Comportamento
21 de julho de 2026
O diretor Christopher Nolan nunca quis que A Odisseia fosse apenas mais um épico hollywoodiano de espada e sandálias. “Ele tem aversão aos clichês cinematográficos sobre a Antiguidade”, diz Ellen Mirojnick, figurinista do longa, que já havia trabalhado com Nolan em Oppenheimer. “Não estávamos buscando um período histórico. Estávamos buscando um período atemporal.”
Ainda assim, embora tenham evitado criar uma obra de época presa à Idade do Bronze, Mirojnick queria que a história transmitisse uma sensação genuína de antiguidade. “Ela precisava ter uma legibilidade emocional para o público contemporâneo”, explica. Para alcançar esse equilíbrio, recorreu a tecidos que existiam naquele período. “Havia linho, couro e, claro, bronze”, afirma. “E isso também era um desafio, porque, nesses filmes de espada e sandálias, o bronze costuma aparecer sempre reluzente.”
Mas Mirojnick entrou em uma narrativa que já carregava mais de dez anos de história. A Odisseia começa no fim da Guerra de Troia, quando os soldados e suas roupas já foram profundamente marcados pelas condições extremas do conflito. “Era um mundo exausto, assombrado, coberto de sal e fragmentado. Cada figurino precisava carregar a sensação desse universo”, diz a figurinista, que vestiu Odisseu (Matt Damon) e seus companheiros com bronze de aparência envelhecida e couro desgastado pelas batalhas. “A estética era construída pela textura, pelo peso e pela erosão dos materiais. Queríamos que parecesse algo realmente retirado da terra.”
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Jimmy Gonzales como Cefeu, Damon e Himesh Patel como Euríloco
Melinda Sue Gordon/Universal Pictures/ Divulgação
Odisseu, em particular, foi um personagem complexo de vestir. “Na nossa história, Odisseu se deteriora, se reconstrói, se disfarça, se adapta, sobrevive. Ele está em constante transformação”, explica Mirojnick. “O desafio era permitir que o público percebesse essa deterioração sem perder a essência que o define.” A simplicidade acabou sendo a melhor maneira de representar a identidade mutável do herói ao longo dos diferentes mundos que atravessa. “No fim, a armadura se torna uma lembrança, e não mais um símbolo de poder.”
Ítaca, porém, exigia outra abordagem. Enquanto Penélope (Anne Hathaway) e seu filho Telêmaco (Tom Holland) aguardam o retorno de Odisseu, uma multidão de pretendentes impacientes insiste para que ela escolha um novo marido. É justamente nesses homens que aparece o único bronze realmente brilhante do filme. Personagens como Antínoo, vivido por Robert Pattinson, usam figurinos adornados com elaborados detalhes em latão. “Todos esses homens passam anos esperando se tornar rei. Eles querem parecer dignos desse lugar e, por isso, exibem o melhor de si”, explica.
Robert Pattinson como Antinous
Melinda Sue Gordon/Universal Pictures/ Divulgação
Até mesmo os trajes das divindades, que facilmente poderiam cair em uma estética fantasiosa, são definidos pela funcionalidade. Atena, interpretada por Zendaya, é representada por aquilo que Mirojnick chama de “simplicidade e contenção”, usando um manto de linho em tom cru. Como conselheira de Odisseu, “sua presença precisava simplesmente deslizar com uma autoridade serena”, diz a figurinista.
O mesmo vale para Calipso (Charlize Theron), que mantém Odisseu em sua ilha durante sete anos. “Os figurinos dela estão enraizados na realidade do ambiente ao qual pertence: natureza, eternidade e isolamento”, afirma. “Tudo o que cobre seu corpo tem uma função prática.” Calipso veste um vestido sobreposto por uma camada de rede que, na imaginação de Mirojnick, a ninfa utilizaria para pescar.
Circe também segue essa lógica de funcionalidade, embora de outra forma. Em vez de usar um traje que a auxilie diretamente, Mirojnick criou um figurino que reflete sua natureza sedutora e todos aqueles que passaram por seu caminho. “Ela acumulou artefatos de cada viajante que cruzou sua porta e os usa com enorme orgulho”, explica. “É isso que define a imagem que ela apresenta quando os homens chegam.”
Matt Damon vive Odisseu e Zendaya interpreta Atena em “A Odisseia”
Divulgação
Já para as rainhas mortais, a figurinista adotou uma estratégia completamente diferente. No caso de Helena (Lupita Nyong’o), cuja beleza desencadeou a Guerra de Troia, Mirojnick decidiu que ela merecia algo próximo a uma armadura. A inspiração inicial veio de uma estátua sem cabeça, o que levou à criação de uma peça de bronze escovado que cobre o peito e os ombros da personagem. “Encontrei essa enorme peça de metal dourado. Durante a prova de roupa, perguntei para Lupita: ‘Tudo bem usar isso? Pesa uns 15 quilos’”, relembra. A atriz respondeu com bom humor: “Já usei 15 quilos de pérolas. Posso usar 15 quilos de metal dourado.”
Mas o peso da armadura não foi o único desafio de Nyong’o. A atriz também interpreta Clitemnestra, esposa de Agamêmnon. Para diferenciar visualmente as duas personagens, Mirojnick vestiu Clitemnestra com púrpura de Tiro, uma tonalidade extremamente rara produzida a partir das glândulas mucosas de caramujos marinhos — um processo tão trabalhoso que exigia cerca de 12 mil moluscos para produzir apenas um grama do corante.
Lupita Nyong’o como Helena
Divulgação
E, embora A Odisseia acompanhe a jornada de dez anos de Odisseu tentando voltar para casa, sua esposa Penélope permanece sempre no mesmo lugar. “Em vez de uma transformação visual evidente, expressamos sua trajetória por meio de mudanças sutis na silhueta, suavizando ou acentuando formas, isolando camadas e utilizando as cores do palácio”, explica Mirojnick. “Ela preserva um reino por meio da permanência, enquanto Odisseu sobrevive por meio do movimento.”
Anne Hathaway vive Penelope e Tom Holland vive Telêmaco
Divulgação
Quando o público assistir a A Odisseia, seja agora ou daqui a muitas gerações, Mirojnick espera que os figurinos contribuam para traduzir o fascínio duradouro dessa epopeia que já atravessou séculos. Ou, como ela resume: “Não estamos desenhando um período histórico. Estamos, na verdade, criando uma mitologia.”
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue
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