categoria Conexão
Data 19 de setembro de 2026

Me tornar mãe com quarenta anos, mais madura, não me blindou de personificar praticamente todos os clichês da maternidade, mas também me deu a chance de idealizar uma projeção de vida menos retórica, mais autêntica e realista pra Celeste. Sempre que penso sobre o que desejo a ela, não é “felicidade”, puramente, e, sim, o instrumento que considero pavimento disso: liberdade. Pra ser, sentir, escolher, ao fim, ser livre para existir confortavelmente sendo quem se é. Com segurança, sem cálculos que corroem a autoconfiança. Eu poderia resumir esse caminho em uma palavra: PODER.  
Não é novidade que as relações de poder moldam e sustentam as estruturas culturais ao definirem quais valores, crenças e comportamentos são normalizados ou marginalizados em uma sociedade.  Só que a ideia do que é poder e como ele é exercido vem se transformando. Ainda bem. Compreender esse fenômeno é urgente pra construção de um futuro, efetivamente, mais próspero e saudável, e pra uma repactuação com um passado que ainda nos influencia, pois ali estão as referências formadoras de quem nos tornamos. E pra quem é dos anos 1980, como eu, há limitações importantes. Na minha juventude, as mulheres “poderosas” sempre apareciam como figuras sexualizadas, malvadas, com armas e/ou músculos proeminentes.  O poder tinha e ainda tem um jeito, uma cara, forma, que habita, orbita e impacta o mundo todinho à nossa volta, ao ponto de uma pergunta simples ter resposta difícil:
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Quem é a mulher que tem mais poder no Brasil hoje? O Estúdio Clarice – referência em pesquisas no universo feminino – fez essa pergunta a mais de duas mil pessoas pelo país. O que aconteceu? Cerca de 40% dos brasileiros não souberam responder. Entre os jovens, o percentual foi ainda maior:  49%. E o diagnóstico está feito: não é (necessariamente) ausência de mulheres no poder,  é a ausência delas no imaginário. ESTAR no poder é TER poder?
“Representatividade é uma condição urgente, mas insuficiente. É por isso que existe uma diferença substancial entre estar no poder e ter poder. A pesquisa revela que, sim, as mulheres precisam ocupar espaços de liderança, mas que também esses espaços precisam se abrir para o tipo de liderança que elas querem exercer”. Mariana Ribeiro, uma das fundadoras do Clarice, me disse isso e me fez pensar: nessa outra liderança poder é poder escolher.
Escolher é apostar com segurança. E o mesmo estudo mostra que podemos apostar mais. Para três a cada dez mulheres confiar em si mesmas e nas próprias decisões é o que mais dá a sensação de poder. Só que continuamos a duvidar, pois um percentual muito próximo também questiona a própria capacidade em espaços onde ainda precisam mudar o tom de voz para serem levadas a sério, controlar expressões faciais e gestos para serem ouvidas, esconder a personalidade para se encaixarem em um ambiente, ficarem atentas à forma de se vestir.
O lugar da mulher ainda não é onde ela quiser, mas enxergamos cada vez melhor as trincheiras e nos camuflamos cada vez menos, usando nossa essência como arma.  Somos essencialmente intuitivas e há um grupo cada vez maior de mulheres abraçando essa característica tão nossa. Só assim mudaremos a forma como o poder é vivido, exercido e imaginado. Poder é um processo vivo e atravessa a habilidade de fazer escolhas com liberdade e segurança.
Voltemos à liberdade do início do texto, e eu volto à Celeste. A cada dia que minha filha me pede pra usar um sapato diferente, em cada um dos pés, eu, hoje, acho o máximo, e incentivo toda e qualquer aparente desobediência pueril, pois é onde tudo nasce. Novos imaginários estão sendo construído nos detalhes. Estejamos atentos.
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Fonte: Vogue