categoria Comportamento
Data 04 de setembro de 2026

Por muitos anos, a lógica do mercado de eventos pareceu seguir uma única direção: crescer. Mais público, mais palcos, mais atrações e estruturas maiores. Os megaeventos se consolidaram como símbolos de relevância cultural e força comercial. Mas uma movimentação paralela vem redesenhando o setor: a ascensão dos festivais de médio porte e de experiências mais nichadas.

Não se trata de substituir os grandes pelos pequenos. O mercado está se diversificando. O público continua disposto a comprar ingressos e viver experiências ao vivo, mas está mais seletivo sobre onde, como e por que investir seu tempo e dinheiro.

Os números ajudam a dimensionar esse cenário. Segundo a ABRAPE, o setor de eventos, cultura e entretenimento saiu de R$ 131,8 bilhões em 2024 para R$ 140,9 bilhões em 2025, e abriu 2026 movimentando R$ 25,33 bilhões só no primeiro bimestre, o maior nível da série histórica que a associação acompanha desde 2019, com projeção de fechar o ano em R$ 151,9 bilhões. A demanda por experiências presenciais, portanto, não é apenas uma recuperação pós-pandemia: é um mercado que ganhou escala.

A questão agora é entender quais experiências conseguem justificar esse investimento.

Menos escala, mais relevância

O crescimento dos festivais de médio porte está relacionado a uma mudança na lógica de consumo. Em vez de competir apenas pela quantidade de pessoas reunidas, eventos menores podem competir pela capacidade de criar identidade.

Isso é especialmente relevante entre a Geração Z. Pesquisa do InstitutoZ com mais de 5 mil pessoas, sendo cerca de 3 mil jovens dessa geração, mostra que 77% apontam a falta de dinheiro como principal motivo para não frequentar festivais. Ao mesmo tempo, 59% dos que frequentam esses eventos dizem priorizar a experiência e recorrer ao parcelamento do ingresso.

Há uma aparente contradição: existe menos dinheiro disponível, mas não necessariamente menos disposição para gastá-lo em experiências percebidas como significativas. A mesma pesquisa mostra que 49% foram a dois ou três grandes festivais no último ano, enquanto 16% estiveram em quatro a seis.

Isso muda a pergunta que produtores precisam fazer. Não basta saber quanto o consumidor paga pelo ingresso. É preciso entender quanto ele está disposto a pagar pela experiência completa.

O ingresso é só parte da conta

Um grande festival envolve muito mais que o valor do ingresso. Transporte, hospedagem, alimentação e tempo de deslocamento entram na conta, principalmente quando o público precisa viajar.

Essa barreira cria uma oportunidade para eventos regionais e de médio porte. Eles não precisam necessariamente ter o ingresso mais barato: podem oferecer um custo total menor, eliminando parte da logística envolvida em viajar para um megaevento.

O consumidor não compara apenas R$ 300 com R$ 200. Ele compara a experiência próxima de casa com ingresso, transporte, hospedagem e alimentação necessários para participar de um evento em outra cidade.

É nesse espaço que os festivais de médio porte podem encontrar uma vantagem competitiva.

A Geração Z não compra apenas música

Se antes o line-up era praticamente o argumento central de venda, hoje ele é apenas parte da equação.

Segundo o InstitutoZ, 97% dos jovens que frequentam festivais vão para ver seus artistas favoritos, mas a experiência não se resume a isso. Dados do Spotify reforçam a dimensão social: 52% dos frequentadores de festivais no Brasil buscam escapismo, índice que chega a 67% entre a Geração Z. Além disso, 50% procuram diversão com amigos e conhecer pessoas novas, percentual que sobe para 60% entre os jovens.

O festival funciona, portanto, como experiência cultural e social. Para uma geração hiperconectada digitalmente, encontrar presencialmente pessoas que compartilham gostos e referências pode ser parte importante do valor do evento.

É aí que comunidade deixa de ser apenas uma palavra de marketing e passa a ter valor econômico.

Pertencimento também vende ingresso

Festivais de nicho conseguem falar diretamente com comunidades específicas. Um evento não precisa reunir dezenas de milhares de pessoas para ser relevante. Precisa encontrar as pessoas certas e entregar uma experiência consistente o suficiente para fazê-las voltar.

Esse é um ativo que os grandes eventos também buscam construir, mas que pode surgir de forma mais natural em operações menores: recorrência.

O público não retorna apenas por determinado artista. Retorna porque reconhece aquela estética, aquela cena e aquela comunidade como parte de sua identidade.

O desafio é fazer a conta fechar

Do lado dos produtores, a equação é mais complexa. A demanda existe, mas custos de infraestrutura, logística, artistas, segurança e operação continuam pressionando as margens. Feriados prolongados e a concentração de grandes atrações também aumentam a disputa por público, fornecedores e artistas.

Para produtores independentes, modelos mais flexíveis podem ser uma vantagem: adaptar tamanho, localização, frequência e proposta ao comportamento real da audiência. O festival deixa, assim, de ser apenas entretenimento e passa a movimentar uma cadeia econômica local.

O futuro não é necessariamente maior

Os dados mostram um setor saudável, com consumo recorde e forte geração de empregos. Só o núcleo do setor chegou a 205.538 vínculos formais em fevereiro de 2026, 84,5% acima do patamar de 2019. Mas o próximo ciclo não precisa ser definido por quem consegue reunir mais pessoas.

A ascensão dos festivais de médio porte aponta para uma mudança mais profunda: o mercado está passando de uma lógica de escala para uma lógica de relevância.

Os megaeventos continuarão fundamentais. Ao mesmo tempo, haverá espaço crescente para experiências capazes de construir comunidades, explorar cenas específicas, reduzir barreiras logísticas e criar relações recorrentes com o público.

O tamanho continuará sendo uma métrica importante. Mas talvez a pergunta mais relevante seja outra: depois de viver aquela experiência, o público quer voltar?

Em um mercado no qual atenção, dinheiro e tempo estão cada vez mais disputados, talvez o próximo grande ativo dos festivais não seja colocar mais gente dentro de um espaço, mas fazer uma comunidade querer estar ali novamente.

Fonte: Promoview