categoria Comportamento
Data 18 de julho de 2026

Hick Duarte passou seis meses atravessando o Brasil. Da Floresta Nacional do Tapajós, no Pará, até a Copa Quilombola Kalunga, em Goiás, passando por Salvador e São Paulo, o fotógrafo documentou o futebol jogado longe dos grandes estádios: em campos de terra, às margens de rios, em torneios de várzea. Neste sábado (18.07), ele abre Em Campo, na Capela Galeria, no terraço da Galeria Metrópole, em São Paulo, com curadoria de Thiago de Paula Souza, e falou com exclusividade à Vogue sobre o processo.
“A ideia inicial era tentar criar um itinerário que fosse representativo do Brasil como território vasto, fugindo das cidades que são sempre documentadas quando pensamos em futebol”, diz Hick. Só que o plano mudou de figura pelo caminho. “Quanto mais mergulhava nessas viagens e times, percebia o quanto o futebol era também um elemento de resistência e de profunda importância na conexão entre as pessoas.”
No Povoado Minho, ao lado de Alto Paraíso (GO), cercado pela Chapada dos Veadeiros, ele encontrou um dos campos mais exuberantes do projeto, que só segue de pé porque a comunidade insiste em ocupá-lo, driblando a venda para a iniciativa privada. Para Hick, foi ali que o projeto se revelou. “Quando entrevistei as crianças de lá, ouvi falarem que ali os seus pais e avós jogaram, e ali os seus filhos também jogarão. Isso foi muito decisivo para o projeto: entender como o futebol em alguns lugares exerce essa função social e política, que transcende o esporte e o lazer.”

Parte do que for vendido na exposição volta pros próprios clubes retratados, em sede, campeonato, o que for preciso pra manter o time de pé. Segundo o fotógrafo, é assim que ele trabalha há tempos. “Trabalhando com retratos há 15 anos, eu sempre acreditei que a imagem final é uma colaboração entre o meu trabalho e a pessoa retratada. Nunca comercializei um retrato sem levar em conta esse acordo, seja no meu trabalho comercial ou nos meus projetos de arte.” Ele completa: “Vendo a realidade de como o futebol é praticado com tanto amor e garra apesar da falta de estrutura, esse meu pensamento pareceu fazer mais sentido ainda.”
“Emerson em Salvador” – Salvador, Bahia
Divulgação/Hick Duarte
Hick também assina editoriais de moda, e é esse olhar que aparece nos retratos de Em Campo. “Eu me interesso muito pelas subjetividades presentes no estilo das pessoas. Mais do que o vestuário em si, fico sempre buscando o que um colar, um boné, uma tatuagem, uma meia, esses detalhes complementares ao estilo também informam. O futebol fora desse espetáculo que vemos na TV é um prato cheio nesse sentido, porque ele é completamente conectado com a cultura e o estilo de vida das pessoas.”
“Time feminino celebra na primeira Copa Quilomba Kalunga”
Divulgação/Hick Duarte
A moda, ele lembra, trabalha com corpos e imagens controlados. A várzea foi o contrário. “Não ter esse controle foi um grande desafio que quis assumir. Mais do que isso, foi o motor criativo do projeto. Quando chegava aos campos que ia fotografar, eu não tinha uma lista de casting, ou as fotos das pessoas que ia encontrar. Sabia como era o campo minimamente, mas não me ligava muito para as condições meteorológicas, porque as viagens precisavam acontecer de qualquer forma.” Foi assim que nasceu a série Chuva, registrada durante a primeira Copa Quilombola Kalunga, em Teresina de Goiás, no coração do território quilombola. “A chuva é um elemento visual tão importante quanto as pessoas e o próprio futebol pra essa série. Talvez em um trabalho de moda, em que tudo precisa ser mais controlado e previsto, essa chuva fosse evitada.”
“Mateus Augusto” – Taboão da Serra, São Paulo
Divulgação/Hick Duarte
Serviço
Hick Duarte: Em Campo
Abertura: 18 de julho, sábado, das 17h às 22h
Visitação: 18 de julho a 22 de agosto, das 12h às 20h – Grátis
Capela Galeria: Galeria Metrópole – Avenida São Luís, 187, Terraço, Sala 5. República
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Fonte: Vogue