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29 de agosto de 2026
Ao que tudo indica, a atual obsessão do universo fitness é o calor. Do yoga realizado a 40°C a sessões de mat pilates em salas com infravermelho, as chamadas hot classes são o momento. Na última semana, o Vidya Studio, pioneiro em hot yoga no Brasil, anunciou a ampliação de sua grade com novas modalidades aquecidas na unidade dos Jardins, em São Paulo, com lançamento oficial previsto para outubro e implementação gradual nos demais endereços da rede até novembro. O Gangga Wellness Club, inaugurado em Pinheiros em fevereiro, também lidera o movimento por aqui. Em junho, o clube apresentou aos membros seu catálogo inédito de aulas aquecidas. A carioca The Simple Gym, por sua vez, já comunicou que, em breve, tanto as sedes na Cidade Maravilhosa quanto as futuras unidades paulistanas, com previsão de estreia ainda este ano, terão salas para as modalidades warm. À equação, que confirma o status de hit, somam-se ainda os espaços recém-inaugurados que nascem apostando no calor, caso da Core Haus, que abriu suas portas há pouco mais de um mês, na Vila Nova Conceição.
Apesar do frenesi, a história não começou agora. O yoga, especialmente associado ao método Bikram, ajudou a popularizar os exercícios em ambientes aquecidos nos Estados Unidos a partir dos anos 1990. Nas últimas temporadas, porém, o que fica claro é que o calor deixou de ser uma particularidade do yoga e passou a atravessar diferentes territórios do fitness. Pilates, barre, musculação, HIIT e outras aulas coletivas ganharam versões aquecidas, enquanto os estúdios exploram diferentes temperaturas e tecnologias para levar o termômetro às alturas.
Sala de hot yoga no Vidya Studio
Reprodução/Instagram
Para Carolina Corona, CEO da BEON Studios, a tendência acompanha uma transformação mais ampla na maneira como o exercício é consumido. “Hoje, as pessoas querem encontrar, no mesmo lugar, movimento, bem-estar, conexão e uma experiência sensorial que faça sentido para a sua rotina”, afirma ela em entrevista à Vogue Brasil. A nova grade do Vidya, portanto, reunirá hot sculpt, hot stretch e hot meditation, além do yoga já oferecido pelo estúdio boutique. Se no sculpt o calor acompanha um treinamento de corpo inteiro voltado para força e consciência corporal, no stretch a temperatura entra como aliada do alongamento e o meditation leva a proposta para outro território: meditação guiada, respiração e sound healing. Em comum, as três novidades têm a mesma temperatura, 40°C, e 50 minutos de duração. “Essa é a nossa resposta às diferentes necessidades do consumidor. Há quem busque mais força e intensidade, quem queira trabalhar flexibilidade, mobilidade e recuperação, mas o calor continua sendo nosso fio condutor”, acrescenta Carolina.
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Já no Gangga, as aulas de hot yoga e hot sculpt são realizadas em uma sala mantida em torno de 35°C e aquecida por infravermelho de ondas médias e longas. “Escolhemos essa forma de aquecimento para proporcionar uma experiência diferenciada”, afirma Helena Isaac, fundadora e CEO do clube. “É uma solução muito usada fora do país para potencializar o treino de maneira confortável e saudável”. A diferença, ela resume, está no mecanismo de transferência de calor. Em sistemas convencionais, a temperatura do ar é elevada e circula pelo ambiente; nos painéis de infravermelho, a radiação térmica transfere energia diretamente para corpos e superfícies. A promessa, portanto, é produzir uma sensação mais gradual e uniforme, sem necessariamente transformar o ar em uma espécie de sauna.
Sala do Gangga Wellness Club aquecida com infravermelho
Divulgação
Na recém-inaugurada Core Haus, a temperatura também é mantida em 35°C, com placas de infravermelho de onda longa e um sistema de controle de umidade e troca de ar. “O aquecimento é o nosso DNA”, conta Alice Napoleão, uma das fundadoras do espaço, que, assim como o Gangga, reúne café próprio, área de convivência e estrutura para que as alunas cheguem antes, treinem e queiram permanecer depois.
Mas o que o calor faz, de fato, com o corpo?
O primeiro ponto a esclarecer é também um dos maiores apelos das hot classes: o suor. Em uma sala aquecida, ele certamente aparece em maior quantidade, mas isso não significa necessariamente que o exercício esteja sendo mais intenso ou que o corpo esteja queimando mais calorias. “Suor é um mecanismo de refrigeração, não uma medida de esforço ou de queima de gordura”, explica Ana Laura Bernardes, médica do esporte e triatleta. “O gasto calórico depende da intensidade e da duração do exercício em si, não da quantidade de suor. Entender essa diferença é importante porque a perda de peso imediata após uma aula quente é, em grande parte, resultado da perda de água e será recuperada logo depois da hidratação”, afirma.
Isso não significa, no entanto, que o calor não produza respostas fisiológicas. Pelo contrário: provoca vasodilatação periférica, aumenta a frequência cardíaca e redistribui parte do fluxo sanguíneo para a pele. O organismo passa, então, a trabalhar para manter a temperatura corporal dentro de limites seguros. Além disso, entre os efeitos mais perceptíveis está a sensação de maior flexibilidade. “O calor aumenta a extensibilidade tecidual, facilitando a amplitude de movimento durante a aula”, explica Ana Laura. “É um efeito real, porém transitório”.
A médica ainda faz uma ressalva importante: não há evidências de que realizar o mesmo exercício em um ambiente aquecido seja, por si só, superior a fazê-lo em temperatura normal. “Parte do que se atribui ao calor é ganho de percepção e relaxamento, não superioridade fisiológica do treino”, afirma. Como toda regra tem uma exceção, aqui ela é a aclimatação. Para atletas que precisam competir em ambientes quentes, a exposição progressiva ao calor pode ser utilizada como estratégia de preparação, explica Ana Laura: “Treinada de forma programada, ela pode melhorar o desempenho”. Para o público geral, no entanto, a questão é menos sobre buscar a maior temperatura possível e mais sobre entender como o corpo responde à combinação entre calor e esforço.
Sinais de alerta durante uma hot class
Segundo a médica especialista, quando a produção de calor supera a capacidade do organismo de dissipá-lo, o problema surge. Nesse cenário, podem aparecer desidratação, alterações eletrolíticas, cãibras, exaustão, síncope e, em casos extremos, intermação, uma emergência médica potencialmente grave. O risco aumenta quando a pessoa não está aclimatada, a umidade é alta, não há reposição adequada de líquidos ou quando o praticante ignora os sinais do próprio corpo. Tontura, vertigem, sensação de desmaio, náusea, dor de cabeça, fraqueza desproporcional, cãibras intensas e palpitações são avisos para diminuir a intensidade ou interromper a aula. Desorientação ou alteração de consciência são indícios graves e exigem atendimento médico imediato.
Core Haus
Reprodução/Instagram
Ana Laura orienta que alguns grupos também precisam de avaliação antes de entrar em uma sala aquecida. Gestantes, pessoas com doenças cardiovasculares, hipertensão não controlada, histórico de arritmia ou síncope, diabetes, idosos frágeis e pacientes com condições que afetam a termorregulação, como esclerose múltipla, devem conversar com um médico. O mesmo vale para quem utiliza medicamentos que podem interferir na regulação térmica corpórea ou no equilíbrio hidroeletrolítico. A recomendação mais simples, porém, vale para qualquer aluno: chegar hidratado, não iniciar a aula já debilitado, beber água durante a atividade e respeitar a própria intensidade.
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