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22 de setembro de 2026
“A vida é um desafio constante”, e Conceição Evaristo sabe disso muito bem. Aos 79 anos, a escritora que cunhou o conceito de escrevivência se lança em outra linguagem e estreia como atriz de cinema em “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, do cineasta mineiro André Novais Oliveira. No filme, ela dá vida a Jacira já na maturidade, ao lado de Norberto Novais Oliveira, pai do diretor, que interpreta Gilberto. O longa abre nesta terça-feira (22.09) a 20ª CineBH, em Belo Horizonte, e é na mesma noite que Conceição recebe o Troféu Horizonte.
O filme acompanha o casal de Contagem ao longo de cinco décadas. Na juventude, ambientada nos anos 1970, os personagens ganham os rostos de Jean Paulo Campos e de Tainá Evaristo, sobrinha da escritora. É uma narrativa de cumplicidade e longevidade que ainda não é comum no audiovisual brasileiro, habituado a retratar a vivência negra quase exclusivamente pelo recorte da dor. Em entrevista exclusiva à Vogue Brasil, Conceição diz: “A nossa vida, a vida da comunidade negra, ela não é formada só de dores, de desencontros, de traição, de fome, de miséria, somente de aspectos dolorosos. Não é só tristeza que compõem a nossa vida”.
Para ela, viver a rotina de Jacira trouxe um eco familiar e a levou a pensar em outras formas de contar essas histórias. “Construir e vivenciar a narrativa de afeto concebida por André me fez lembrar de momentos de afetos, de momentos de cumplicidade vividos dentro da minha própria família. E me fez pensar também que é preciso encontrar novas formas, outras formas de pensar e de conceber as nossas histórias.”
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Dizer sim ao papel foi mais um passo em uma caminhada inteiramente marcada por romper barreiras. Antes de se consolidar com clássicos como Ponciá Vicêncio, Becos da Memória e Olhos d’Água, Conceição deixou Belo Horizonte na década de 1970 para “tentar a vida” no Rio de Janeiro e “começar a vida sem nada”. Na nova cidade, equilibrou a rotina exaustiva do trabalho e dos estudos acadêmicos com os cuidados dedicados à filha, Ainá. Foi também ali que viveu sua própria história de amor com o marido, Oswaldo Santos de Brito. Toda essa bagagem afetiva entrou na engrenagem para dar vida à personagem. No set, longe de qualquer vaidade intelectual, ela conta que se deixou contagiar pelo frescor da equipe: “Gosto muito de trabalhar com as pessoas jovens”. Sobre o desafio de pisar em um território desconhecido, ela resume com leveza: “só tinha de aprender, só isso”.
Sem a palavra escrita como ferramenta principal, ela diz não saber se comunicou toda a densidade com um corpo que pode produzir sentidos, mas acredita que “o corpo, um gesto, ele contém mil mensagens”. Essa capacidade de traduzir com o corpo o que se sente, conta, aprendeu com a oralidade, em que a fala se faz também de gestos, de expressões e de silêncios. Determinadas afirmações, explica, não são construídas só verbalmente: “o corpo diz, o corpo afirma, o corpo nega”. Por isso, a vivência com a oralidade pode tê-la preparado para viver “a densidade de um corpo falante para além das palavras”.
Antes de chegar a Belo Horizonte, o longa passou pelo Festival de Berlim e levou o Troféu Candango de melhor longa-metragem no Festival de Brasília, com menção honrosa para Conceição e Norberto. Na capital mineira, a homenagem a coloca diante da cidade natal por um novo ângulo. Ela diz sentir gratidão à vida “por poder olhar Belo Horizonte de um outro lugar” e chama a cidade de “a minha geografia afetiva”. Sobre a noite que reúne a estreia do primeiro filme e o Troféu Horizonte, afirma: “um horizonte nunca vislumbrado anteriormente por mim se abriu em meus dias acumulados de tempo de vida e de tanta vida, e me fazendo desejar mais e mais”.
No longa, Conceicão Evaristo vive Jacira e Norberto Novais Oliveira dá vida a Gilberto
Divulgação
Sem a palavra escrita como ferramenta principal, ela diz não saber se comunicou toda a densidade com um corpo que pode produzir sentidos, mas acredita que “o corpo, um gesto, ele contém mil mensagens”. Essa capacidade de traduzir com o corpo o que se sente, conta, também aprendeu com a oralidade: “A oralidade, com os seus gestos, com as suas expressões, com os seus silêncios, produz uma fala que se inscreve pelo gesto-corpo”.
O filme mistura os tempos, e a ideia combina com o modo como ela pensa a ficção. Para Conceição, o tempo da ficção “é embaralhado com o tempo da vida”, e “o tempo da memória se torna também o tempo do vivido”. “O que a gente desconhece, a gente inventa. Inventa com tal força que essa invenção que nós criamos para nós mesmos, ela se torna verdade”, diz.
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Vogue: Aos 79 anos, você estreia como atriz de cinema. O que te fez topar esse convite?
Conceição Evaristo: A vida é um desafio constante, e quem é pobre, quem experimentou a carência material, quem experimentou, por exemplo, deixar sua cidade natal, ir para um outro lugar, como eu vim para o Rio de Janeiro, tentar a vida, começar a vida sem nada, cuidar de uma filha com a saúde tão fragilizada como era a Ainá, ficar tendo de trabalhar, cuidar do tratamento da menina e ainda buscar estudar, tudo é desafio. E um desafio tão bom, tão confortante, um convite tão generoso, agradável, sem sombra de dúvida desafiador, um convite inusitado. Aceitar também foi uma forma de me certificar eu mesma de minha coragem e também coroar a minha maioridade que já estava avançando naquele momento.
Vogue: O filme mostra a cumplicidade e a longevidade do amor de Jacira e Gilberto. Como foi viver essa narrativa de afeto no cotidiano da sua personagem?
Conceição Evaristo: Primeiro, porque acreditei na história. A nossa vida, a vida da comunidade negra, não é formada só de dores, de desencontros, de traição, de fome, de miséria, somente de aspectos dolorosos. Não é só tristeza que compõem a nossa vida. Construir e vivenciar a narrativa de afeto concebida por André me fez lembrar de momentos de afetos, de momentos de cumplicidade vividos dentro da minha própria família. E me fez pensar também que é preciso encontrar novas formas, outras formas de pensar e de conceber as nossas histórias. E também porque eu vivi na prática, na minha história pessoal, uma história de amor para contar. Eu vivi com o pai da minha filha, com o homem que eu escolhi para viver. Sem sombra de dúvida, também é uma história de amor, uma história que eu optei por casar e optei de fazer daquele homem o pai de minha filha. Oswaldo Santos de Brito surge na minha vida quando eu vim para o Rio de Janeiro, aliás, quando eu já estava no Rio de Janeiro. Foi um dos momentos que a vida também foi benéfica comigo, me possibilitando construir uma história de amor.
Vogue: Sua literatura é conhecida por dar peso e silêncio a cada palavra através da “escrevivência”. Como foi comunicar essa mesma densidade através do corpo e das expressões, sem ter a palavra escrita como sua ferramenta principal?
Conceição Evaristo: Não sei se eu comuniquei toda a densidade com um corpo que pode produzir sentidos, ou que produz sentidos independente da fala, independente do que esse corpo diz por palavras. Eu sei que me esforcei muito, e também porque eu acredito que o corpo, um gesto, ele contém mil mensagens. E pensando agora, eu digo que essa capacidade de traduzir com esse corpo o que se quer dizer, o que se sente, eu também aprendi com a oralidade. Porque se você observa, se você escuta determinadas palavras ou determinadas construções, determinadas respostas ou determinadas afirmações, elas não são construídas só verbalmente, o corpo diz, o corpo afirma, o corpo nega. Então eu digo que a vivência com a oralidade também pode me ter preparado para viver a densidade de um corpo falante para além das palavras. A oralidade, com os seus gestos, com as suas expressões, com os seus silêncios, produz uma fala que se inscreve pelo gesto-corpo. A oralidade também me ensinou isto.
Vogue: Existe uma cena ou um gesto de Jacira que você ainda carrega depois das filmagens?
Conceição Evaristo: Sim, é aquela cena em que Jacira recusa ir para o hospital, recusa aceitar, negando para si mesma e para a filha, para Gilberto, afirmando que ela estava bem. Pra mim, é um momento em que Jacira nega a fragilidade. É como se ela tivesse de estar forte, como se não pudesse adoecer. Isso me marca muito porque é um comportamento muito comum nas mulheres, especificamente nas mulheres negras. Não é o caso de Jacira, ela não era o esteio econômico da família. Mas talvez é o esteio afetivo, o esteio emocional. Então ela não podia adoecer, não podia deixar que os seus percebessem que estivesse fragilizada. Esse momento me marca muito.
Vogue: Você estreou no cinema cercada por uma geração jovem de cineastas. Como foi ocupar o lugar de quem está aprendendo uma nova linguagem?
Conceição Evaristo: Gosto muito de trabalhar com as pessoas jovens. Não só o desejo de inovação que as pessoas jovens apresentam, mas a capacidade de inovar dos jovens me conclama ao movimento. O fato também de eu não entender nada de cinema e ter sido colocada no mundo, que eu só tinha de aprender, só isso. Então eu aprendi várias coisas, observei, indaguei várias coisas, me entusiasmou, me deixou muito curiosa, é o processo de simular uma cena, de compor uma cena a partir de pequenos detalhes, de modo que a cena crie uma veracidade. Uma cena que me chamou muita atenção nesse sentido foi a cena em que Jacira tinha de tomar um banho.
Como essa cena foi composta, criou-se uma calça comprida da cor de meu corpo, eu entrei para debaixo do chuveiro só com os ombros desnudos. Quer dizer, quem vê essa cena não percebe todo um trabalho. Inclusive um trabalho artesanal mesmo que existe para dar uma veracidade a essa cena. Para mim, foi um momento de aprendizado muito grande. Observar como se monta um cenário, como se capta um gesto, como dissimula um movimento na cama, como se copia, como se inventa um corpo movimentando no ar. Aos quase 80 anos, vivenciar a arte do cinema é estar o tempo todo em novas aprendizagens.
Vogue: Em Ponciá Vicêncio, a história não segue a linha do tempo, e a protagonista vai e volta entre a infância e a vida na cidade pela memória. Agora o filme cobre cinco décadas e flerta com a ficção científica. Fazer esse filme mudou a sua percepção sobre o tempo na ficção?
Conceição Evaristo: Sim, o tempo da ficção, ao meu ver, é embaralhado com o tempo da vida. E como o tempo da vida também é o tempo da memória, tudo se mistura na vida humana. O que nós captamos como um tempo cronológico, o tempo da memória não é. Eu posso instantaneamente relembrar algo que eu já vivi em minha infância a partir do que estou vivendo agora. E o que eu estou vivendo agora pode me jogar para um movimento de relembrança de um tempo tão longínquo que o meu ato de rememorar acaba confundindo com o exato tempo que eu posso estar vivendo no momento.
Cronologicamente, a gente pensa o tempo da criança, o tempo da juventude, o tempo da maturidade, o tempo da velhice. A nossa concepção de vida nos leva a isso. Mas esses tempos misturados, essas recordações, essa confusão mesmo entre o presente e o passado, o desejo de uma continuidade que sempre nos aponta para o futuro, nada disso é estanque, nada disso é medido ou separado de uma maneira literal. E o que a gente desconhece, eu acho isso também um trabalho interessante da memória, a gente inventa. Inventa com tal força que essa invenção que nós criamos para nós mesmos se torna verdade. O tempo da memória se torna também o tempo do vivido.
Eu gosto de explorar esse tempo misturado, do ir e vir em narrativas. Acho que a história de “Ponciá Vicêncio” traz muito bem esse tempo misturado. E pensar também o estado emocional de Gilberto depois do acontecido com Jacira. Para Gilberto, o que seria aquele tempo? Seria um tempo de dor, sem sombra de dúvida. Mas é um tempo que ele recria também de outra forma. Jacira não se localiza, me parece, no passado. Para Gilberto, ela se localiza no presente e ele busca um tempo em que ele vai reencontrar essa presença de Jacira. Qual seria esse tempo de Gilberto? Um tempo que está mesclado, Jacira passado, Jacira presente, Jacira, no desejo de reencontrar.
É pensar essa inconstância, essa impossibilidade de medir um tempo e de repartir esse tempo em vários tempos. Esse tempo que você não agarra, mas que também você não perde. Talvez o filme aponte para uma ficção científica. Eu não pensaria numa ficção científica, eu pensaria ainda em um tempo incompreensível, que é o tempo da vida e da morte, um tempo sempre renovado também.
Vogue: Belo Horizonte te recebe com o Troféu Horizonte na noite em que o filme abre a CineBH. Que gosto tem ser celebrada em casa por uma arte nova na sua trajetória?
Conceição Evaristo: Tem um gosto de gratidão à vida por poder olhar Belo Horizonte de um outro lugar e viver um novo horizonte, totalmente diferente do que eu vivi até agora. BH já me ofereceu vários momentos diferentes, da minha infância, da minha juventude. De certa forma, eu tinha a sensação de que Belo Horizonte havia me expulsado do seu seio. Mesmo depois que eu vim para o Rio de Janeiro e fiz concurso para professora, ainda foi um tempo muito difícil. Quando eu voltava a Belo Horizonte, voltava querendo ficar, ou precisando voltar para o Rio, porque lá estava a minha possibilidade de trabalho, de estudos e, mais tarde, até a minha possibilidade amorosa.
Quando saí de Belo Horizonte, saí sem nada, sem dinheiro inclusive para custear uma passagem. As minhas primeiras vindas para o Rio de Janeiro foram nos tempos em que havia uma cultura de carona. Bastava um pedido, um aceno com o polegar direito indicando um caminho à frente. Se o dono ou a dona do volante entendesse, o seu polegar lhe abria caminhos, lhe abria estradas. Isso aconteceu comigo várias vezes, até eu fazer o meu concurso para o magistério.
Anos e anos depois, as minhas idas a Belo Horizonte ainda aconteciam dentro de uma carência, de uma escassez, tudo muito contadinho para chegar, para repartir com a família e para voltar. Hoje vivo Belo Horizonte numa situação totalmente diferente, e não tenho nenhuma sombra de dúvidas que foi a literatura que me produziu essa outra recepção, um outro olhar meu sobre Belo Horizonte e um outro olhar de Belo Horizonte sobre mim. Eu venho vivendo esse tempo de louvores à vida por me permitir tanto e me deixar que a cidade me experimente de uma outra forma e que eu também experimente esse espaço que significa tanto para mim, que é a minha geografia afetiva, a minha geografia de pertença.
E hoje, receber o prêmio, a homenagem Horizonte, por um feito que eu nunca imaginei fazer, que eu nunca nem ficcionalizei estar como personagem de um filme, digo que um horizonte nunca vislumbrado anteriormente por mim se abriu em meus dias acumulados de tempo de vida e de tanta vida, me fazendo desejar mais e mais, e agradecendo a Belo Horizonte por me oferecer tanto.