categoria Comportamento
Data 16 de junho de 2026

Não estou perguntando quantos eventos você foi.

Estou perguntando quantas vezes você saiu de algum lugar — de qualquer lugar, não precisa ser evento — com aquela sensação estranha de que algo havia mudado em você. Não muito. Talvez quase imperceptível. Mas diferente. Como se uma camada fina de percepção tivesse se deslocado e você voltasse para casa enxergando alguma coisa de um ângulo que não era o seu antes.

Pensa bem antes de responder. Porque se a resposta vier rápido, fácil, com vários exemplos na ponta da língua — talvez você esteja confundindo experiência com entretenimento. E essa confusão, na minha visão, é o problema central de quase tudo que é produzido hoje no universo de eventos, ativações, live marketing, comunicação ao vivo. Chama como quiser.

Tem uma coisa que me inquieta faz tempo.

O mercado nunca produziu tanto. Nunca teve tanto recurso, tanta tecnologia, tanto acesso a referências do mundo inteiro. Qualquer agência hoje consegue montar algo visualmente impressionante com uma fração do que custava há dez anos. Os renders ficaram melhores. A cenografia ficou mais ousada. A trilha sonora ficou mais precisa. O storytelling virou pauta de briefing.

E ainda assim — quando você pergunta para as pessoas quais experiências realmente ficaram, quais momentos de marca elas lembram com alguma emoção genuína — a lista é surpreendentemente curta. Quase constrangedoramente curta.

Por quê?

Não é falta de talento. Não é falta de investimento. É outra coisa — uma confusão mais funda, mais estrutural, sobre o que experiência realmente significa e o que ela exige de quem se propõe a criá-la.

Uma experiência não é algo que você vê, é algo que você vive, sente, atravessa por diversos sentidos de uma vez. É o que acontece dentro de você enquanto vivencia aquele momento — não o que está na tela, no palco, no espaço.

Em um mesmo lugar e instante, duas pessoas no mesmo show, passam pela mesma vivência externa, mas uma pode sair transformada e ainda emocionada dias depois, a outra apenas entretida, já esquecendo quando ainda está no estacionamento. O palco era o mesmo. A luz era a mesma. A música era a mesma.

O que foi diferente?

O estado interno com que cada uma chegou, sim — mas também, e principalmente, se o projeto foi construído para tocar algo verdadeiro, ou apenas para impressionar. Tem uma diferença que o corpo percebe, mesmo quando a mente não consegue nomear.

É possível criar todos os elementos externos de uma grande experiência — cenografia, luz, som, roteiro, cada detalhe calculado — e não criar experiência nenhuma. Porque experiência não mora nos elementos. Mora no espaço entre eles, na pausa antes da música começar, no silêncio antes da revelação, no momento em que ninguém está falando nada e o ambiente diz tudo o que precisava ser dito.

Isso não se aprende em curso. Se aprende olhando muito, errando muito, e tendo a honestidade desconfortável de perguntar, depois de cada projeto: o que a pessoa realmente sentiu? Não o que o relatório registrou. Não o que o NPS calculou naquela pesquisinha de tablet que todo mundo responde com pressa porque o Uber já chegou.

O que ficou?

O mercado tem medo dessa pergunta.

Porque a resposta honesta, muitas vezes, é desconfortável. Preferimos medir o que é fácil medir. Preferimos o relatório bonito que justifica o investimento a enfrentar a questão real — isso criou algo que ficou? Isso tocou alguém de verdade, ou apenas impressionou por algumas horas?

E aqui está o paradoxo que não sai da minha cabeça: nunca houve tantos dados sobre comportamento humano disponíveis, nunca tivemos tanto entendimento sobre como as pessoas reagem, decidem, sentem — e ao mesmo tempo nunca o mercado criou tão pouco que realmente toca as pessoas. Talvez justamente por isso. Quando você começa a olhar só para o dado, você para de olhar para a pessoa.

Tem uma diferença entre ser emocionado e ser manipulado emocionalmente, e o mercado aprendeu muito bem a segunda. Trilha sonora certa, luz certa, momento de revelação calculado ao milímetro — tudo para extrair uma reação emocional que vai parecer espontânea mas foi engenheirada.

Funciona. Por um tempo.

Mas as pessoas percebem. Não conscientemente, não na hora — mas percebem. Tem algo que não fecha, uma leveza que falta, a sensação difusa de que aquilo foi construído para parecer experiência, não para ser. E essa percepção, mesmo que nunca seja verbalizada, é o que determina se uma marca ficou ou passou.

O que separa manipulação emocional de experiência genuína? Essa pergunta me acompanha há muito tempo e minha resposta ainda é provisória — mas o que vejo nos projetos que realmente funcionam é que o centro deles é a pessoa. Não a marca querendo parecer próxima da pessoa. A pessoa de verdade, com o que ela carrega, com o que ela precisa, com o que vai fazer sentido para ela naquele momento específico da vida.

As pessoas sentem essa diferença. Mesmo sem conseguir nomear.

Há um pensamento de Simone Weil que volta para mim sempre que começo um projeto novo: “Atenção é a forma mais rara e pura de generosidade.”

Ela estava falando de relações humanas. Mas quando penso em experiência — em qualquer formato, evento, ativação, instalação, performance — é exatamente isso que vejo nos projetos que ficam na memória das pessoas: alguém prestou atenção. Atenção real, trabalhosa, desconfortável. Não no que vai viralizar, não no que vai impressionar o cliente na apresentação — na pessoa. No que ela vive. No que ela carrega. No que vai fazer sentido.

Essa atenção é rara. Não cabe em template. Não tem atalho.

E talvez seja a única coisa que ainda separe o que transforma do que apenas passa.

André Heller é Publicitário, estrategista, produtor e educador. Sócio-Diretor da Qpubliq e Autor de Eventos na Prática.

Fonte: Promoview