Comportamento
23 de junho de 2026
O quanto as mulheres realmente conhecem o próprio corpo? Esse questionamento ganhou força no Women’s Health & Menopause Congress, encontro internacional dedicado à longevidade e à saúde feminina que aconteceu recentemente em Boston. Ali, um ponto se repetiu entre especialistas de diferentes áreas: o prazer feminino ainda não foi totalmente incorporado à prática clínica. “Existe um nível de desinformação muito grande, não só das pacientes, mas também de muitos profissionais de saúde”, afirma o médico Guilherme Storch, especialista em medicina de precisão e longevidade. “E isso impacta diretamente a forma como essa mulher vive a própria sexualidade.”
Uma pesquisa recente da YouGov, empresa multinacional de pesquisa de mercado e análise de dados, mostrou que quase 30% das mulheres não conseguem identificar corretamente o clitóris em uma ilustração anatômica. Menos da metade reconhece a uretra. Mesmo em pleno século 21, boa parte das mulheres ainda não recebeu informações básicas sobre sua própria anatomia sexual. O clitóris, por exemplo, ainda é frequentemente reduzido à sua parte visível. Mas a anatomia real é mais complexa: a glande representa apenas uma pequena porção de uma estrutura interna que se estende pela vulva, com corpos cavernosos e bulbos vestibulares. Estudos anatômicos indicam que esse complexo pode alcançar entre 9 e 11 centímetros, com uma densidade nervosa extremamente alta — o que explica sua função central no prazer feminino. Essa estrutura fundamental para o orgasmo da mulher segue sendo pouco estudada, pouco ensinada e raramente examinada de forma detalhada na prática clínica.
No congresso, uma das abordagens que mais chamou atenção foi a da uroginecologista americana Rachel Rubin, que propõe uma mudança simples e poderosa na consulta: a visualização guiada do corpo. Na prática, a paciente usa um espelho enquanto o médico explica cada estrutura. “Ela vai mostrando: isso é o clitóris, isso são os pequenos lábios, isso é a uretra. Muitas mulheres nunca tiveram essa oportunidade”, explica Storch, que esteve presente no evento. O efeito, segundo especialistas, vai além da educação anatômica, ajudando a mulher a mudar a forma como se percebe.
Não é apenas falta de desejo
A partir dessa escuta mais atenta, médicos começaram a identificar condições que raramente entram na conversa sobre sexualidade feminina. Uma delas é a chamada fimose clitoriana — termo ainda pouco conhecido fora da ginecologia. Trata-se de uma condição em que o prepúcio clitoriano cobre parcial ou totalmente a glande, dificultando sua exposição e, em alguns casos, a estimulação adequada. “Se você pergunta isso para muitos ginecologistas, eles simplesmente não sabem do que se trata”, afirma Storch. O resultado é que muitas mulheres passam anos acreditando que têm baixa libido ou dificuldade de orgasmo, quando, na verdade, podem ter uma limitação anatômica específica — mas tratável.
A transição menopausal também acaba impactando o prazer feminino. A síndrome geniturinária da menopausa, reconhecida pela North American Menopause Society, afeta uma parcela significativa das mulheres após a queda do estrogênio. Estima-se que entre 50% e 80% possam apresentar sintomas como ressecamento vaginal, dor na relação sexual, redução da elasticidade e alterações urinárias. “O ressecamento não afeta apenas o conforto. Ele pode interferir na exposição e na sensibilidade do clitóris, impactando diretamente a resposta sexual”, explica Storch. Além das mudanças hormonais, doenças inflamatórias, infecções recorrentes e condições autoimunes também podem alterar a elasticidade dos tecidos da vulva e interferir na função sexual.
O que dizem os dados sobre prazer feminino
Embora o tema ainda seja pouco discutido em consultório, a ciência já aponta para uma realidade mais complexa do que se imaginava. Uma análise do Kinsey Institute mostra que a satisfação sexual feminina não desaparece com a idade — pelo contrário, pode se manter estável ou até aumentar em fases posteriores da vida, especialmente quando há saúde, autonomia e comunicação no relacionamento.
Já levantamentos da International Society for the Study of Women’s Sexual Health indicam que a disfunção sexual feminina pode afetar entre 30% e 50% das mulheres em diferentes fases da vida, com aumento de prevalência no climatério, embora com forte influência de fatores emocionais, hormonais e relacionais. Esses dados ajudam a tirar a lente do diagnóstico simplista de “desejo alto ou baixo” e colocar ele em um espectro mais amplo de saúde sexual.
Aliás, a definição contemporânea de saúde sexual da Organização Mundial da Saúde diz que se trata de um estado de bem-estar físico, emocional, mental e social relacionado à sexualidade, e não apenas ausência de doenças. Ou seja, prazer não é um “extra”, é parte do cuidado. E quando ele não existe, o impacto pode ir muito além da vida íntima: autoestima, qualidade do sono, vínculos afetivos e até saúde emocional podem ser afetados.
Apesar dos avanços, especialistas reconhecem que a medicina ainda está aprendendo a falar sobre prazer feminino de forma técnica e estruturada. “A sexualidade precisa ser tratada como parte da saúde, não como um assunto à margem”, diz Storch. “Quando isso entra na consulta, tudo muda: diagnóstico, tratamento e, principalmente, a forma como essa mulher entende o próprio corpo.” Essa mudança sinaliza que a medicina, que historicamente olhou para o corpo feminino mais pela lógica reprodutiva, finalmente começa a incluir desejo, prazer e autonomia como parte da longevidade.