Conexão
24 de setembro de 2026
Em algum momento, há cerca de três anos, uma frase de livro bastou para desarmar Johnny Massaro: bem antes de virar a primeira página, o título já tinha explicado nele algo que ele ainda não sabia nomear. De lá para cá, confiar no que o desconforta virou hábito. Foi esse mesmo impulso de abraçar o risco que o fez, ainda adolescente, recalcular os rumos para priorizar o cinema, e é ele que o aterrissa agora, aos 34 anos, no primeiro monólogo da carreira: A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão, em cartaz no Sesc Pinheiros a partir desta quinta-feira (24.09) até 31 de outubro.
O espetáculo ganhou vida a partir de uma mensagem despretensiosa que ele mandou pelo Instagram para a psicanalista Ana Suy, autora da obra que batiza a peça, sem conhecê-la. “O que o título propõe em termos de imagem, de ideia, me soava muito reconhecível nas minhas experiências de amor. Era sempre um gesto no sentido de amor, mas que eu mesmo me frustrava na própria ação”, conta em conversa com Vogue Brasil. “E aí percebi que talvez tivesse muito mais a ver comigo mesmo do que com o outro. Geralmente estava culpabilizando o outro por não conhecer os meus desejos, ou por não saber falar sobre eles, ou por esperar demais, por não lidar com as minhas próprias expectativas.”
O ator relembrou que a leitura aconteceu num momento delicado de relacionamento, período em que se deparou com conceitos marcantes da obra sobre o desamparo humano. “A fragilidade do bebê humano é tamanha que, se não tivéssemos alguma espécie de amor nesse primeiro momento, seria impossível continuarmos vivos”, pondera. Massaro, então, decidiu que precisava aprender alguma coisa daquele livro, e que aprender exige repetição. No palco, isso ganha corpo por meio de um personagem específico: um guia de turismo que se arruma meticulosamente para esperar por um ex-amor, transformando a repetição do teatro em uma metáfora das idas e vindas afetivas. “Você vai querer tocar violão, não adianta fazer duas aulas. Aí pensei: bom, eu não vou ficar lendo esse livro o resto da minha vida. Mas talvez no teatro, através da suposta repetição, porque nunca é a mesma coisa: acordamos todo dia, e não acordamos todo jeito no mesmo dia.”
O passeio ao qual o personagem convida o espectador se equilibra entre o humor e o desamparo. Conduzindo uma espécie de excursão sentimental pelo coração humano, paisagem que ele mesmo não domina, o guia lida com a iminência de um término. Diante de um coração gigante e lúdico instalado no cenário, a encenação brinca com a própria ausência. Há sempre uma cadeira desocupada na primeira fila, guardada para o amado que nunca chega, fazendo com que a plateia ocupe esse lugar de testemunha e companheira de viagem.
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Toda essa engrenagem teatral começou a rodar de forma impensada. Antes de terminar a leitura do livro, Johnny mandou a mensagem para Ana Suy. “Com a maior cara de pau, e costumo ser assim quando quero alguma coisa: peço mesmo, porque parto do princípio de que o sim eu já tenho.” Ela respondeu, achou a ideia estranha, e ele também achou. “Mas falei: dane-se, vamos respeitar essa intuição.” Na sequência, chamou o produtor e amigo Pablo Sanábio, que, coincidentemente, também estava lendo o livro na época. “Tomamos aquilo como um sinal, e aqui estamos.”
Johnny Massaro
Hudson Rennan/ Divulgação
O resultado, porém, não é uma resposta pronta sobre o amor, mas uma pergunta em aberto sobre o que ele tem a nos ensinar sobre nós mesmos. Para Johnny, aceitar que cada relação pede um aprendizado novo, porque o que funcionou numa não garante acerto na seguinte, é parte do que sustenta a peça. “Somos constantemente falhos, somos feitos disso. Então não me cobro exatamente esse lugar de não errar, pelo contrário: essa peça é um desejo de errar, porque, quando falamos de amor e de solidão, estamos falando sobre vulnerabilidade. Quando estamos vulneráveis, somos sobre erro, sobre estar nesse lugar.” Segundo o artista, essa disposição vale tanto para o palco quanto para a vida fora dele: “Amar é estudar muito mais sobre errar do que acertar. Viver acaba sendo muito mais sobre errar do que acertar.” Por isso, quando a dramaturga Júlia Portes perguntou o que ele buscava com o projeto, a resposta foi direta: “Quero me sentir vulnerável. Porque, se for com desejo de acertar, acho que vou me foder. É inevitável querer acertar, esse sentimento está aqui. Mas preciso pegar isso, dar uma amassadinha e deixar num canto, porque, senão, a coisa pode não acontecer.”
A mesma lógica explica por que, ainda adolescente, ele interrompeu o modelo regular do ensino médio pela faculdade de cinema, no meio da temporada em que interpretava Fernandinho em “Malhação”. “Não tenho educação formal como ator, porque comecei a trabalhar muito cedo, então nunca consegui parar e estudar atuação. Ali no segundo ano ficou impossível conciliar escola com trabalho. Não queria continuar estudando física, química, coisas que eu não sabia que seriam importantes na prática para mim. Então falei: mãe, quero sair do colégio, mas não quero parar de estudar, quero entrar direto na faculdade.” Fez supletivo, driblou a resistência da escola e entrou no curso de cinema. Nesse novo ambiente universitário, começou a flertar mais frontalmente com a direção, até porque na faculdade de cinema não se aprende nada de atuação. “Quando eu era mais novo já gravava meus primos, meu irmão, fazia clipes. Acho que a direção, junto com a atuação, está ali desde sempre.”
Johnny Massaro
Hudson Rennan/Divulgação
Essa vontade segue rendendo frutos: em outubro, no Festival do Rio, ele apresenta Consolo, curta que dirigiu, escreveu e produziu — o terceiro de sua trajetória atrás das câmeras, selecionado para a Première Brasil do festival. Tanto esse trabalho mais recente quanto o longa A Cozinha (disponível no Globoplay) servem como plataformas para o artista abordar temas profundos de sua própria formação. “Eles flertam com essa ideia de questionar o que é o masculino, bem frontalmente esses dois fazem isso”, explica.
O movimento em direção à cadeira de diretor responde também a um anseio de maior autoria sobre as narrativas que ajuda a colocar no mundo e ao desejo de estar em outro lugar da produção é o que o move. “O ator é uma pauta muito importante do processo, é o corpo que está ali na frente de qualquer coisa. Mas por trás do ator tem um monte de gente, um infinito de pessoas atrás daquela pessoa. Fico com muita vontade de ser também isso, o que está por trás, não somente a ponta visível. Me dá muito tesão ter mais participação em como contar as histórias. O ator chega, sabe, três meses, as pessoas já estão ali fervilhando para a produção. As pessoas continuam depois, o ator foi embora, só vai ver o corte no cinema com todo mundo. A direção me preenche em alguns lugares que o ator não preenche, não vai preencher.”
Enquanto consolida esse lado autoral e intimista, ele também está no elenco de uma das produções brasileiras de maior escala do ano: “O Diário de um Mago”, adaptação da Netflix do best-seller de Paulo Coelho ainda sem data de estreia definida, dirigida por Vicente Amorim, em que interpreta o protagonista Paulo ao lado de Rodrigo Santoro, como o enigmático Petrus. As gravações aconteceram na Espanha, ao longo do Caminho de Santiago de Compostela. “Filmamos três meses na Espanha, mais ou menos no começo do ano”, conta. O convite para encabeçar projetos de peso no streaming chancela o momento em que Massaro cimenta seu nome como uma das principais forças do cenário artístico nacional. O ator colheu recentemente os frutos do sucesso de Emergência Radioativa, também da Netflix. Na minissérie inspirada no trágico desastre do Césio-137 ocorrido em Goiânia, ele deu vida ao físico Márcio em uma atuação elogiada que ajudou a catapultar a obra ao topo das produções mais assistidas da plataforma.
Depois de dividir elenco e créditos em produções desse porte, encarar o palco sozinho é outra conta. Teatro, segundo ele, nunca foi um lugar confortável, e é exatamente por isso que insiste nele. “Entendo que é ali que alguma coisa do ofício do ator pode ser trabalhada de uma maneira mais intensa e profunda.” Sobre encarar o palco sozinho, pela primeira vez: “Sempre gostei muito de ficar sozinho, dessa suposta sensação de superioridade por ser independente, que às vezes sentimos. Estou intuindo que talvez a experiência de estar sozinho no palco seja muito boa, porque tenho um lugar de querer não depender de ninguém. Capricórnio, seis planetas em Capricórnio no mapa e tal”, diz, entre risos. “Ali não vou depender de ninguém, vou depender de mim, que pode ser muito bom, pode ser muito ruim.”
Johnny Massaro
Hudson Rennan/ Divulgação
Durante os ensaios, um episódio ilustrou algo central na peça: tratar de assuntos universais, como o amor e a solidão, também significa aceitar que a forma como estamos, a cada dia, muda como digerimos o mesmo tema. Uma pessoa da equipe, que acompanhava o processo quase todos os dias e sempre se emocionava com a peça, um dia disse que sentiu que ele não estava tão conectado naquela sessão. “Falei: pode ser que eu não estivesse mesmo tão conectado, mas não podemos esquecer como você está hoje. É verdade, é uma relação, uma relação que não tem como não ser uma relação. Quando alguém está em cima de um palco e alguém assistindo, existe uma conexão que depende de quem está aqui e de quem está aqui. Assim como uma relação amorosa.”
Essa conexão com a plateia, ele prefere que aconteça sem exigir participação ativa de quem assiste. “A ideia é que todo mundo comungue junto desse espaço, que é quase a antítese da solidão, porque, mesmo assistindo a uma série sozinho em casa, é possível fazer isso sozinho. Mas no teatro a sensação de solidão é muito mais questionável, porque precisa de seres humanos presentes para a coisa existir.” Para ele, o teatro é ao mesmo tempo a arte mais antiga e a mais atual. “Vem de dois mil anos atrás e chega agora com uma potência de futuro, porque o presente está tão não presente por conta das inteligências artificiais, das redes sociais, que a realidade do teatro, por ser tão concreta, é futuro.”
O figurino da peça também marca uma estreia: é a primeira vez que Sasha Meneghel, conhecida por seus desfiles à frente da Mondepars, trabalha para o teatro. Os dois se cruzavam esporadicamente por amigos em comum, até que, no ano passado, ela foi assistir a Visitando o Senhor Ruim, peça anterior de Johnny. “Senti que ela gostou muito, e trocamos uma ideia sobre isso.” Na hora de montar a equipe do novo espetáculo, o convite veio como aposta: “Já tinha visto que ela fez o show do João (Lucas), mas teatro, nunca. Falei: você acha que topa?” O guia turístico veste peças de alfaiataria da Mondepars combinadas a uma peça de tricot, construídas em conjunto, detalhe por detalhe. “A Sasha tem um pensamento muito da gênese das coisas. A discussão passou até pelo calçado do personagem: será que era um sapato específico, ou um tênis? O guia de turismo precisa de conforto, mas por que está tão arrumado? Porque está esperando alguém. Não é uma visita qualquer: o ex-amor dele falou que vinha, então ele vai se arrumar.”
Johnny Massaro
Divulgação
Perguntado sobre a própria versatilidade, entre atuar, dirigir e escrever, ele responde com uma ressalva. “Hoje em dia sinto que preciso reconhecer uma trajetória, ao mesmo tempo que não posso sentar nessa trajetória e ficar achando que já é isso. Ainda tem muita coisa pela frente.” A mesma inquietação aparece quando fala da relação com o tempo e com metas. “Quando tinha uns vinte e poucos anos, sabia exatamente onde queria estar aos trinta. Quando cheguei lá, falei: cara, cheguei mais ou menos onde eu queria, está tudo certo. E aí pensei: e agora, o que vou fazer? Fiquei angustiado porque não conseguia entender o que queria daqui a dez anos.” A resposta foi deslocar o foco para o cotidiano imediato. “Aí eu relaxei, sabe? Também não vou mais ficar com essa ansiedade tão grande de projetar um futuro. Vou gastar um pouco mais de energia tentando viver o presente, o amanhã, a semana que vem. Fica muito duro se não reconhecemos os nossos avanços, porque eles existem. É reconhecer o privilégio de poder fazer o que se quer, isso nós sabemos, é sucesso. Mas também não achar que já está ganho.”
Serviço
“A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão”
Sesc Pinheiros, Auditório, Rua Paes Leme, 195, Pinheiros
Temporada: 24 de setembro a 31 de outubro, de quinta a sábado, às 20h30, com sessões também às 16h nos dias 9, 16, 17, 24 e 30 de outubro
Ingressos à venda em sescsp.org.br
Duração: 60 minutos | Classificação: 12 anos
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