Conexão
15 de setembro de 2026
Em uma noite qualquer em São Paulo, um DJ toca seu set em cima de uma bicicleta enquanto um pelotão de corredores o segue, se movimentando no ritmo das batidas. A cena não é um flashmob ou tirada de um musical, mas sim um retrato de um formato que vem ganhando cada vez mais força no país: as running raves, ou raves de corrida. Sem pódio ou a linha de chagada, esses eventos tem o foco na vivência compartilhada em que a música acompanha o grupo do início ao fim do percurso.
Nesses encontros, o set costuma durar cerca de uma hora e tocar durante praticamente todo o trajeto na rua, em distâncias de 5 km a 10 km. As músicas são escolhidas e organizadas com antecedência pelos DJs, levando em conta o perfil do público – de iniciante a quem já pratica há mais tempo. O repertório ainda inclui pausas estratégicas para que o grupo consiga se manter unido. No fim do percurso, os corredores se reúnem em um ambiente com pista para curtir a música por mais tempo. “Enquanto as provas organizam a energia em torno da performance, a running rave organiza a energia em torno da experiência em movimento. É menos sobre concluir uma distância e mais sobre estar junto, correndo”, resume Leonardo Paludo, um dos fundadores do grupo de corrida Run & Bass.
Run & Bass
Divulgação
Criado há um ano e cinco meses, o Run & Bass une música eletrônica e corrida em eventos por São Paulo – além de ter outro projeto de treino e performance. Paludo notou de perto essa mudança de motivação entre os participantes, algo que ele mesmo viveu ao sentir o efeito da música em seus primeiros 10 km de corrida, experiência que o levou a criar o projeto.”As pessoas não estão ali só pelo esporte. Estão atrás de conexão, de uma socialização”, diz. “A gente tá vivendo um momento em que as redes sociais estão dominando a ponto de as pessoas não saberem mais como socializar. A corrida, os running crews, estão mudando um pouco isso, porque você vai para um local e sai de lá com vários amigos.”
Run & Bass
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O fenômeno já rendeu repercussão internacional para pelo menos um projeto brasileiro, a Pacetronik, que em quatro edições saiu de 280 participantes na estreia para cerca de 413 na última após viralizar nas redes sociais. Segundo Luigi, DJ, empresário e um dos fundadores do grupo, existe um perfil específico de corredor de running raves: “atleta híbrido”. Não no sentido tradicional de quem pratica diferentes modalidades esportivas, mas como alguém que equilibra diferentes dimensões da vida. “É aquela pessoa que numa sexta-feira à noite vai sair para um barzinho, para uma balada com os amigos, dançar a noite inteira e mesmo assim, no dia seguinte, independente de planilha, de horário e de obrigação, vai fazer um treino de musculação, uma corrida ou um funcional”, descreve ele.
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Esse movimento de socialização em torno da corrida não passou despercebido pela indústria esportiva. Ainda que não organize running raves, a Olympikus acompanha de perto o crescimento da corrida como fenômeno cultural, que só tem crescido no país – os eventos oficiais da modalidade cresceram 85% em 2025. A troca entre pessoas se tornou um dos grandes combustíveis da prática. “Observando as ruas, as provas e os grupos de treino, ficou evidente que a motivação das pessoas vai muito além do tempo de prova. Elas correm para encontrar amigos, conhecer novas pessoas, ocupar a cidade, viver experiências e criar memórias”, afirma Bianca Dallegrave, diretora-executiva de marketing da marca. “O corredor brasileiro está mais informado, mais conectado e mais engajado. Ele busca conhecimento sobre treino e equipamentos, mas também valoriza pertencer a grupos, crews e comunidades que tornam a experiência mais rica e motivadora”, completa.
Os números da Strava confirmam que esse não é um fenômeno isolado. O relatório Year in Sport 2025 mostrou que os clubes esportivos da plataforma praticamente quadruplicaram no último ano, ultrapassando a marca de 1 milhão de grupos ativos. Quem puxa esse crescimento é, especialmente, a Geração Z: segundo o levantamento, essa geração está trocando tempo de tela por experiências presenciais ligadas ao esporte e à comunidade, e tem 75% mais chances do que as gerações anteriores de dizer que pratica atividade física motivada por provas e eventos. “Há uma tendência geral das pessoas valorizarem a saúde e o bem-estar, e acho que também há uma tendência geral das pessoas buscarem conexão”, diz Louisa Wee, diretora-geral de marketing do Strava.
Entre o DJ na bicicleta e o pelotão que o segue, as running raves ocupam, na visão de Luigi, o espaço entre entretenimento e o wellness. “Muitas pessoas se identificam com o conceito do projeto, que é treinar, mas se divertir, treinar dançando, treinar cantando, ter aquele momento onde tá todo mundo suado, tá todo mundo cansando, respirando ofegante”, diz.
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