categoria Comportamento
Data 06 de julho de 2026

A palavra “imensidão” é, sem dúvida, um dos sinônimos mais adequados para descrever a artista, pesquisadora e diretora criativa Nídia Aranha. Não apenas pelo tamanho de seus trabalhos – ela é o nome por trás da direção criativa do álbum Equilibrivm, da cantora Anitta, só para citar um de seus projetos mais recentes – mas também por ser uma mulher que não tem medo de ocupar espaços em prol de transformações sociais. Aos 33 anos, a fluminense pensa no mundo a partir do seu corpo. “O meu trabalho nasce da vontade de subverter protocolos históricos, sociais e simbólicos que, durante muito tempo, tentaram determinar quem poderia existir, como existir e quais imagens esse corpo poderia produzir e induzir. Surge, então, a prospecção de uma nova mitologia a partir do meu corpo”, diz.
Um de seus maiores desafios profissionais, inclusive, foi o processo autoral que originou a série Ordenha 002, trabalho que participou da 13ª Bienal do Mercosul e também a rendeu uma indicação ao Prêmio Pipa 2021, um dos principais prêmios de artes visuais do Brasil. “Neste trabalho, investiguei os desdobramentos estéticos e conceituais de uma lactação autoinduzida em um corpo travesti, confrontando a forma como os corpos trans, historicamente desumanizados por estruturas sociais, clínicas e econômicas, traçam paralelos com corpos fêmeas não humanos inseridos em redes industriais. Foi uma pesquisa muito longa, intensa e extremamente exigente em termos físicos, hormonais e psicológicos, mas também foi um projeto que me lembrou por que escolhi a arte como campo de investigação radical da existência”, explica.

Nídia veste blazer RORO REWIND
Vogue Brasil/ MAR+VIN
Parte da Original Creative Agency desde 2024, com o título de primeira brasileira a fazer parte da incensada agência sediada em Los Angeles que cuida das direções criativas de gigantes do pop como Dua Lipa e Cardi B, Nídia defende a importância de sempre manter o Brasil como centro de suas referências. “Essa é uma conquista coletiva porque é um lembrete de que o Brasil não está correndo atrás do mundo, pelo contrário. É daqui, muitas vezes, que saem novos caminhos para imaginar em termos de intelectualidade, construção narrativa e linguagem visual”, explica. “Claro que, para mim, também foi uma confirmação de que tenho potência e repertório para ocupar um espaço de relevância internacional”, emenda.
Não à toa, em 2024, Nídia integrou a lista das 50 melhores jovens criativas do mundo pelo British Fashion Council e também foi indicada ao Latin American Fashion Awards 2025 na categoria Líder de Impacto de Moda do Ano. O que a faz se destacar, segundo ela, é o compromisso coma entrega, não a espera pelo reconhecimento. “As minhas referências vêm de um estado permanente de observação e da vontade de ocupar o espaço que é meu”, defende. “Para muitas de nós, esse espaço muitas vezes é cerceado, mediado ou permitido, não para quem tem melhores atributos, mas para quem é considerado mais palatável. Então, mais do que buscar destaque, meu foco sempre foi permanecer. Continuar estudando, trabalhando, refinando minha linguagem, fortalecendo minha comunidade e não negociando aquilo que sustenta meu olhar singular”, completa.
Nídia veste blazer e calça FRANCESCA, camisa ANDRÉ LIMA e gravata EMPORIO ARMANI
Vogue Brasil/ MAR+VIN
No mercado da moda, Nídia tem levado sua potente linguagem visual para marcas brasileiras como Francesca, Lenny Niemeyer e Misci, além de contribuir com editoriais em publicações do segmento (é dela, entre outras, a cenografia da capa desta Vogue que comemorou os 30 anos de carreira de Taís Araujo no ano passado) e grandes campanhas publicitárias e apresentações de coleções fora dos padrões tradicionais da indústria. “O desfile, há muito tempo, já não é apenas uma plataforma para mostrar roupa. Ele se tornou um dispositivo narrativo, quase operístico, que combina design, luz, som, vídeo e arquitetura escultural efêmera para construir narrativas visuais capazes de expandir a identidade de uma marca”, comenta a diretora criativa, que dirigiu o último desfile da Misci, marca de Airon Martin, que tomou a Marquês de Sapucaí no último abril. “No meu trabalho, não penso em um cenário como decoração ou pano de fundo. A ideia é transformar desfiles em performances multimídia, penso na cenografia como dramaturgia espacial”, explica.
Nídia veste vestido PENHA MAIA
Vogue Brasil/ MAR+VIN
A marcante assinatura da artista, natural de Itaguaí (RJ) e egressa do programa de fundamentação em artes visuais da EAV Parque Lage e, posteriormente, do curso de design de produto e comunicação visual (UFRJ), também se espraia para o universo musical: Nídia já foi responsável por direções criativas de shows nos principais festivais do mundo, como Coachella, Lollapalooza, Primavera Sound e Rock in Rio; trabalhou com artistas como Djavan, Erykah Badu, Gloria Groove, Iza, Pabllo Vittar e, mais recentemente, de novo, com Anitta. “Meu trabalho poderia ter seguido um caminho muito mais íntimo, autoral e talvez restrito aos circuitos mais tradicionais da arte contemporânea, mas fiz uma escolha consciente de estar em lugares de grande alcance sem abrir mão da profundidade daquilo em que acredito”, justifica. “Me interessa levar questões simbólicas e sensíveis para lugares onde, muitas vezes, a velocidade da indústria pode acabar atropelando a essência e o tempo do processo”, pondera.
Nídia veste camisa RORO REWIND e calça DOD ALFAIATARIA
Vogue Brasil/ MAR+VIN
Com Anitta, a quem ela sempre se refere como Larissa, nome de nascimento da cantora, esse processo foi íntimo e transformador. Nídia conta que o convite para assumir a direção criativa de Equilibrivm veio em novembro passado, durante o Global Citizen Festival em Belém do Pará. “Ao longo das nossas conversas, fui conhecendo mais profundamente sua essência, sua trajetória, suas provações e suas vitórias”, recorda. “Encontrei muita poesia nessa mulher que se expressa com tanta força e carrega uma fé intensa, mas que, ao mesmo tempo, transborda alegria, prazer e celebração para todos ao redor. Essa dualidade que ela sustenta me tocou profundamente e acabou sendo um dos pilares conceituais do projeto”, complementa.
“Equilibrivm nasce justamente desse encontro entre o sagrado e o humano. É um projeto íntimo, quase confessional, construído dentro da casa da Larissa, ao lado de produtores, compositores e artistas reunidos em uma egrégora muito potente.” O álbum, segue Nídia, “foi também um trabalho que expandiu meu lugar de atuação para além da imagem, me permitindo participar da construção musical. Foi muito especial para mim”, diz.
Independente de qual frente em que Nídia atue, ela conta que tem, acima de tudo, uma preocupação genuína com o futuro da imagem. “Nunca vivemos um momento com tantas imagens descartáveis como agora, onde o gesto mais automático talvez seja deslizar o dedo para cima em uma tela”, reflete. “Uma imagem aparece, provoca alguns segundos de estímulo, dispara alguma resposta dopamínica e logo desaparece. Na sequência, vem outra. E outra. E outra.”
Mas Nídia gosta de ir no contrafluxo da produção em massa de imagens passageiras do ambiente digital. “E não estou aqui fazendo uma ‘passeata contra a guitarra elétrica’. Sou completamente aberta aos novos meios de produção, à inteligência artificial, e às novas tecnologias de geração e manipulação de imagem”, confessa. “Aliás, a imagem não apenas representa o mundo. Ela constrói comportamento, organiza desejo, determina pertencimento, molda memória coletiva, regula corpos, distribui poder e, muitas vezes, define até quem merece ser visto. Por isso, pensar imagem hoje, para mim, é pensar cultura, política, subjetividade e futuro”, finaliza.
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Fonte: Vogue