categoria Comportamento
Data 12 de julho de 2026

Quantas mulheres continuam fazendo sexo quando não sentem mais desejo pelo parceiro? Quantas fingem prazer para não decepcionar o outro? Quantas permanecem em relações insatisfatórias por medo de perder o homem que amam?
Nas minhas pesquisas com mulheres brasileiras, a ausência de sexo sempre foi apontada como um sinal de fracasso, de falta de libido ou de envelhecimento. A nossa cultura transformou o desejo feminino em uma espécie de prova de juventude, beleza e saúde. O “corpo capital”, como chamei o corpo jovem, magro e sensual, acabou se tornando uma das maiores riquezas das mulheres brasileiras.

Em 2007, quando passei alguns meses na Alemanha realizando pesquisas sobre envelhecimento, autonomia e felicidade, uma descoberta me surpreendeu. Nas entrevistas e grupos de discussão que fiz com mulheres entre 50 e 70 anos, muitas delas, inclusive casadas, afirmavam não ter mais vida sexual.
O que mais me chamou atenção não foi a ausência de sexo nos casamentos e fora deles. Foi a maneira como as mulheres falavam sobre isso. De uma forma natural, sem drama nem vitimização. Elas me contaram que o sexo nunca foi o centro de suas vidas amorosas. Valorizavam muito mais a intimidade, a confiança, as conversas e a sensação de companheirismo construída ao longo dos anos.
Naquele momento, eu não compreendi completamente aquela lógica. Eu estudo, pesquiso e vivo em uma cultura em que o sexo ocupa um lugar de destaque na ideia de realização feminina. Desde 1988, início das minhas investigações, escuto que um casamento sem sexo não é casamento. É amizade.
Minha visão começou a mudar quando, na minha pesquisa de pós-doutorado iniciada em 2021, entrevistei mais de 100 brasileiras entre 50 e 70 anos. Mais da metade delas falaram sobre uma espécie de aposentadoria sexual. Algumas atribuíam a ausência de sexo à menopausa. Outras, ao desgaste da relação e à rotina sobrecarregada. Mas uma resposta apareceu com frequência: o maior problema para elas não era a falta de desejo, mas o medo de perder o marido, de não ser mais desejada, de ser traída. Por isso, algumas preferiam “fingir” um prazer que não sentiam mais.
No entanto, encontrei aqui no Brasil, como na Alemanha, mulheres que diziam estar felizes em casamentos sem sexo, como uma psicóloga de 63 anos: “Estou casada há 27 anos. Já fiz muito sexo, antes e durante o meu casamento. Agora prefiro outros prazeres com meu marido. O maior deles? Dar risadas e ficar namorando assistindo a filmes e séries.”
Ela me contou que muitas mulheres chegam ao seu consultório sentindo-se fracassadas por não terem mais vontade de transar com o marido nem com qualquer outro homem. O mais interessante, segundo ela, é que muitas vezes o marido também não quer mais transar, mas a mulher continua carregando a culpa, o medo e até mesmo a vergonha por não existir sexo no casamento.
“O problema não é a falta de tesão. É a crença de que uma mulher saudável precisa ser desejável e desejante até o fim da vida. Elas não estão preocupadas com a falta de desejo, mas com o sentimento de fracasso por não corresponderem a uma representação da mulher normal. É uma ditadura do tesão que aprisiona homens e mulheres”, segundo a psicóloga. Quando o sexo deixa de ser uma escolha e passa a ser uma obrigação, ele deixa de ser uma experiência de prazer e se transforma em uma forma silenciosa de submissão.
Percebi uma mudança muito forte nas minhas pesquisas, iniciadas em 1988. Se antes havia silêncio sobre o desejo feminino, hoje as mulheres falam muito mais abertamente sobre o próprio desejo. Durante muito tempo, a medida da saúde era a frequência sexual e o número de parceiros ao longo da vida. Quantas vezes por semana? Quantos parceiros teve até hoje? Já teve orgasmos múltiplos? Deixou de transar por causa da menopausa?
Minhas pesquisas revelam que muitas mulheres estão cansadas dessa contabilidade do desejo. Elas querem intimidade, cumplicidade, risadas, com ou sem sexo. Querem uma relação em que possam ser inteiras, sem ficarem preocupadas com performances e cobranças culturais.
Aos 73 anos, Rita Lee disse uma frase que nunca esqueci: “Velho não quer trepar, velho quer ter tesão na alma.” Para ela, o tesão não desaparece, ele simplesmente muda de lugar. O tesão não mora apenas no sexo, mas também na intimidade, no riso, na amizade, na curiosidade e em lugares escondidos que só aprendemos a enxergar e valorizar com a maturidade.
Acredito, como Rita Lee, que na “bela velhice” o tesão não morre. Ele somente deixa de se submeter às pressões culturais que são fortalecidas e reproduzidas, muitas vezes de forma inconsciente, pelas próprias mulheres.

Fonte: Vogue