saúde suplementar no Brasil. Durante debate realizado no primeiro dia do Healthcare Innovation Show 2026 – HIS, Ricardo Cohen, cirurgião bariátrico e coordenador do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Paulo Prado, diretor de rede sênior da Amil Saúde, e Stephen Stefani, professor de economia da saúde, discutiram como a transição desses medicamentos, desde sua proteção por patentes até sua aplicação preventiva, está transformando o cenário econômico.

Como uma novidade no evento, o encontro foi realizado em um formato dinâmico e interativo, inspirado no tradicional modelo de debates da Universidade de Oxford. A iniciativa promoveu um embate de ideias com rodadas de argumentos, proporcionando uma troca enriquecedora.

O público desempenhou um papel ativo, participando de enquetes em tempo real para avaliar os posicionamentos apresentados e, ao final, registrando seu voto digital para indicar qual tese foi mais convincente, permitindo um mapeamento preciso da percepção da audiência.

O declínio das cirurgias bariátricas

A popularização dos medicamentos GLP-1 está transformando o cenário da obesidade. Stephen Stefani destacou as transformações provocadas pelos medicamentos baseados em GLP-1 nos custos operacionais dos hospitais, na gestão de recursos pelas operadoras de saúde e na estratégia de mercado da indústria farmacêutica.

Dados da Amil — apurados exclusivamente para o HIS e apresentados por Prado — indicam uma queda de 39,6% no número de cirurgias bariátricas realizadas pela operadora entre setembro de 2024 e agosto de 2026 em todo o país.

“Faz três meses que eu não opero nenhum paciente bariátrico. Foi extinta a doença”, complementou Stefani, ressaltando o impacto dos novos medicamentos. Ricardo Cohen, por sua vez, ponderou que a demanda por tratamento “mudou de porta”, com pacientes buscando alternativas clínicas em vez de cirurgias.

O problema não é a falta de pagamento, mas de gestão

“Para o sistema de saúde privado no Brasil, qual é a origem central dos desperdícios financeiros relacionados à obesidade hoje?”, uma das questões interativas direcionada ao público, durante o painel, trouxe entre as opções de resposta: indicação inadequada de tratamento; abandono do uso de GLP-1 sem suporte clínico; custos elevados de cirurgias bariátricas e demora na autorização de tratamentos já cobertos pelos planos.

Os especialistas concordaram que o problema não está na ausência de pagamento, mas sim na falta de pagamento certo para a pessoa certa.

“O ser humano não é um tomador de remédio por natureza. Muitos pacientes iniciam o uso de GLP-1 e abandonam o tratamento por falta de suporte ou por questões financeiras. Isso gera eventos cardiovasculares e renais graves, aumentando os custos futuros para as operadoras”, explicou Stefani. E complementou: “não é apenas uma questão de pagar ou não pagar. É sobre garantir que o recurso seja utilizado de forma eficiente, beneficiando tanto os pacientes quanto as operadoras.”

Ricardo Cohen reforçou ainda a dificuldade das operadoras em identificar e monitorar os pacientes elegíveis para o tratamento e sofrer com altos índices de judicialização.

“Imagina a logística necessária para garantir que o paciente certo receba o medicamento certo na hora certa. Hoje, um em cada três lares no Brasil conhece alguém que usa GLP-1, mas muitos desses pacientes não têm indicação adequada”, afirmou.

Ele também mencionou que algumas operadoras norte-americanas já deixaram de pagar pelo tratamento devido à baixa adesão dos pacientes. E citou o exemplo do Canadá, onde o sistema público financia medicamentos como GLP-1 apenas para pacientes estritamente elegíveis e monitorados. “Eles pagam apenas pelo paciente certo, e isso permite calcular os benefícios econômicos e clínicos a longo prazo”, afirmou.

A rotatividade dos planos empresariais foi apontada como um dos principais obstáculos para a sustentabilidade financeira.

“75% das operadoras do Brasil trabalham com planos empresariais, e o cálculo da contribuição é baseado na sinistralidade do ano anterior. Isso significa que, muitas vezes, o paciente troca de plano antes que os benefícios de longo prazo do tratamento sejam percebidos pela operadora que custeou o medicamento”, explicou Stefani.

Além disso, a indicação inadequada de medicamentos e tratamentos foi outro problema recorrente relatado.

“Quando os pacientes recebem medicações que não são adequadas para sua condição clínica, os custos aumentam e os resultados esperados não são alcançados. Isso é um problema de gestão que precisa ser resolvido”, destacou Prado.

“Qual é o impacto econômico para as operadoras nos próximos 5 anos?”

“O impacto econômico real dos medicamentos GLP-1 para uma operadora de saúde nos próximos 5 anos será marcado por aumento de custos e repasses nos reajustes, economia devido à redução de cirurgias de alto custo, prejuízo estratégico pela rotatividade dos planos ou equilíbrio forçado com programas de indicações precisas?”, outra pergunta interativa levantada durante o debate.

Não há uma resposta certa ou errada, de acordo com os especialistas, mas sim percepções diferentes sobre os desafios enfrentados pelas operadoras. Embora os medicamentos GLP-1 sejam reconhecidos por sua eficácia no controle de doenças crônicas, seu custo elevado ainda representa um desafio significativo para as operadoras de saúde.

“Hoje, o GLP-1 é efetivo, mas não é custo-efetivo. Talvez, daqui a cinco anos, repita o que aconteceu com as estatinas, que inicialmente eram caras e hoje são amplamente acessíveis”, comentou Cohen. Apesar dos benefícios clínicos, como a redução de complicações graves e internações, o impacto econômico positivo só será percebido a longo prazo, de acordo com o especialista.

Além disso, foi apontado que os medicamentos podem contribuir para a diminuição de cirurgias de alto custo, como próteses de quadril e joelho, desde que sejam utilizados por pacientes com indicação adequada.

“A redução de eventos catastróficos e internações é um aspecto altamente positivo, mas precisamos garantir que o uso seja direcionado aos pacientes certos”, reforçou  o representante da Amil.

Precificação: o desafio de medicamentos acessíveis

A política de precificação dos medicamentos GLP-1 foi um dos desafios citados pelos especialistas para a acessibilidade no Brasil. Apesar de serem essenciais para o tratamento de diversas condições de saúde, os preços desses medicamentos frequentemente refletem o mercado global, sem considerar as particularidades econômicas do país.

“Precisamos buscar soluções que sejam viáveis para nossa população. Isso inclui alternativas como a produção local ou a importação de medicamentos equivalentes com qualidade garantida”, afirmou Stefani.

O professor ressaltou que países, como o Paraguai, têm adotado estratégias eficazes, como a fabricação local e o estímulo à concorrência entre fabricantes, o que tem contribuído para a redução significativa dos custos. Essas práticas poderiam servir de inspiração para o Brasil, promovendo maior acessibilidade e sustentabilidade no sistema de saúde, de acordo com Stefani.

Sustentabilidade e gestão integrada: o caminho para o futuro

O painel trouxe reflexões profundas sobre os desafios e soluções para garantir a sustentabilidade do sistema de saúde privado no Brasil. Os especialistas destacaram que o investimento em programas de cuidado integrados e científicos, com foco na adesão dos pacientes e na definição de critérios claros para o uso de medicamentos, é essencial para enfrentar os problemas financeiros que afetam o setor.

Além disso, foi enfatizada a necessidade de uma gestão eficiente que priorize a navegação dos pacientes dentro de linhas de cuidado bem estruturadas.

“A navegação precisa ser científica e regulada, com base em critérios técnicos e médicos. Isso é essencial para evitar desperdícios e garantir que os recursos sejam utilizados de forma eficaz”, afirmou Prado, reforçando a importância de um modelo de gestão baseado em evidências.

A percepção do público também foi um ponto de destaque no debate, que adotou o formato dinâmico e interativo inspirado no modelo de debates da Universidade de Oxford. Para compreender melhor como os participantes enxergavam os temas discutidos, os organizadores decidiram refazer a primeira pergunta apresentada no início do encontro.

Os resultados revelaram uma mudança significativa na opinião do público, com um aumento no número de respostas que apontavam as operadoras como principais responsáveis pelos desafios financeiros do sistema de saúde privado.

“Foi interessante observar como o debate influenciou a percepção do público. No início, havia uma visão mais dispersa sobre os fatores que impactam o sistema, mas ao final, ficou claro que muitos enxergam as operadoras como peças centrais na gestão desses problemas”, comentou Stefani.

É consenso entre os especialistas que, para enfrentar os desafios financeiros do sistema de saúde privado, é indispensável reformular o modelo de gestão, com foco na eficiência e na sustentabilidade.

“Precisamos de um sistema que priorize o paciente certo, com a medicação certa, no momento certo. Isso não é apenas uma questão de economia, mas de garantir que os recursos sejam utilizados de forma responsável e eficaz”, destacou Cohen.

A discussão também reforçou a importância de políticas que incentivem a adesão dos pacientes aos tratamentos e reduzam a rotatividade dos planos empresariais. “Sem uma gestão integrada e uma visão de longo prazo, será difícil garantir a sustentabilidade do sistema de saúde privado no Brasil”, concluiu Prado.

Acompanhe, no Saúde Business, a cobertura do HIS 2026 e veja os principais debates e tendências que estão movimentando o setor de saúde.

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