Comportamento
18 de junho de 2026
O brasileiro Jorge Dorsinville vive em NY há 15 anos. E antes do trabalho, como acontece com muitos, o que motivou sua mudança de Salvador para cá foi o amor. Casado com um canadense e pai de uma menina, Jorge, de 39 anos, tem conquistado o mundo com uma profissão ainda pouco conhecida: ele é diretor criativo de movimento, responsável por transformar as expressões do corpo em comunicação e imagens memoráveis. Foi aqui em Manhattan que eu me encontrei em um café com ele para saber mais sobre essa trajetória, dias antes do desfile que celebrou a colaboração de Stella McCartney com a H&M (cuja direção foi assinada por Jorge).
O brasileiro Jorge Dorsinville
Acervo Pessoal
Com o início da Copa do Mundo, o baiano celebra um trabalho que vai ficar na história da sua trajetória: foi ele quem dirigiu os movimentos das fotos da exposição “Futbol 2026”, clicadas por Annie Leibovitz e em exibição no Museu Nacional de Antropologia e História da Cidade do México. A iniciativa reúne mais de 130 imagens, entre as inéditas com Kylian Mbappé e outras históricas dos cartazes criados pela fotógrafa para a Copa do Mundo de 1986. “O que me emocionou nesse processo foi perceber que conseguimos retratar esses atletas de uma forma nunca vista, trazendo uma abordagem quase coreográfica, por vezes próxima do balé, onde o corpo do jogador deixa de ser apenas potência e passa a ser também poesia, narrativa, emoção”, conta Jorge.
Imagem da exposição “Futbol 2026”
Annie Leibovitz/Divulgação
Nascido em Cosme de Farias, na região periférica de Salvador, Jorge teve que enfrentar o preconceito sofrido por conta da paixão pela dança e pelo movimento. O amor nem sempre foi aceito pelos vizinhos e amigos, mas ele decidiu seguir o sonho: formou-se em um curso profissionalizante na Escola de Dança da Fundação Cultural do Estado da Bahia e estudou balé no Teatro Castro Alves. Ator, coreógrafo e dançarino, trabalhou com Daniela Mercury e Elba Ramalho e, quando decidiu se mudar para NY com o marido, que conheceu no Facebook, enfrentou a dificuldade da língua e da profissão em terras estrangeiras. Aqui nos Estados Unidos, começou trabalhando como assistente de produção em editoriais e campanhas e foi observando o dia a dia no set, onde identificou uma oportunidade de mercado que ainda não existia. Surgia ali a profissão de diretor criativo de movimento.
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Com o passar dos anos, Jorge começou a chamar a atenção de nomes como Glen Luchford e da própria Annie, com trabalhos de direção de campanhas com Brooke Shields e a recente colaboração com Stella McCartney. Se preparando para lançar um livro de romance (que será publicado em português e inglês, uma história que se passa na Floresta Amazônica e fala sobre as dores e os desafios da sua própria trajetória, com temas que passam por bullying, abuso e exclusão), Jorge não dirige apenas dança e movimento: ele participa da concepção de momentos que traduzem emoção e mensagem. Mas afinal, o que faz um diretor criativo de movimento? No papo comigo, ele explica e relembra um pouco dessa história inspiradora.
Ucha: O movimento e a dança sempre estiveram presentes na sua vida?
Jorge: Sim, apesar de ter uma história muito grande de bullying e rejeição. Nasci em Cosme de Farias, região que hoje é tomada pelo crime em Salvador, e sempre fui um menino apaixonado por movimento, desde criança. Eu dançava na rua e minha família não era conectada em arte. Então, eu saía de casa às 7h da manhã e ficava olhando o movimento das pessoas na rua. O movimento, que está me levando para todos esses lugares incríveis, também faz lembrar de acreditarmos em nós mesmos, no nosso talento e na nossa voz e em saber que a gente é bom em qualquer lugar do mundo.
Jorge na infância
Acervo Pessoal
Como você começou nessa profissão?
Quando cheguei em NY, há 15 anos, foi muito difícil conseguir um trabalho com o que eu fazia. Então comecei trabalhando nos editoriais como assistente de produção. E eu observava como tudo funcionava. Aí eu percebi que tinha uma coisa que eu poderia contribuir, com meu background de teatro e de dança. É como se eu fosse o tradutor entre o fotógrafo, o maquiador e o stylist. Você precisa encontrar qual é o diálogo, a assinatura, o vocabulário corporal que pertence a cada história. E, claro, como você retrata tudo isso por meio do corpo.
E o que faz, de fato, um diretor criativo de movimento?
Hoje em dia eu faço muito mais a direção criativa de movimento do que a direção de movimento. E existe uma diferença. Como diretor de movimento você chega e dirige a modelo, a linguagem corporal dela, os movimentos. Os fotógrafos e o stylists fazem isso muito bem, mas começaram a entender que precisavam de algo novo a cada história. É aí que o diretor criativo de movimento entra e ajuda em toda uma concepção da história, além da direção do movimento em cena. O diretor criativo de movimento entra como um elemento de criação, antes do projeto acontecer. Na colaboração da Stella McCartney com a H&M, por exemplo, eu me inspirei em Soul Train, Studio54, e criei três concept board de coreografias.
Você desenvolveu um método próprio?
Meu método se chama body telling, que é uma forma de contar histórias através do corpo. Tento conceber um formato para cada artista que vou trabalhar, para cada marca, para cada história, mas sempre seguindo o body telling. Adoro fazer uma metáfora do meu trabalho com a gastronomia, sempre digo: It’s a body telling method with a cooking live situation going on (“é um método de história corporação com uma situação de cozinha acontecendo”). Penso o trabalho do movimento como se houvessem condimentos, e esses condimentos vem do próprio corpo: os dedos, os braços, tudo. O momento do set é um negócio tão mágico e maravilhoso que às vezes tudo que você planeja pode não dar certo. E aí, eu como o chef dessa cozinha e com a receita do body telling, tenho que me adaptar. Porque no fim é um trabalho vivo, e se não está dando certo, em segundos você tem que surgir com uma, duas ou três ideias novas para o time que está trabalhando.
Um dos trabalhos de Jorge com a Jean Paul Gaultier
Reprodução
E como é um dia de set com você?
Normalmente eu faço um aquecimento com a pessoa que será fotografada ou filmada, e esse aquecimento é totalmente estratégico para que eu conheça aquele corpo, para que eu conheça os vícios, as manias, os trejeitos. A ideia não é modificar a celebridade ou modelo, mas converter sua essência em movimento. Também é preciso olhar e respeitar o figurino, a roupa, a luz, a cenografia para entender como tudo irá acontecer. Meu trabalho é trazer a comunicação. Às vezes está tudo maravilhoso mas o corpo não está ali. E é aí que eu entro, para trazer essa presença por meio do movimento.
Onde você busca suas referências?
O movimento tem que ser estratégico para enaltecer um produto e seduzir as pessoas. Trago comigo toda a minha bagagem de coreógrafo, das danças técnicas. Então penso muito em Isadora Duncan, Merce Cunningham, Alvin Ailey, e em danças africanas asiáticas ou japonesas, como butô. E claro, a capoeira, do nosso Brasil, que tem tanta riqueza, tanta identidade.
Como surgiu o convite para o projeto com a Annie Leibovitz e os atletas da Copa?
Do nada, recebi uma ligação da minha agente que me contou que a equipe da Annie pediu um diretor de movimento, algo que ela nunca tinha trabalhado. Ela pediu para me encontrar e eu fiquei nervoso, não respondi a mensagem dela de primeira. O trabalho foi fotografado no início de abril e viajamos para os três países da Copa: México, Canadá e Estados Unidos. Tudo que fizemos virou um livro e uma exposição no México. Fazer isso foi como uma turnê que durou duas semanas e meia, fotografando das 7h às 20h. Foi ela inclusive que fotografou uma campanha global da Copa em 1986, no México. Foi como criar um balé de futebol!
Jorge Dorsinville
Acervo Pessoal
Hoje existe algum tipo de faculdade ou curso para essa profissão?
Ainda não. Mas está nos meus planos criar uma escola ou curso sobre essa profissão. Porque você sabe, é mais que simplesmente falar como a pessoa se movimenta, é sobre como ela se expressa e comunica a partir do corpo. Comecei fazendo o que faço com a Daniela Mercury e a Elba Ramalho sem nem saber como isso se chamava…
Quais suas outras paixões além da dança?
Sempre gostei de moda e tenho uma relação muito grande com arquitetura. É impressionante como o movimento e a dança, ao mesmo tempo em que não têm nada a ver, tem tudo a ver. Resumo meu trabalho em duas palavras: arquitetura e escultura. Eu faço coreografia, eu faço movimento, mas no final de tudo, o meu olhar está para o que o espectador ou o cliente vão sentir. Pense na própria arquitetura, por exemplo: como o arquiteto não tem uma relação com psicologia? Ele está construindo o lugar onde a alma vai residir. É comportamento. Então meu trabalho também acaba passando por psicologia, artes e comportamento, no geral.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Vogue
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