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Data 18 de setembro de 2026

Miley finalmente lançou nesta sexta-feira (18.09) seu décimo álbum de estúdio, Bass Persuades. O trabalho marca dois passos importantes: sua estreia na Atlantic Records e a decisão de deixar o sobrenome Cyrus para trás. Mas o que realmente chama a atenção é a velocidade do projeto. Se antes a artista levou dois anos entre o sucesso de Endless Summer Vacation (2023) e o experimental Something Beautiful (2025), agora as dez faixas saíram em menos de doze meses. Esse ritmo a jato foge do cronograma burocrático e arrastado que ela já admitiu odiar. Desta vez, Miley queria algo mais direto e que acompanhasse o fluxo real de sua vida. O resultado é um álbum coeso, banhado de letras sobre como o amor nos faz sentir em diversos estágios da paixão.
O curioso é que, apesar da pressa, Bass Persuades não soa descartável. Pelo contrário! Em tempos de música pensada para durar 30 segundos de atenção, a cantora manteve a criatividade e o cuidado de fazer uma canção de verdade. As faixas têm ponte, todas passam dos três minutos (ufa!), uma estrutura que boa parte da música pop atual abandonou em nome do algoritmo e que, quando falta, deixa a canção esquecível, sem inspiração, do tipo que a gente pula sem pensar duas vezes ou esquece depois do próximo brainrot lançado (um péssimo sinal para uma faixa pop à médio prazo). O disco sabe exatamente que atmosfera quer criar e sustenta essa atmosfera por dez faixas, mesmo quando muda de andamento.
Ao longo do álbum, o baixo funciona quase como personagem, entrando e saindo de cena para ditar o humor de cada música, e há uma melancolia de fundo que atravessa tanto as faixas mais dançantes quanto as baladas, como se Miley estivesse dizendo, o tempo todo, que amar também dói. É, de longe, um álbum melhor que o antecessor que nào conseguiu garantir a atenção dos fãs, embora tenha visuais estonteantes. Musicalmente, o disco reúne referências dos anos 1970, 1980 e, em vários momentos, do timbre inicial de Britney Spears e Madonna, mas sem nunca soar cópia ou perder sua modernidade.
Parte disso vem da equipe por trás da produção: Maxx Morando, baterista da banda Liily e agora noivo de Miley, divide a bancada com Michael Pollack e o britânico Kid Harpoon, que já tinha assinado Flowers com ela. Há também a participação da banda Model/Actriz em Different Religion e do produtor Andrew Wyatt em Neon Signs, vocalista do Miike Snow que coescreveu Shallow, vencedora do Oscar ao lado de Lady Gaga, e acaba de produzir o novo álbum do Interpol, This Mirror Weighs a Ton. No visual, a mesma lógica de reunir gente boa se repete: o fotógrafo Mert Alas assina a direção do clipe da faixa-título e o estilista Alastair McKimm, ex-diretor de moda da Vogue França, cuida da identidade de moda do álbum.
Confira como esse manifesto se desenrola em cada canção:
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Bass Persuades
A faixa-título abre o trabalho com uma bronca em uma sociedade que parece ter esquecido como é se jogar na pista de dança, presa demais às telas dos celulares. “As crianças não querem dançar, as crianças não querem dançar, não podemos continuar assim para sempre”, canta Miley no refrão, ao transformar a música em um convite para esquecer o mundo lá fora. Os timbres escolhidos trazem de volta a energia de Sweet Dreams (Are Made of This), dos Eurythmics, com um toque de Lady Gaga, além do clima dark de Disturbia, da Rihanna. Perfeita para uma playlist de Halloween. É uma viagem deliciosa àquela era de ouro do pop que dominou as baladas entre 2007 e 2008.
Different Religion (feat. Model/Actriz)
Aqui, a paixão vira obsessão. “Eu tenho meu próprio deus, tenho uma religião diferente”, entrega Miley, trocando tudo pelo amor de alguém. É o momento em que o disco fica mais escuro e misterioso. O grande segredo aqui é a voz: Miley equilibra seu tom mais grave com um sussurro meio ingênuo, meio perigoso, lembrando muito o jeito clássico de Britney Spears no começo da carreira. A participação da banda Model/Actriz encaixa super bem. Parece genuinamente uma colaboração e não apenas uma colagem vocal. Essa dinâmica, inclusive, é o que torna a faixa tão interessante e ousada.
Let’s Get Married
O clima muda completamente e o disco ganha uma lufada de ar fresco com um indie rock romântico. Miley canta sobre a vontade de casar logo ao encontrar um amor que parece certo demais para esperar. “O que eu fiz para te merecer?”, pergunta ela antes do pedido, versos que todo mundo logo associou ao seu noivo, o produtor Maxx Morando. Mesmo sendo uma declaração de amor, a música tem um fundo nostálgico, que lembra o visual de uma tarde fria na praia, guiada por guitarras calmas e vocais cheios de reverb.
Orbit
A força da atração vira gravidade pura nesta balada ao piano. “Meus pés flutuam sempre que você está por perto, eu quero orbitar você. Não precisamos nos tocar, porque perto já é suficiente”, canta, lembrando que amar também pode machucar. O tom mais triste ganha um toque dramático quando um baixo pesado entra em cena, mas tudo na produção é muito bem amarrado para que os instrumentos não abafem a sensibilidade e a beleza da letra.
Aftermath
A faixa tem um quê de eurodance guiado por uma bateria urgente, que acelera o ritmo para a pista. Aqui, Miley sobe mais o seu registro vocal, mas divide o microfone com camadas de vocoders ou backing vocals (eles se alternam) enquanto repete “You were mine, you were never mine”. O grande trunfo é que, mesmo com a batida rápida, a música não perde a unidade melancólica que costura o disco inteiro, provando que o sentimento independe do BPM. Essa coesão melancólica faz todo o sentido quando olhamos os créditos: a própria Miley assina a co-produção de todas as faixas ao lado de sua equipe principal de estúdio.
Redlights
Miley canta sobre encontrar no outro a força para voltar a acreditar em si mesma. Aqui, a artista canta mais suave, usando um double na voz que se divide entre um fone e outro durante a faixa inteira. Ao fundo, os instrumentos eletrônicos se juntam a uma orquestra para criar o que parece ser uma versão moderna de ABBA. O refrão é puro ABBA – você com certeza conseguiria ouvi-los cantando aquela melodia -, mas sem que ela deixe de imprimir sua própria identidade.
Neon Signs (feat. Andrew Wyatt)
A faixa conta com sintetizadores rápidos e curtos, sob uma produção esparsa, decorada por elementos que de vez em quando lembram uma caixinha de música de brinquedo. Miley e Andrew Wyatt cantam juntos o tempo todo; a voz dele funciona como uma harmonia bem trabalhada e cheia de escalas que ganha destaque sem se misturar demais, principalmente no refrão. Na ponte, a faixa flerta perigosamente com o clichê ao emular os sussurros de Je t’aime… moi non plus, de Serge Gainsbourg e Jane Birkin. O clima de romance é tão exagerado — com direito a gemido de Miley no final — que tudo parece uma grande e charmosa sátira sobre duas pessoas declarando amor.
Innocent Ways
Uma carta aberta e cheia de carinho para a irmã mais nova, em que Miley tenta se equilibrar entre a vontade de proteger e a necessidade de deixá-la viver e cometer os próprios erros. A música traz de volta aquele clima misterioso e dark das produções da década de 2000, mas de um jeito totalmente novo. É aqui que percebemos como o baixo conduz o álbum inteiro, mudando o humor de cada história. No jeito de cantar e nos “yeahs” que finalizam os refrãos, ela deixa escapar suas grandes paixões na música, lembrando muito o espírito de Madonna na faixa Music.
Snow
O fechamento perfeito para o disco. É uma música sobre finalmente se sentir segura nos braços de alguém, depois de uma vida inteira de altos e baixos debaixo dos holofotes. “Eu te dei minha mão e você me puxou pro seu peito, eu sei que já vi tudo, mas com você eu veria tudo de novo e de novo. Juntos nós caímos como neve”, canta, totalmente desarmada. A jornada do álbum termina nesse som sofisticado e acolhedor. Perto do fim, o ritmo desacelera e o baixo toma conta, quase engolindo os sussurros finais de Miley até a música sumir por completo.
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Fonte: Vogue