categoria Comportamento
Data 23 de julho de 2026

Em Pequenas Criaturas, que estreia nesta quinta-feira (23) nos cinemas, Carolina Dieckmmann interpreta Helena, uma mulher que tenta reorganizar a vida após uma mudança de cidade ao lado do marido e dos dois filhos. Dirigido por Anne Pinheiro Guimarães e inteiramente rodado em Brasília, o longa acompanha uma família em processo de adaptação e fala sobre pertencimento, amadurecimento e as transformações em diferentes fases da vida.
A história tocou a atriz antes mesmo das filmagens. Assim como a diretora, Carolina perdeu a mãe, em 2019, e se identificou. “A personagem é meio que uma fusão entre Anne e a mãe dela, e traz coisas que atravessam a minha vida também”, conta. “Quem não tem mais mãe sabe o quanto muda a vida da gente”, diz. Helena fala pouco, guarda muito para si enquanto tenta tragar as dores em maços de cigarro. O drama, conta Carolina, é seu gênero favorito. “Me interessa muito falar desse tipo de mulher, desse tipo de sofrimento.”

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Na vida, Carolina diz reagir de outra forma às mudanças. Muito pela observação dos pais na tragédia que viveu quando ela tinha 10 anos, quando um incêndio destruiu a casa da família. “Eu vi tudo ser queimado e não ter mais nada de um segundo para o outro. Uma percepção muito clara de que a vida se transforma muito rápido”, diz.
A experiência mudou sua relação com perdas e recomeços. “Eu sempre olhei mais para os gestos bonitos que uma dor pode trazer, para a mão que alguém te oferece quando você está num momento difícil, muito mais do que para as coisas tristes que acontecem na vida de todo mundo.” Talvez por isso, em 2016, a mudança para Miami quando o marido, o diretor Tiago Worcman, recebeu uma proposta de trabalho, tenha acontecido com naturalidade. “Sou assustadoramente adaptável. Nunca fui muito apegada.”
O maior desafio de Pequenas Criaturas, curiosamente, não esteve nas cenas mais dramáticas. Carolina nunca fumou, e passou dias treinando para que o cigarro (feito de alface) parecesse natural nas mãos de Helena. Fora do set, vive outra fase de adaptação: aos 47 anos, encara o ninho vazio depois que os dois filhos, Davi, de 27 anos, e José, de 18, deixaram sua casa para seguir a vida.
Carolina Dieckmann
divulgação
Em conversa com a Vogue Brasil, Carolina revisita lembranças da infância, reflete sobre maternidade, envelhecimento e culpa e explica por que, hoje, tenta gastar menos energia com aquilo que não pode controlar. Também revela dois de seus sonhos: ser avó e morrer bem velhinha.
Veja o bate-papo abaixo!
Vogue: Vamos começar falando sobre a Helena. Como essa personagem te transformou? Como foi interpretá-la?
Carolina Dieckmmann: Essa personagem me comove muito desde o convite, porque assim como a Anne, eu também perdi minha mãe, e o filme é dedicado à mãe dela. A personagem era meio que uma fusão entre ela e a mãe dela. Era um personagem muito pessoal, não é autobiográfico, mas é com muitas coisas da vida dela e coisas que atravessam a minha vida também. Temos em comum não ter mais mãe, e quem não tem sabe o quanto muda a vida da gente. Então, primeiro me bate nesse lugar. E depois, eu amo fazer drama, é o meu gênero favorito. Pegar uma personagem como essa que engole tudo, que tem poucas falas e está o tempo inteiro com tudo aquilo que ela está sentindo, é um trabalho de muita concentração, de muito resgate, de equalizar as coisas. Eu não queria fazer uma Helena como eu imaginava, eu queria ser a que a Anne queria que eu fosse. Me interessa muito falar desse tipo de mulher, desse tipo de dor.
Vogue: A personagem e sua família mudam de cidade e passam por toda a transformação das descobertas. Você também já passou por mudanças grandes, como quando foi morar nos Estados Unidos. Quais adaptações precisou fazer ao longo da sua vida quando se viu em mudanças?
Carolina: Eu sou assustadoramente adaptável. Acho que muito porque a casa em que eu morava com meus pais pegou fogo quando eu tinha 10 anos. Eu vi tudo ser queimado e não ter mais nada de um segundo para o outro. Uma percepção muito clara de que a vida se transforma muito rápido e ela vai sempre ter alguma coisa para você aprender. Então, eu nunca fui muito apegada. Quando o Tiago teve uma proposta de trabalho e me mudei com ele para Miami, eu me adaptei muito rápido. Considero que tem a ver com já ter perdido tudo uma vez na vida e que a vida sempre dá um jeito de dar volta. Toda vez que a gente acorda, a gente tem uma nova chance. A vida está aí pra gente viver.
Vogue: E você lembra o que sua família fez para se reerguer?
Carolina: O meu pai teve uma quebra no trabalho justo no ano que a nossa casa pegou fogo, no ano do Plano Collor. Então não tinha poupança, não tinha nada, mas ele era um colecionador de carros antigos e foi vendendo os carros para ir reconstruindo a casa. Ele ficou um tempão sem pagar a nossa escola. Quatro filhos e sem nenhuma grana. Eu lembro dele ir na escola e falar: “Olha, gente, eu vou ficar um tempo sem pagar a escola, vocês precisam me ajudar”. E eu vi a generosidade da diretora para compreender a situação. Então sempre olhei pro copo meio cheio, sabe? Sempre olhei mais para os gestos bonitos que uma dor pode trazer, pela mão que alguém te oferece, muito mais do que para as coisas tristes que acontecem na vida de todo mundo.
Vogue: Você compartilhou no Instagram sobre ter usado cigarro de alface no filme. Como foi esse processo?
Carolina: Eu nunca fumei e isso justamente foi o meu maior desafio no filme. As pessoas acham que foi o drama, mas foi o cigarro, porque eu fiquei meio psicopata daquilo parecer natural. Eu ia embora do set com um cigarro, ele ia se desfazendo no meio do meu dedo. Eu pedia a comida no quarto do hotel e ficava ensaiando comer com aquele cigarro porque eu queria que aquele gesto ficasse natural. Eu não queria dar bandeira de que eu nunca tinha fumado.
Carolina Dieckmmann
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Vogue: Assim como a Helena, você é mãe de dois meninos, Davi e José. Em que momento está a sua maternidade?
Carolina: Está no momento mais triste de todas as maternidades, que é o ninho vazio. Sem dúvida é o maior desafio que eu já passei na minha vida. Paralelo a isso, é a maior alegria também, porque ver um filho voar é a maior alegria que uma mãe pode ter. Agora meu filho mais novo, que mora em Amsterdam, está em casa. Foi um desafio eu vir para São Paulo (para a divulgação do filme), porque eu queria ficar com ele, respirando a presença dele na minha casa todos os dias. Eu acabei também de ir para os Estados Unidos encontrar o meu outro filho e aí ficamos os três juntos. Eu fico vivendo cada segundo como se fosse o último da minha vida assim, com uma alegria, me preenchendo de tudo porque eu sei o quanto é duro ficar sem eles. É muito difícil.
Vogue: Você está com 47 anos. O que ficou mais leve e o que ficou mais difícil nessa fase da vida?
Carolina: Não quero usar a palavra envelhecer, porque é uma palavra que as pessoas normalmente levam para um lugar ruim, né? Mas é preciso envelhecer para que você amadureça. É preciso que passe o tempo para que a gente sinta o valor do amadurecimento, o valor das experiências da nossa vida. Acho que a vida vai ficando cada vez mais confortável à medida que o tempo passa porque você começa a entender o que de fato faz sentido para você. E o que não te serve mais. As preocupações que você quer continuar tendo e aquelas que não fazem mais sentido. Eu sou uma mulher extremamente satisfeita com o que eu venho me tornando, porque eu acho que é muito parecido com aquilo que eu sinto. Estou sendo muito leal ao que eu, de fato, acredito que valha a pena na vida. O tempo para mim é um um grande amigo, me trouxe coisas muito boas.
Vogue Mulheres sentem muitas culpas, né? Do que diria que já conseguiu se livrar e hoje não compra mais?
Carolina: Muita coisa. Eu acho que tem muita coisa que a gente complica, sabe? E esse filme fala um pouco disso, porque muitas coisas que você acha que vai acontecer, não acontecem. E a gente entende que a vida, muitas vezes, está mais complicada na nossa cabeça. Na maternidade quantas vezes a gente imagina coisas que podem acontecer com os nossos filhos, que nunca aconteceram. Acho que hoje eu não caio mais nisso, eu já entendo que a vida é o que ela é e que a gente não controla mesmo. A gente não controla o que acontece. Não caio mais nessa de ficar curtindo pensamentos excessivos sobre controlar as realidades. Acho que é uma furada.
Vogue: Quais são seus sonhos?
Carolina: Ser avó é um sonho. Eu não sei se eu vou ser porque os meus filhos não estão muito interessados, mas eu adoraria. E eu quero morrer bem velhinha, se eu puder. Tenho muita coisa para viver ainda.
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Fonte: Vogue