Comportamento
15 de julho de 2026
Reconhecida mundialmente como a capital do perfume, a cidade Grasse, na França, foi escolhida pelo O Boticário para sediar a primeira edição do Clube da Perfumaria, iniciativa criada pela marca para promover encontros, conversas e trocas de conhecimento sobre o passado, o presente e o futuro das fragrâncias.
Para acompanhar a novidade, nossa editora de beleza e wellness, Bárbara Öberg, esteve em Grasse, para participar da inauguração do Clube e acompanhar discussões sobre ingredientes, processos criativos e os movimentos que devem influenciar a categoria nos próximos anos. Além disso, visitou o Atelier du Parfumeur da IFF (International Flavors & Fragrances), o Museu Internacional da Perfumaria e outros lugares importantes para a perfumaria em Grasse. A conexão da label com a cidade, inclusive, atravessa sua própria história. Foi a inspiração nas flores de Grasse que ajudou a guiar a criação de Acqua Fresca, primeira fragrância do grupo, lançada em 1979. Anos depois, o sócio-fundador Miguel Krigsner conheceu na região a técnica artesanal da enfleurage e decidiu resgatá-la e adaptá-la para criar o perfume Lily. A estreia desse novo projeto acontece em um momento simbólico para a companhia: após quase cinco décadas de trajetória, O Boticário foi reconhecido como a marca de perfumaria referência em qualidade no Brasil, de acordo com pesquisa da Worldpanel.
Atelier du Parfumeur da IFF
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Editora de beleza e wellness da Vogue Brasil, Bárbara Öberg
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Na entrevista a seguir, Gustavo Dieamant, diretor-executivo de pesquisa e desenvolvimento do Grupo Boticário, fala para Bárbara Öberg sobre a ligação da marca com o destino, o papel da tradição na construção do futuro da categoria, os avanços da biotecnologia, a busca por ingredientes mais sustentáveis e o momento de valorização da perfumaria brasileira no cenário internacional.
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Vogue: Falamos muito sobre o futuro da perfumaria esses dias, para você qual é o futuro da perfumaria?
Gustavo Dieamant: Do ponto de vista do comportamento, vemos o surgimento de novos formatos, mas acredito que o ritual de usar perfume continuará praticamente o mesmo. A forma como nos perfumamos faz parte da nossa identidade, é quase como vestir uma roupa. O que deve crescer são as categorias complementares. Já as tendências olfativas são cíclicas, assim como a moda. Agora, estamos vivendo um momento de fragrâncias gourmand e opulentas, muito influenciado pela perfumaria árabe e também por mudanças no comportamento de consumo, mas acredito que esse movimento dará espaço, nos próximos anos, a perfumes mais limpos. Vejo uma evolução importante da família dos musks, que costumo definir como fragrâncias com cheiro de abraço. São perfumes que remetem à pele, à proximidade e ao conforto. Essa deve ser uma das principais tendências dos próximos anos, até que um novo ciclo volte a valorizar a opulência.
Gustavo Dieamant, diretor-executivo de pesquisa e desenvolvimento do Grupo Boticário
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Vogue Brasil: O que representa para O Boticário ser a única marca brasileira presente no Museu Internacional da Perfumaria, em Grasse, cidade considerada a capital da perfumaria no mundo?
Gustavo: Antes de tudo, é um orgulho. Representamos o Brasil e mostramos que a perfumaria nacional pode ocupar o mesmo patamar das grandes casas internacionais. Temos um cuidado com cada detalhe, da embalagem à válvula, da ergonomia à experiência de uso. Estar presente nesse espaço é consequência desse trabalho, mas o reconhecimento mais importante está nos bastidores. Hoje, perfumistas responsáveis por alguns dos maiores clássicos globais também assinam fragrâncias de O Boticário, que estão presentes em mais de 80% dos lares brasileiros. Isso confirma que estamos no caminho certo e reforça nosso compromisso de continuar elevando esse padrão.
Vogue: Como sustentabilidade e inovação caminham juntas no desenvolvimento de novas fragrâncias?
Gustavo: Esse é um dos grandes temas para o futuro da perfumaria. Temos investido tanto em novas formas de obtenção de ingredientes naturais quanto em biotecnologia, que considero um dos principais pilares de inovação. Antes, era necessário extrair grandes volumes de matéria-prima da natureza para obter pequenas quantidades da molécula desejada. A biotecnologia inverte essa lógica. Utilizando microrganismos, leveduras e microalgas, conseguimos produzir exatamente as moléculas de interesse com muito mais eficiência e menor impacto ambiental. Além disso, também investimos em tecnologias próprias de extração de ingredientes naturais, desenvolvendo matérias-primas exclusivas. Esse conjunto de iniciativas nos permite combinar inovação, desempenho e sustentabilidade de forma consistente.
Madonna Lilly, em Grasse
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Vogue: Quais ainda são os principais desafios ambientais da indústria?
Gustavo: Um dos maiores desafios está na obtenção de determinadas matérias-primas. Muitos ingredientes ainda dependem de solventes orgânicos durante o processo de extração. Embora eles não representem risco para a saúde humana, seu uso exige cuidados ambientais importantes. Por isso, a indústria vem investindo em tecnologias mais limpas. Um exemplo é a extração por CO₂ supercrítico, que já utilizamos para ingredientes como pimenta-preta e pimenta-rosa. Nesse processo, o dióxido de carbono circula em um sistema fechado e é totalmente reutilizado, eliminando a necessidade de solventes orgânicos. São tecnologias que ainda aumentam os custos de produção, mas que tendem a se tornar mais acessíveis à medida que ganham escala.
Um dos movimentos mais interessantes que tenho acompanhado é a evolução das pesquisas em torno de ingredientes não geneticamente modificados, porque alterar a genética de uma espécie significa modificar seu DNA e, potencialmente, criar compostos que ainda não conhecemos, além de aumentar riscos relacionados à biodiversidade e à própria disponibilidade desses ingredientes no futuro. Ao mesmo tempo, a indústria tem avançado em outra direção: em vez de modificar geneticamente uma planta, entendemos quais condições permitem que ela produza mais, melhor e mais rápido.
Vogue Brasil: Como essa pesquisa pode transformar o futuro da perfumaria?
Gustavo: Alguns ingredientes extremamente raros podem se tornar muito mais viáveis. A íris, por exemplo, é uma das matérias-primas mais caras. O que utilizamos é seu rizoma, a raiz, cuja obtenção é lenta e complexa. Outro bom exemplo é a rosa. Para produzir óleo essencial, são necessárias toneladas de pétalas. Hoje, estudamos formas de fazer com que espécies como a rosa damascena, que floresce apenas uma vez por ano, consigam produzir flores de mesma qualidade mais de uma vez por ciclo.
Vogue: Para além das questões de sustentabilidade, O Boticário investe bastante em pesquisas sobre comportamento do consumidor. Qual descoberta mais te surpreendeu nesse sentido?
Gustavo: Uma das descobertas mais interessantes veio do nosso Centro de Pesquisa da Mulher, desenvolvido em parceria com o Hospital Albert Einstein. Um estudo mostrou que, ao longo do ciclo menstrual, as variações hormonais podem influenciar a percepção dos cheiros, fazendo com que a intensidade olfativa seja percebida de maneiras diferentes. Esse conhecimento impacta diretamente a criação de fragrâncias e a experiência do consumidor e ajuda a entender, por exemplo, por que uma mulher pode migrar de Floratta para uma fragrância mais intensa como Elysée ao longo da vida, já que mudanças hormonais, como a menopausa, também podem alterar a percepção olfativa. É um exemplo de como uma pesquisa científica pode gerar insights aplicados ao desenvolvimento de produtos e ao negócio.
Vogue Brasil: O Boticário completa 50 anos em 2027. O que a perfumaria representa nessa história?
Gustavo: A perfumaria sempre foi, e continuará sendo, um dos pilares do nosso negócio. Estamos preparando novidades importantes, tanto em fragrâncias quanto em design e experiência, sempre com o mesmo cuidado aos detalhes que construíram a identidade da marca. Ao mesmo tempo, estamos sempre em contato com o consumidor para entender o que realmente faz sentido nessa celebração.
Vogue: Como você avalia a perfumaria brasileira nesse momento de Brasilcore?
Gustavo: Vejo esse momento por dois caminhos, ambos muito positivos. Existe uma leitura internacional do Brasil, que ainda é bastante ligada ao imaginário tropical, uma visão que tem seu valor, mas é bastante estereotipada. Ao mesmo tempo, existe um movimento mais interessante, que é o reconhecimento da qualidade da perfumaria brasileira. Hoje, trabalhamos com alguns dos principais perfumistas do mundo, profissionais responsáveis por grandes clássicos internacionais, que escolhem desenvolver projetos para O Boticário porque reconhecem o nível de exigência da marca e o potencial do consumidor brasileiro.
Fitas olfativas
Divulgação
Vogue: Qual é o perfume mais vendido de O Boticário?
Gustavo: Malbec. Não só de O Boticário, mas é o perfume masculino mais vendido do país. Seu sucesso tem vários fatores. Primeiro, é uma fragrância acessível, que entrega potência e uma forte identidade masculina. Segundo, porque ele foi disruptivo, trazendo as notas amadeiradas para um consumidor brasileiro que, há 20 anos, tinha pouco acesso a esse universo. Além disso, criou uma conexão transgeracional muito forte. O homem tem orgulho de dizer que usa o perfume do pai. Existe uma relação de continuidade, de identidade e até de amadurecimento associada à fragrância.
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Vogue: Qual é o seu perfume favorito de O Boticário?
Gustavo: Sem dúvida nenhuma, The Blend Bourbon.
Vogue: E fora de O Boticário, existe algum perfume que tenha marcado sua trajetória?
Gustavo: Tenho vários favoritos, mas o meu preferido é um perfume que não existe mais: um Bottega Veneta da família Parco Palladiano V. Tenho algumas relíquias guardadas e uso com bastante cuidado.
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