categoria Comportamento
Data 25 de julho de 2026

Neste Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, somente uma reflexão me vem à mente. Existe uma liderança que o Brasil ainda não conhece. As mulheres negras estão presentes na base da economia, do empreendedorismo e do cuidado, mas continuam praticamente invisíveis nos espaços de tomada de decisão.
Comprovo cada uma dessas afirmações com dados. Segundo o estudo mais recente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNAD Contínua/IBGE: 4º trimestre de 2024), as mulheres negras representam 17% do total de pessoas empreendedoras no Brasil. Já o estudo “Mulheres negras acumulam funções e discriminações no trabalho”, publicado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) em 2025, revela que cerca de 30% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres negras, que acumulam o trabalho remunerado com as responsabilidades de cuidado; além disso, 39% das mulheres negras ocupadas estão na informalidade, e uma em cada seis trabalha no serviço doméstico ou na limpeza de edifícios.
O custo dessa ausência não recai apenas sobre elas ou, em primeira pessoa, sobre nós; ele é pago também com perda em potencial de inovação e competitividade. Segundo o estudo da Gestão Kairós, “Diversidade, Representatividade e Percepção”, realizado com cerca de 26 mil profissionais de grandes empresas, as mulheres negras representam apenas 3% dos cargos de liderança no nível Gerente e acima. O dado dialoga com o cenário nacional. O levantamento do DIEESE, com base na PNAD Contínua/IBGE, mostra que apenas uma em cada 46 mulheres negras ocupadas exerce funções de direção ou gerência.

Selecionar uma imagem
Por que essa parcela da população que lidera em tantas frentes segue sendo ignorada pelas empresas? Porque ainda confundimos mérito com igualdade de oportunidade.
As mulheres negras chegam ao mercado de trabalho enfrentando barreiras históricas que se acumulam ao longo da trajetória profissional. Os vieses avaliam tom de pele, cabelos e traços culturais dessa parcela da população, em detrimento de competência, resultados e entregas de forma mais ampla. Digo isso porque eu mesma, como relato no Livro Protagonistas Vol. II, em uma avaliação de desempenho, já precisei ouvir que deveria fazer chapinha, alisar o cabelo, porque eu era negra.
Mulheres negras também têm menor exposição a projetos estratégicos e menos patrocínio executivo; o resultado é um funil que se estreita a cada nível hierárquico. Não faltam competência ou potencial, o que faltam são condições equitativas para que esse potencial seja reconhecido e convertido em posições de decisão.
Por isso, concluo como comecei! O Brasil já conhece a força de trabalho das mulheres negras. O que ainda desconhece é a dimensão do impacto que elas podem produzir quando ocupam, de forma efetiva e ampla, os espaços de decisão e poder.
O verdadeiro desafio não é perguntar se as mulheres negras já estão preparadas para liderar; a pergunta que permanece é outra: as organizações estão preparadas para compartilhar o poder?
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue Brasil.
Canal da Vogue
Quer saber as principais novidades sobre moda, beleza, cultura e lifestyle? Siga o novo canal da Vogue no WhatsApp e receba tudo em primeira mão!

Fonte: Vogue