categoria Conexão
Data 18 de setembro de 2026

Há dez anos, Day Molina fundava a Nalimo no Rio de Janeiro. Ontem, ela voltou às origens para um desfile que foi uma retrospectiva e um manifesto ao mesmo tempo. O ponto de partida foi a sua infância, sendo uma criança indígena que cresceu na Ponta d’Areia, bairro de Niterói, às margens da Baía de Guanabara. O bairro dá nome e alma à coleção. “Essa é uma coleção que fala muito das águas, da importância das águas na minha vida. De uma criança indígena que cresceu numa região portuária periférica.”, conta Day
Nalimo
Divulgação
É esse mar azul, denso e cheio de história que atravessa a coleção de ponta a ponta. Uma das peças é uma tapeçaria exclusiva que referencia as espumas da Baía, e os materiais de toda a coleção carregam a memória de um território inteiro. Foram usados couro de peixe, sementes de açaí, bordados manuais, pinturas naturais, tramados em fibras como malva, palha de carnaúba e palha da Costa. Técnicas que passaram de geração em geração dentro da própria família da Day, desde a sua bisavó até chegar nela, que agora as leva à passarela misturadas com alfaiataria de silhuetas amplas e presença marcante.
Nalimo
Divulgação

Ao lado de peças inéditas, looks icônicos de outras coleções também retornam à passarela, entre eles uma criação que a cantora Anitta usou em homenagem a Oxum. “A gente olhou muito para essa jornada ao longo dos anos e reviveu os clássicos com muito carinho.”, diz Day.
Pela primeira vez, Limbert Mamani, de etnia Aymará, aparece ao lado de Day como diretor criativo. Mas Limbert não é uma novidade na Nalimo, já que há muito tempo ele habita a marca, respondendo nos bastidores pela logística, direção de arte e execução. Arquiteto e urbanista, Mamani traz para a Nalimo uma camada de estrutura e rigor que complementa o olhar da Day, formada como stylist e figurinista antes de fundar a marca. “A gente é muito complementar. Ela tira leite de pedra, e eu entro com a matemática, com o olhar que vem da arquitetura”, descreve Limbert. Day concorda: “A gente tem liberdade de dizer não um pro outro, mas também tem a liberdade de criar como expressão muito poderosa.”
Nalimo
Divulgação
Dessa parceria nasce o conceito que orienta a coleção: Cidade Aldeia, uma visão que reúne a cultura originária indígena com a realidade urbana. Na passarela, ela se materializa no look que abriu o desfile, um conjunto de alfaiataria off-white de caimento amplo com um cinto artesanal que rouba a cena com seu medalhão trabalhado com contas, tramas e elementos suspensos, incluindo um peixe esculpido pelas mãos de Limbert. “A gente pensa a cidade como uma grande aldeia, um território vivo. Onde a gente está pisando agora já foi floresta, já foi aldeamento. A gente tem atravessado essas fronteiras limitantes para trazer um novo conceito sobre o que é ser indígena num contexto urbano.”, explica Day.
Nalimo
Divulgação
Revistas Newsletter
A Nalimo retorna a Paris para uma nova edição do Runway Vision, que acontece durante a Paris Fashion Week. Em 2025, Day Molina se tornou a primeira estilista indígena brasileira a desfilar na cidade. “O que mudou foi o nosso comprometimento com o que o mundo vê lá fora”, diz Limbert. Day completa: “A gente entendeu que, a partir da nossa autenticidade, eles se conectam com o nosso trabalho.”.
Galerias Relacionadas
Nalimo
Divulgação

Fonte: Vogue