categoria Comportamento
Data 14 de julho de 2026

“Estou cansada, esqueço palavras, perdi a paciência.” “Menopausa, morte dos meus pais, ansiedade… Não me reconheço mais e sinto falta de quem eu costumava ser.” “Parece que meu corpo não me representa mais.” Essas são algumas frases que encontrei em fóruns e comunidades que reunem mulheres da geração X (entre 46 e 61 anos). Em diferentes versões, elas aparecem também em conversas que tenho com amigas da mesma idade. Parecem familiares para você?
Nos consultórios médicos e nas sessões de terapia não é diferente. O tema tem se tornando o centro das consultas. Para os especialistas, “Eu não me reconheço mais” é uma maneira de traduzir um estado mental, e não apenas o que se vê no reflexo do espelho. “Há duas camadas se sobrepondo ao mesmo tempo, e é justamente isso que torna esse período tão intenso”, explica o médico nutrólogo Gabriel Azevedo, com atuação em medicina funcional e regenerativa. Segundo ele, a primeira camada é biológica. “A perimenopausa não significa apenas o corpo se preparando para deixar de menstruar. É uma reorganização profunda do cérebro. O estrogênio participa da regulação da serotonina, da dopamina, da memória, do sono e da plasticidade neuronal. Quando esses hormônios começam a oscilar, surgem a névoa mental, a dificuldade para encontrar palavras, a irritabilidade e a ansiedade.”

A segunda camada é a vida acontecendo ao mesmo tempo. “Muitas dessas mulheres pertencem à chamada geração sanduíche. Ainda ajudam os filhos enquanto começam a cuidar dos pais. Somam-se a isso uma carreira consolidada, um casamento, uma casa. São muitos papéis desempenhados simultaneamente. E é aqui que nasce grande parte da sensação de perda de identidade. A mulher não se perdeu de si. Ela está cansada demais para conseguir se encontrar”, diz o especialista.
Segundo um relatório da OECD (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) publicado em 2025, entre os chamados sandwich caregivers (quem cuida simultaneamente de filhos e adultos dependentes), 62% são mulheres. Outro levantamento, da Pew Research Center, mostra que 42% das pessoas que vivem essa dupla responsabilidade são da geração X. É muita coisa ao mesmo tempo. E tudo isso acontecendo com uma mulher que está vivendo uma revolução hormonal.
A psicóloga Maria Klien observa que essa exaustão mental costuma aparecer justamente depois de décadas olhando quase exclusivamente para fora. “A geração X foi educada para ser forte, competente e dar conta de tudo. Só que ninguém deixou de ser mãe, esposa, filha ou cuidadora para construir uma carreira. As responsabilidades não se substituíram. Elas se acumularam.” Ela chama atenção para um detalhe importante: “Quando perguntamos a uma mulher quem ela é, quase sempre ela responde pelos papéis que ocupa. ‘Sou mãe’, ‘sou diretora’, ‘sou esposa’. Raramente fala de si a partir da própria essência. Sua identidade foi construída em torno das funções que exerceu, e não de quem ela é”.
É por isso que o esgotamento vai muito além da fadiga física. “Esse cansaço nasce também do esforço contínuo de sustentar versões de si mesma que talvez já não correspondam à mulher que existe hoje”, diz Maria.
A liberdade também exige um luto
Existe um paradoxo curioso nessa fase da vida. Em teoria, ela reúne características que poderiam torná-la uma das etapas mais livres: há experiência, segurança profissional, maior independência emocional e, muitas vezes, menos necessidade de aprovação. Só que, na prática, muitas mulheres vivem justamente o oposto. “A sobrecarga de funções se soma às alterações fisiológicas e acaba deixando tudo mais confuso”, explica Gabriel Azevedo.
Para Maria Klien, existe também uma dimensão simbólica. “Toda liberdade exige um luto.” O encerramento da vida reprodutiva, os filhos que crescem, os sonhos que não aconteceram exatamente como imaginado, o envelhecimento dos pais e a despedida da própria juventude são mudanças que acontecem sem que se tenha tempo para pensar sobre elas. “Vivemos numa cultura que celebra a entrada na vida adulta, mas quase não oferece rituais para honrar a passagem rumo à maturidade.”
E as camadas de complexidade não param por aí. A maturidade feminina reúne, ao mesmo tempo, potência e questionamentos, como pontua o psiquiatra Diogo Lara, PhD em Neurociências. “É um momento em que a produtividade costuma estar muito alta, porque existe experiência acumulada. Mas, também, pode surgir uma perda do senso de crescimento e novidade no trabalho. O mesmo acontece com relacionamentos longos e com a percepção das mudanças no corpo e na aparência.”
A resposta instintiva de muitas mulheres diante desse desconforto costuma ser preencher ainda mais a agenda. Outro curso. Mais produtividade. Mais metas. Mais autocobrança. Para sair desse looping que leva à exaustão física e mental, além da sensação de não reconhecimento, os especialistas defendem parar e olhar para dentro. Investigar alterações hormonais, deficiência de vitaminas, distúrbios do sono e outras condições clínicas faz parte desse cuidado. Em muitos casos, a terapia hormonal, quando bem indicada, também pode aliviar sintomas importantes da transição menopausal. Mas o corpo é apenas uma parte da história.
Esse período pede algo que muitas mulheres passaram anos adiando: um encontro verdadeiro consigo mesmas. “Há um valor especial nas atividades que não têm como finalidade produzir, performar ou agradar. Escrever, caminhar, estar na natureza, fazer terapia, cultivar amizades ou aprender uma atividade manual são experiências que restauram a conexão com a própria identidade”, diz Maria Klien. O psiquiatra Diogo Lara faz uma recomendação semelhante. Longas caminhadas, meditação, leitura e outras atividades que favoreçam a introspecção ajudam a reorganizar a mente. E faz um alerta para o excesso de redes sociais, que tendem a amplificar comparações e expectativas irreais justamente em um período de maior vulnerabilidade emocional.
Há uma imagem, na psicologia, usada para sintetizar a mente da mulher nessa fase: a de um lobo que se perde na floresta. De fora, ele parece desnorteado. Corre em círculos, fareja o chão, morde o ar. Mas não enlouqueceu. Está apenas recolhendo informações para encontrar um novo caminho. Maria Klein acredita que algo parecido acontece com muitas mulheres nessa etapa da vida. “A maioria não está perdida. Está reunindo elementos para reencontrar a própria bússola”, diz. “O verdadeiro reencontro não está em voltar a ser quem se era aos 20 anos. O convite é muito maior: tornar-se, enfim, quem sempre se foi.”

Fonte: Vogue