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Data 08 de setembro de 2026

Há mais de dez anos, Lina Abascal comentava “come to Brazil” em posts de artistas que ama, sempre no mesmo tom de brincadeira carinhosa. Foi só ao pesquisar a fundo a expressão que a diretora de Los Angeles entendeu o tanto que havia por trás da piada. “Percebi isso durante a realização deste filme. De fora, anos atrás, eu não dava muita importância ao meme. Para mim, era sinônimo de ‘eu te amo!’ na boca de um fã”, diz ela à Vogue Brasil. A pesquisa sobre artistas em turnê pelo Brasil mudou sua percepção: “vi que muitos nunca tinham vindo, ou vinham uma vez por década, muitas vezes só para um festival, e o meme me atingiu de um jeito novo e comovente.”
O resultado é Come to Brasil, documentário de 22 minutos que acompanha quatro superfãs cariocas de Taylor Swift, Beyoncé, Lady Gaga e Madonna. O filme estreou em julho no YouTube e no Documentary+, e é o segundo trabalho de Lina como diretora, depois do premiado curta Stud Country, sobre a história da dança country-western queer em Los Angeles, que integrou a série Los Angeles Times Short Docs, vencedora do Oscar. Antes de migrar para o cinema, Lina construiu carreira como jornalista de cultura, com textos publicados no Los Angeles Times, na Rolling Stone e na WIRED, entre outras revistas.
Come to Brasil é uma coprodução entre a Discordia, produtora de Los Angeles fundada por mulheres e voltada a histórias latino-americanas, e a Cosmocine, brasileira. A parceria entre as duas nasceu de uma conexão quase acidental. “Uma das cofundadoras da Discordia me seguia no Instagram, e eu mandei uma DM do nada”, conta Lina. Foi a produtora que sugeriu o nome da diretora de fotografia Gemma Doll-Grossman, com quem Lina se encontrou pela primeira vez num jantar chinês, cercada de livros de fotografia sobre o Brasil das últimas décadas, em busca de referências de composição e cor. Do lado brasileiro, o produtor Tadeu Bijos, à frente da Cosmocine e amigo de faculdade dos fundadores da Discordia, foi essencial para operar como um time local dentro do país.

Encontrar os quatro protagonistas do filme também exigiu método. Um chamado aberto online, que havia funcionado bem no filme anterior de Lina, não deu resultado dessa vez. A virada veio com a pesquisadora Duda Carvalhaes, indicada por Bijos, que apresentou dezenas de possíveis personagens até a diretora fechar os quatro nomes finais. “Falei com cerca de 20 pessoas de uma lista de uns 100 nomes até chegar aos nossos quatro”, explica Lina. O pedido inicial era por diversidade: “eu queria um homem mais velho, alguém que fizesse drag, alguém de uma cover band, alguém que já tivesse visto o ídolo várias vezes e alguém que nunca tivesse visto.”
Assim nasceram Thaisa, integrante de um grupo de carnaval formado só por mulheres inspirado em Beyoncé; Júnnior, fã de Madonna desde antes da internet existir e, ao contrário dos outros três, com condições financeiras para viajar para vê-la fora do país; Netto, figura do ballroom carioca que costura fantasias inspiradas em Gaga para os bailes da cena; e Bruno, que acampou em frente ao Estádio Olímpico Nilton Santos para garantir lugar na Eras Tour. O caso de Netto acabou se impondo como o fio condutor emocional do filme, coroado por um final que a equipe não poderia ter planejado. “Filmamos isso antes de o show da Gaga em Copacabana ser anunciado, mas não consigo imaginar terminar o filme de outro jeito. Isso arredonda perfeitamente a tese do filme e dá a Netto um final feliz, com um gostinho agridoce, que é a realidade, não uma versão adocicada em que parece que o trabalho já terminou.”
Cena de “Come to Brasil”
Divulgação
Por trás da câmera, Lina queria romper com um estereótipo específico. “O estereótipo da fã histérica, gritando. Sinto que garotas, mulheres e fãs queer costumam ser retratados como pessoas insanas e delirantes, e eu queria de fato explorar as histórias delas e as abordagens muito ponderadas e metódicas que adotaram para perseguir o sonho de ver seus ídolos.” Rio de Janeiro entrou no roteiro por razões práticas, já que a Cosmocine é sediada lá, mas também simbólicas: Copacabana é parte central da história da música ao vivo no Brasil. Um mural de Madonna perto do hotel onde Lina ficou hospedada acabou virando cena do filme. “Soube que a visita dela causou um impacto tão grande que, anos depois, existe um mural numa área nobre de Copacabana.”
Para Lina, o Brasil ocupa um lugar único nesse universo. “O Brasil está numa classe à parte, que é basicamente a tese do filme. A ideia de que a Beyoncé não se apresenta no Brasil há 13 anos significa que existe uma geração inteira de fãs que nunca teve a chance sequer de tentar vê-la no próprio país.” O que mais surpreendeu a diretora, no entanto, foi a ausência de raiva nos depoimentos. “Eu esperava mais raiva ou frustração, mas muitos fãs pareciam realmente acreditar ou entender as razões e desculpas dadas pelos artistas.”
Por trás da brincadeira que deu nome ao filme existe também uma conta que não fecha. O Brasil tem cerca de 220 milhões de habitantes e mais de 30 milhões de assinantes pagos de streaming de música, além de figurar entre os cinco países do mundo que mais criam e compartilham playlists, segundo dados do Spotify. Mesmo assim, seguem sendo raras as grandes turnês internacionais que passam pelo país. É esse descompasso, e a criatividade que os fãs brasileiros desenvolveram para tentar reverter isso, que atravessa o documentário do início ao fim.
O filme foi rodado ao longo de apenas quatro dias, depois de meses de preparação, e passou por um processo de edição que se estendeu por cerca de um ano ao lado da montadora Dri Sommer, brasileira, responsável também pela tradução do material. “Filmamos por quatro dias inteiros, mais um dia extra para o show da Gaga, além das entrevistas remotas com especialistas, o que deixou umas 35 horas de material que destilamos em 22 minutos”, conta a diretora. “Essa proporção é, honestamente, insana.” Para dar forma visual a uma cultura de fãs que, em grande parte, acontece online, a equipe recorreu a uma interface no estilo de um MacBook, projetada por Noah Greene, que reproduz a experiência de navegar por abas e notificações em disparada. Nessas sequências, especialistas entram em cena por chamadas de vídeo, um recurso pensado para incorporar vozes que não puderam ser filmadas pessoalmente. O restante do filme se apoia em cenas do cotidiano dos personagens e em pequenos retratos encenados de cada um emulando seu ídolo, como Júnnior posando à la “Vogue” e Bruno exibindo suas pulseirinhas de amizade, embalados por uma trilha ambiente do compositor Peter Colombo.
Foi justamente o anúncio do show de Gaga em Copacabana, feito depois que as filmagens já haviam começado, que deu ao filme seu desfecho. A equipe não pôde levar toda a estrutura de produção para o meio dos 2,5 milhões de pessoas na praia, então recorreu a um segundo operador filmando com iPhone, o que garantiu a proximidade com Netto e seus amigos em meio à multidão. Para Lina, é essa a cena que resume o que o documentário quer dizer sobre fandom: Netto passando de mais uma entre milhões de pessoas na areia para dançar com uma única amiga numa pista que parece quase onírica, embora fosse, na prática, só o início de uma noite de baile eletrônico. “É a cena que sempre me arranca uma lágrima quando ouço a fala final dela”, diz a diretora.
Essa fala final nasceu quase por acaso, perdida numa entrevista informal e redescoberta só bem mais tarde, durante a montagem ao lado de Dri Sommer. A dupla passou mais de meio ano organizando as mais de 30 horas de material bruto, e foi nesse processo que a equipe entendeu que o filme não era só sobre astros pop e seus fãs. “Era sobre saudade e pertencimento, sobre a forma bonita como os brasileiros criam comunidade em torno de um amor em comum”, resume Sommer, que também assina a tradução do documentário. Para a montadora, a espera retratada no filme carrega ainda outra camada, ligada a uma espécie de síndrome de vira-lata que atravessa conversas cotidianas no Brasil: até que ponto o país ainda precisa da validação de artistas de fora para se sentir visto.
Lina resume o recado que gostaria que o público levasse do filme com uma frase simples: “mesmo que você não seja fã da Gaga ou da Taylor, acho que a paixão por trás dessas pessoas diz respeito a qualquer um. Dá para aplicar isso a qualquer coisa que você ame de verdade.”
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Fonte: Vogue