categoria Comportamento
Data 26 de junho de 2026

Antes de pintar, Gustavo Nazareno veste manequins com roupas que ele mesmo desenha e costura, ilumina a cena com uma vela ou com uma luminária de dentista que conseguiu arrumar e deixa o boneco parado à sua frente. Só então vai para a tela, riscando e pintando ao mesmo tempo. É desse método que saíram as pinturas e os desenhos a carvão inéditos de “How to Grow a Flower from a Supernova”, individual que ele inaugura nesta quinta-feira (26.06) na Opera Gallery de Paris. A exposição fica em cartaz até 15 de julho e coincide com a semana de alta-costura parisiense, marcada para os dias 7 a 10 de julho. Nas novas telas, o artista posiciona suas figuras diante de um planeta imaginário criado por ele, com clima, luz e habitantes próprios.
O ponto de partida foi a astrofísica, que Nazareno cultivava como hobby antes de levá-la para o ateliê. “Quando passei a estudar como a teoria da relatividade e a teoria das cordas se relacionam com as oralidades das religiões de matriz africana na América Latina, um novo mundo se abriu para mim”, conta o artista à Vogue. Ele descreve a mostra como “um universo que sempre habitei”, onde todos os seus interesses se encontram de maneira sincrética.

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A virada aparece também na cor. Segundo ele, já imaginava orixás como Nanã, Ogum, Iemanjá e Oxaguiã em tons azulados, e foi por essa estética que desenvolveu o guarda-roupa da pombagira que protagoniza a série, concebida como oferenda a Pombagira, entidade feminina do Candomblé, religião que ele pratica. “Elas são minhas modelos. Eu utilizo pombagiras para conseguir mostrar minhas roupas”, diz. Ele conta que sempre admirou modelos “quase da mesma forma que alguém idolatra rockstars” e que encara cada etapa como oferenda, do primeiro estudo à costura da roupa. “O meu tempo é a minha oferenda para todas as entidades que guiam meu trabalho”, afirma.
“Only if Pluto could talk to Neptune”, de Gustavo Nazareno
Divulgação/Everton Ballardin
No seu processo, Nazareno escreve no computador, em blocos e no celular, na academia ou no carro, até um trecho chamar sua atenção. “A escrita me guia para entender como ela me olha, como ela posa e qual movimento faz com as mãos”, diz, sobre a figura que vai pintar. Depois vêm o manequim e a roupa, e é a costura que ele aponta como “a parte favorita do processo”.
Gustavo Nazareno
Divulgação
A roupa é, para ele, uma das principais formas de comunicar presença e postura. O que mais o atrai no Candomblé e nas religiões afro-latinas, diz, é a maneira como a hierarquia se manifesta na roupagem, quando um orixá se mostra presente por meio do cavalo e se prepara para dançar, celebrar e homenagear “aquela passagem rápida que uma entidade faz no seu orí, no seu corpo”. Para Nazareno, “cada parte da roupa importa: a performance, a beleza e a pose”, e o momento se aproxima de um ballroom. “É como um ballroom, uma apresentação, muito mais séria que um desfile de alta-costura, mas com essa mesma essência”, afirma. A relação dele com a moda não passa por estilo. “Não gosto de moda para ser estiloso, mas sim pela filosofia que ela carrega”, explica. Gosta da história do mundo contada pela roupa, de imprimir quem é e de, segundo ele, se curar de certas coisas por meio do processo.
Para o artista, a fé é o ponto de partida de tudo e remonta ao terreiro que foi seu primeiro ateliê em São Paulo. “O meu ateliê é o meu terreiro, minha igreja”, define. Nazareno diz se comunicar com os orixás de uma forma pessoal, por meio da pesquisa e do trabalho, e tem orgulho de ser conhecido por trabalhar com Exu, sem a pretensão de representá-lo. “Entrego o meu esforço, a minha ambição, o meu tempo, as minhas paixões e o meu sangue”, afirma sobre o que dedica a esse processo. Sobre o momento atual, resume sentir que está “apenas no comecinho”.
“Mercury is at rest”, de Gustavo Nazareno, pode ser encontrada na individual “How to Grow a Flower from a Supernova”
Divulgação/Everton Ballardin
Segundo o artista, suas referências circulam entre o controle de sombras de Irving Penn e Caravaggio, as pesquisas de John Galliano, a literatura e os filmes que inspiraram Alexander McQueen, a arte maconde, as poses de grandes modelos e o barroco mineiro. Ele reúne esse material de forma sincrética, “pois eu mesmo sou o resultado desse sincretismo”, e pensa o resultado como um cruzamento entre ballroom e terreiro. “A beleza e a opulência sempre vão me inspirar e me emocionar.”
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Fonte: Vogue