Comportamento
19 de julho de 2026
Em 1976, Zezé Motta não conseguia andar na rua. Xica da Silva tinha acabado de estrear, levaria mais de 3 milhões de pessoas aos cinemas e faria da atriz um fenômeno nacional da noite para o dia. Meio século depois, o clássico de Cacá Diegues acaba de voltar às telonas em cópia restaurada em 4K, pela Sessão Vitrine Petrobras. “Ela foi um divisor de águas na minha vida, na minha carreira”, diz Zezé, em entrevista exclusiva à Vogue Brasil. Não à toa, foi por Xica que a atriz recebeu os principais prêmios do cinema brasileiro. “Devo praticamente a minha trajetória a essa personagem.” Lançado em plena ditadura militar, o filme colocou uma mulher negra e escravizada no centro da história, dona do próprio desejo e do próprio poder. Em um cinema que ainda raramente oferecia a atrizes negras papéis de protagonismo, a personagem chegou às telas como uma ruptura.
Para Zezé, essa importância ficou ainda mais clara com o passar dos anos. “Eu acredito que Xica da Silva abriu uma porta que nunca mais pôde ser completamente fechada. Naquele momento, ver uma mulher negra ocupando o centro de uma grande produção, com força, sensualidade, inteligência e protagonismo, era algo muito poderoso. O filme provocou discussões importantes e ajudou a mostrar que nós, artistas negros, sempre tivemos talento para contar qualquer história. O que faltavam eram oportunidades.”
O tamanho do fenômeno ela descreve sem rodeios. “Era uma coisa absurda, eu não podia sair de casa, era parada em cada esquina, dava de duas a três entrevistas por dia, isso por meses, viajei por mais de 16 países para divulgar o filme… foi uma grande loucura, entrei para o imaginário masculino, virei símbolo sexual… Foi tudo junto!” A fama trouxe uma nova camada de exposição. Por um tempo, seu próprio nome quase desapareceu. “Na rua as pessoas me chamavam de Xica, demorou até pra imprimir o Zezé Motta.”
Cinquenta anos depois, outro efeito daquele sucesso aparece nas conversas que a atriz tem com novas gerações. “Fico muito feliz quando encontro jovens atores e atrizes que dizem ter encontrado inspiração na minha trajetória ou em Xica da Silva. Isso me emociona profundamente, porque entendo que o verdadeiro legado de um artista é abrir caminhos para quem vem depois.”
No entanto, o sucesso nas telas não significou uma mudança imediata na rotina da atriz. Na mesma época, Zezé estava em cartaz ao lado de Eva Todor na comédia Rendez-Vous, no Teatro Maison de France, no Rio de Janeiro. “Eu fazia um papel minúsculo, mas, após o sucesso do longa, Eva foi generosa e aumentou o meu nome nos cartazes do espetáculo.”
Em Diamantina, Zezé passou meses sem se afastar das locações. Enquanto a equipe ganhava alguns dias de folga para passar o Natal, o réveillon e o carnaval em casa, ela permaneceu na cidade. “O Cacá liberava para que todos passassem esses dias em casa, menos eu. Ele achava que eu iria me dispersar, perder o tom. Então, fiquei todo o tempo sem me afastar das locações, concentrada só na personagem.”
Segundo Zezé, Cacá percebeu uma dificuldade que seria fundamental para construir Xica. “Eu tinha dificuldade de lidar com a minha agressividade. E, para Xica, eu precisava liberar essa carga emotiva que a gente, em geral, põe pra dentro, engole.” A cena mais difícil era a da igreja, que a atriz define como “exemplar na luta da Xica contra o preconceito que impede alguém de entrar num templo que deveria ser de todos”. O calor era intenso, as tomadas se repetiam e a raiva não aparecia. “Aí eu pedia um copo d’água, ele falava: ‘Daqui a pouco’; pedia café e ele: ‘Já vem’. Depois eu soube que foi uma atitude calculada para me irritar. Funcionou!”
Nem fora do set a preparação diminuía. “Uma noite, ele passou e me viu jogando carta com alguém da equipe. Disse: ‘É, a cena de amanhã não é fácil, não!’. Na mesma hora, parei o jogo, corri para o quarto e fui estudar a cena.” Outra lembrança ficou da despedida entre Xica e João Fernandes. Cacá tinha apenas uma orientação: “Zezé, eu não faço questão de lágrimas.”
Zezé Motta como Xica da Silva
Reprodução/Instagram
A parceria continuaria por outros quatro filmes. “Já fiz cinco filmes com Cacá. Xica da Silva, Quilombo, Dias Melhores Virão, Tieta, Orfeu. No que dependesse de mim, faria mais. Adorava trabalhar com ele.” Quando recebeu o convite para viver Dandara em Quilombo, a reação de Zezé foi de espanto. “Achei que tinha enlouquecido de vez. Aquela mulher não podia ser feita por mim. Ela não sorria nunca, só guerreava. Eu não imaginei que fosse capaz de fazer um filme inteiro sem sorrir.” O filme levou a equipe a Cannes. “Ir para Cannes representando o filme com a equipe foi uma emoção à parte. Antônio Pompeo, Antônio Pitanga, Tony Tornado, Daniel Filho, Cacá, Lauro Escorel. O filme foi ovacionado na sessão de gala e nós saímos aos prantos da sala de projeção.”
Nos anos seguintes, vieram Dias Melhores Virão, Tieta e Orfeu. Carmosina, personagem de Jorge Amado, trouxe insegurança. “Quando vi o filme, achei que não tinha me saído bem. Mas depois Caetano, Miguel Faria Jr. e o próprio Cacá me convenceram de que eu tinha dado bem o recado.” Já Orfeu tinha um significado especial. “Eu tive a oportunidade de revisitar a obra, uma vez que eu tinha sido a Eurídice no teatro, ao lado do Zózimo Bulbul. Na versão do Cacá, eu fazia a mãe do personagem do Toni Garrido. Fazer esse filme foi uma emoção à parte, porque Orfeu Negro, do Marcel Camus, foi o primeiro filme que eu vi na vida.”
Cinquenta anos depois, Zezé comemora os avanços conquistados desde a estreia de Xica da Silva, mas acredita que o trabalho está longe de terminar. “É claro que avançamos muito nesses cinquenta anos. Hoje existe uma discussão muito maior sobre representatividade, diversidade e inclusão. Mas também sei que ainda há um longo caminho pela frente. Não basta estarmos presentes; precisamos ocupar todos os espaços, interpretar personagens complexos, diversos, humanos, e também estar atrás das câmeras, escrevendo, dirigindo e produzindo nossas próprias histórias.”
Sobre o reencontro do público com o filme, ela não tem dúvida. “As pessoas ficarão impactadas, é um filme de impacto. Principalmente para aquela época.”
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