Comportamento
17 de setembro de 2026Passei os últimos quinze dias dentro da operação do Rock in Rio, e voltei de lá com algumas percepções que não consigo guardar só pra mim. A primeira é sobre escala: a quantidade de staff envolvido num evento desse porte é algo que só quem viveu de dentro consegue dimensionar de verdade. Mas a percepção que mais me marcou não foi sobre número, foi sobre quem estava no comando.
No meu setor, especificamente, tínhamos mais de dez produtoras trabalhando lado a lado, entre líder de setor, líder de agência e líder de marca, e 98% delas eram mulheres. Olhar pra aquela sala de alinhamento e ver majoritariamente mulheres em posição de decisão, de alta responsabilidade, me deu uma felicidade genuína, difícil de descrever em poucas palavras.
E teve outra coisa que percebi, que preciso contar com honestidade: foi visivelmente mais fácil lidar com as gestoras mulheres do que com os gestores homens naquele evento. As mulheres seguiam processo, entendiam com clareza quando uma demanda simplesmente não era possível de atender, respeitavam limite operacional sem transformar isso em embate. Quase toda vez que o gestor do outro lado da mesa era homem, a gente esbarrava num problema de “entendimento”, de processo, de limite, de por que não dava pra simplesmente forçar uma exceção.
Não estou falando de regra universal, nem citando estatística que prove isso pra todo o mercado. Estou falando da minha experiência concreta, de campo, dentro de um dos maiores eventos do mundo, nesses últimos quinze dias.
Vou contar quatro situações reais, sem citar nome de marca ou de pessoa, porque acho que elas ilustram melhor do que qualquer teoria.
Numa delas, a equipe de uma marca precisava acessar uma área reservada sob minha responsabilidade. Três gestoras produtoras vieram até mim, eu expliquei o processo, elas seguiram exatamente o que foi pedido e em quinze minutos a liberação já estava autorizada e resolvida.
Em outra situação, uma marca diferente precisava de acesso pra captação de imagem no mesmo tipo de área. O gestor responsável, homem, passou quarenta minutos tentando me convencer a liberar o acesso dele e da equipe sem seguir o processo estabelecido, e ainda usou o nome de dois diretores como argumento de autoridade, numa tentativa clara de me pressionar a abrir exceção.
Numa terceira cena, uma gestora precisava alterar informações da equipe dela que estaria no evento no final de semana seguinte. Expliquei o processo, ela seguiu certinho, e em poucos minutos a autorização da troca já estava emitida.
E na quarta situação, um equipamento de catraca teve uma falha de dez segundos, coisa rápida e resolvível, e o gestor responsável, homem, simplesmente quebrou o equipamento por impaciência.
Esse padrão se repetiu ao longo dos quinze dias inteiros de evento, em situações e setores diferentes. Não foi coincidência isolada, foi uma tendência que se sustentou do início ao fim da minha jornada ali dentro.
Fui atrás de entender se essa percepção tinha algum respaldo além da minha vivência, e encontrei duas coisas que valem a pena trazer, inclusive porque não concordam totalmente entre si.
De um lado, o trabalho clássico das pesquisadoras Alice Eagly e Linda Carli sobre gênero e liderança, reunido no livro Through the Labyrinth: The Truth About How Women Become Leaders (Harvard Business School Press, 2007), aponta que líderes mulheres tendem a usar, com mais frequência, estilos de colaboração na gestão de conflito e na tomada de decisão: mais participação, mais escuta, menos imposição unilateral. Isso conversa diretamente com o que vivi naquela operação: a decisão colaborativa tende a esbarrar menos em atrito de “quem manda mais”.
De outro lado, uma pesquisa mais recente, feita pela Robert Half em parceria com o Insper em 2023, com 1.464 profissionais de diferentes indústrias e níveis hierárquicos, encontrou o oposto do senso comum: na percepção de quem é liderado, não existe diferença estatisticamente significativa de competência, ética ou eficácia entre líderes homens e mulheres. Acho importante trazer isso porque não quero que essa coluna vire uma generalização barata. A ciência não é unânime, e eu não estou aqui pra provar que mulher lidera melhor que homem. Estou aqui pra contar o que vivi, com honestidade, dentro de um recorte específico e real.
Sheryl Sandberg escreveu, há mais de dez anos, o livro que ainda é referência quando o assunto é mulher em posição de liderança: “Lean In: Mulheres, Trabalho e a Vontade de Liderar”. Uma das ideias centrais da obra é que mulheres, historicamente, precisaram provar competência de forma redobrada só pra ocupar o espaço que homens ocupam por padrão. O Rock in Rio, pra mim, foi a prova viva de que essa provação repetida está, aos poucos, formando uma geração de líderes mulheres extremamente qualificadas, porque tiveram que ser, porque a régua sempre foi mais alta pra elas.
Talvez seja exatamente por isso que a experiência de trabalhar ao lado delas tenha sido tão mais fluida. Não porque a mulher lidera melhor por natureza, mas porque quem chegou até aquela sala de alinhamento, sendo mulher, passou por um filtro de exigência que nem sempre existe da mesma forma pro lado masculino.
Não sei se essa percepção vai se repetir no próximo evento, no próximo setor, com o próximo grupo de gestores. Mas sei que, nesses quinze dias de Rock in Rio, dividir operação com um time majoritariamente feminino, competente e alinhado foi um dos momentos mais bonitos da minha trajetória profissional recente. E fica registrado aqui, com toda a honestidade que uma percepção de campo merece: não é regra, é vivência. Mas foi uma vivência boa demais pra guardar só pra mim.