categoria Comportamento
Data 23 de julho de 2026

Quando penso na África, automaticamente me vêm à cabeça os incríveis safáris, como Singita e Ngorongoro. Foi assim que imaginei parte do roteiro da nossa viagem em família para o casamento de um amigo do meu pai, que aconteceu em maio, na África do Sul. A verdade é que não fomos atrás dos Big Five, e a surpresa foi tão boa quanto.
Começamos nossa aventura por Moçambique, especificamente na ilha de Benguerra. Pelo pouco que passamos no continente, já pude sentir a simpatia dos locais, que se empolgam quando escutam nosso português e abrem um sorriso quando não precisam mudar de língua. Pousamos em Vilankulo, e de lá o próprio hotel organizou um trajeto rápido até a ilha.
O vôo em si já é um passeio que vale pelo visual do mar azul, raso e calmo. Até avistei uma tartaruga na mesma direção que a nossa.
&Beyond, hotel em Benguerra
Acervo Pessoal
Chegamos a Benguerra e fomos recebidos com música e uma alegria que se percebe no olhar. A ilha tem alguns hotéis e o nosso, &Beyond, localizado na parte calma da baía, conta com poucos chalés, um bar instalado em um barco antigo parcialmente enterrado na areia e uma casa principal que serve de apoio para as refeições no jardim em frente ao mar. Um paraíso frequentemente escolhido para luas de mel, mas lá estávamos nós, nove adultos e seis crianças.

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&Beyond, hotel em Benguerra
Acervo Pessoal
Meus sobrinhos ativaram o modo Mogli e passavam horas por dia dedicados à divisão de tarefas de cada primo e “morador” de uma cabana parcialmente imaginária. Foi para lá que todas as lamparinas do hotel foram parar, junto às conchas e águas-vivas encontradas pela areia. E sim, Benguerra é um destino tão relaxante que até a água-viva tradicional não queima.
Amanda Cassou
Acervo Pessoal
Amanda curtiu a África do Sul em família
Acervo Pessoal
Dizem que a época ideal para explorar a região é entre Julho e Outubro, quando as baleias Jubarte migram para ter seus filhotes. Em Julho também podem ser avistados tubarões-baleia e existem passeios dedicados para nadar em sua companhia. Mais um motivo para voltar e completar nossa experiência, que contou com passeios nas dunas da ilha ao lado, chamada Bazaruto, almoço em uma praia deserta, snorkeling no Oceano Índico com os peixes mais coloridos que já vi e o pôr do sol cor-de-rosa e alaranjado em um barco a vela lindo, silencioso e tão rústico quanto o do bar do hotel.
Entre as atividades por lá, Amanda destaca também passeios nas dunas
Acervo Pessoal
Passamos quatro noites por lá e, todos os dias, as refeições eram servidas em diferentes cenários para aproveitarmos ao máximo. Pablo, que era responsável por “cuidar” da nossa família, brincou, separou brigas das crianças e, além do vinho, serviu muitos ensinamentos com seu senso de humor, simpatia e sabedoria. “Não passa nada, está tudo bem, tudo bom”, dizia ele.
A comida girava em torno do que há de fresco por lá. Muito peixe, frutos do mar, saladas variadas e também surpresas no cardápio de uma chef australiana que mora há alguns anos na comunidade local e incorporou temperos dali. O melhor bolinho de caranguejo que comi na vida.
Foi difícil dizer adeus ao Pablo, à areia fina e branca, ao meu chuveiro a céu aberto, à água quente e calma do mar e a esse destino que mais parecia o Show de Truman. E lá fomos nós para Stellenbosch.
Pousamos na Cidade do Cabo e seguimos para o nosso hotel, o Spier, que fica na região de Cape Winelands, conhecida pelas vinícolas, passeios ao ar livre e o visual poderoso das montanhas. A propriedade foi reformada recentemente, mas todo o complexo já existia desde 1962 e manteve o visual colonial holandês de suas casas brancas com detalhes em verde escuro. Assim que chegamos, corremos para o restaurante principal e tivemos um jantar bem “farm-to-table”, com batata-doce e abóbora na brasa, ervas e saladas cultivadas ali.
Picniquery
Acervo Pessoal
Difícil descrever a sensação de estar em uma espécie de vila, meio vinícola, meio fazenda, com restaurantes maravilhosos, uma galeria de arte, lojas, spa, atividades para as crianças e até um espaço chamado “Picniquery”, onde fomos todos de bicicleta escolher o que levaríamos para o nosso piquenique no gramado, um dia depois do casamento e motivo pelo qual estávamos todos lá.
Em Stellenbosch, Amanda Cassou encontrou girafas e zebras
Acervo Pessoal
Registro das zebras durante um passeio
Acervo Pessoal
Stellenbosch fica a quarenta minutos da Cidade do Cabo e além de ser um cenário especial para uma cerimônia, oferece diferentes tipos de acomodação. Existe uma potência indescritível nas montanhas que a rodeiam e tivemos dois dias de comemorações. No nosso tempo livre queríamos curtir o hotel, mas descobrimos um passeio a cavalo para ver girafas e zebras em uma reserva e lá fomos nós, para o Horse Ride at Pete’s. Além desse programa, fomos passear pelo centrinho e jantamos no Mertia, com menu fechado contemporâneo, temperos locais, ovo perfeito e uma sobremesa de manga com coco e chocolate branco inesquecível.
Amanda também experimentou a alta gastronomia contemporânea da África do Sul
Acervo Pessoal
Depois de muita festa, descanso e quatro noites em Stellenbosch, fomos para Cidade do Cabo.
Foi então que entendi por que nossa amiga e agente de viagem, Natasha, não quis incluir nenhum Safári no nosso roteiro de doze dias. Além de muitos não aceitarem crianças, não daria tempo. A Cidade do Cabo tem muito a oferecer, merece no mínimo três noites e me surpreendeu em vários sentidos. A primeira coisa que percebi foi a importância e o gosto pela música. Desde o uber, passando pela banca de jornal até o elevador do hotel, há sempre uma batida ou ritmo contagiante que ativa uma vontade instantânea de mexer o ombrinho. Claro que isso também vale para outros lugares do continente, mas consegui sentir que ali existe uma vida noturna ativa.
Nos hospedamos na zona portuária mais conhecida como Victoria & Alfred Waterfront, onde se pode fazer tudo a pé com segurança. Em frente ao mercado Time-Out, onde parei para comer ostras com um campari, vimos uma performance de artistas dignos do The Voice. O ponto alto dali é o Zeitz, museu de arte contemporânea africana, que foi construído dentro de um antigo silo de grãos e impressiona por sua arquitetura e genialidade de um projeto que conseguiu manter a estrutura original tendo seu átrio escavado em formato de uma espiga de milho do piso até o teto. Em volta deste vão enorme estão as salas de exposição que te fazem circular. Me senti em uma cena do 007, em um mix do brutalismo de bunker com imensidão de uma catedral. Difícil explicar.
Amanda visitou o Zeitz, museu de arte contemporânea africana
Acervo Pessoal
Na saída do Zeitz, passei em frente a uma loja bem central chamada African Trading Port. Impossível não entrar depois de tantas esculturas em frente que te convidam a se perder nos quatro andares de artesanato e tesouros africanos. Confesso que a essa altura da viagem estava até me estranhando por não ter me atirado em algum souvenir, nem mesmo dos aeroportos, mas valeu a espera e ali encontrei tecidos em patchwork colorido, almofadas, potes em malaquita, esculturas e tantas outras maravilhas. O interessante é a diversidade da oferta, que vai desde uma pequena lembrança como um colar de contas coloridas, até esculturas enormes de diferentes lugares do continente africano, e que acabam ali, naquele porto com tanto significado de troca.
African Trading Port
Acervo Pessoal
O visual de V&A é todo envolvido pela Table Mountain e foi para lá que fomos em uma manhã de sol. Na subida, já no teleférico, tive vontade de fazer a trilha que vai até o topo, mas logo passou. Depois de me sentir na Chapada Diamantina, foi possível entender melhor a divisão da cidade e avistar Camps Bay, conhecida por suas casas e vida noturna em frente ao mar.
Partimos da Table Mountain e fomos até a praia dos pinguins, Boulder’s Beach. Para quem (como eu) ama esses serzinhos monogâmicos e cheios de si, o passeio é imperdível e hipnotizante. A praia fica a quarenta minutos de onde estávamos hospedados, então recomendo uma parada para comer ostras e frutos do mar em um restaurante local antes da viagem de volta.
Quadro do artista Mawande Ka Zenzile
Acervo Pessoal
Além de museus, sempre gosto de conferir galerias locais e no último dia consegui dar um pulo na Stevenson, que fica no bairro chamado Woodstock, a poucos minutos de carro do Waterfront. Com foco em artistas renomados sul-africanos e uma sede também na Holanda, a galeria é uma das mais importantes do país e fiquei surpresa ao encontrar obras do brasileiro Paulo Nazareth por lá. Um dos trabalhos que mais gostei foi do artista Mawande Ka Zenzile, que usa materiais rústicos e inusitados em sua pintura tão ligada à ancestralidade e questões do colonialismo. Fixei os olhos em uma obra com três pirâmides em tons que poderiam ser de um pupilo da Tomie Ohtake e logo depois que parti, quando já estava em outro bairro conhecendo uma loja de móveis, consegui identificar mais uma pintura dele. “É Mawande?”.
A vendedora disse que sim e ali estava mais uma exposição completa dele me esperando, no Showroom da Tonic, uma marca de mobiliário e estúdio de design de interiores prestigiado na África do Sul. O espaço, repleto de peças em laca colorida, foi aberto recentemente na Kloof Street, rua charmosa cheia de cafés e lojas para se perder. Ali perto também passei por uma multimarcas chamada AKJP Collective, com foco em novos talentos da moda sul-africana e, entre mais de quarenta designers, me surpreendi com as modelagens, pespontos coloridos e tecidos de uma label chamada Vivier Studio.
Saindo de lá, parei no restaurante e bar Kloof Street House e provei um bellini. É ali que acontece um jazz aos domingos e, por mais que seja um pouco turístico, diria que é o dia certo e programa completo para fechar este roteiro com um brinde. Até a próxima!
Anote aí:
BENGUERRA | onde ficar:
• &Beyond – Benguerra
• Kisawa Sanctuary
STELLENBOSCH | onde ficar:
• Spier Hotel
• Babylonstoren
STELLENBOSCH | onde comer:
• Mertia
• Spier
• The Fat Butcher
CIDADE DO CABO | onde ficar:
• One & Only
• Silo Hotel
• Pod – Camps Bay
• Mount Nelson
CIDADE DO CABO | onde comer:
• La Colombe
• Salsify
• Nobu
• Chef’s Warehouse
• The Pot Luck Club
• Kloof Street House
CIDADE DO CABO | onde comprar:
• African Tranding Port
• Avoova
• AKJP Collective
• AAFRICAA
CIDADE DO CABO | onde ir:
• Zeitz Museum
• Stevenson Gallery
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue.
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Fonte: Vogue