categoria Comportamento
Data 24 de junho de 2026

Alerta de baby boom: praticamente na mesma semana, Anne Hathaway, 43, anunciou que está grávida do terceiro filho, e Sabrina Sato, 45, do segundo. A gravidez depois dos 40 anos, veja só, deixou de causar espanto. O que antes era raro, hoje faz parte de um cenário mais comum: mulheres engravidando mais tarde por escolha própria, por circunstâncias da vida ou com ajuda da medicina reprodutiva. E isso não aparece apenas nas redes sociais de famosas. Está nas estatísticas, também.
No Brasil, dados do IBGE (Estatísticas do Registro Civil) mostram que o número de nascimentos entre mulheres com mais de 40 anos cresceu de forma consistente nas últimas duas décadas. Em 2018, foram mais de 90 mil nascimentos nesse grupo, número que passou dos 106 mil em 2022. Aliás, é a única faixa etária com crescimento no período mais recente (nas outras, houve queda ou estabilidade). Na comparação de longo prazo, o aumento ultrapassa 80%, o que reflete uma mudança no perfil da maternidade no país.

O mesmo acontece no exterior. Nos Estados Unidos, por exemplo, o CDC (Centers for Disease Control and Prevention) aponta crescimento contínuo nas taxas de natalidade entre mulheres acima dos 40 ao longo das últimas décadas, tendência também observada em países europeus, segundo a Eurostat, órgão de estatísticas da União Europeia.
Mas, como explicam especialistas, esse aumento não significa que a fertilidade tenha acompanhado a mesma curva. “O aumento do número de gestações depois dos 40 anos se deve tanto a fatores sociais e comportamentais como aos avanços da medicina reprodutiva”, explica o ginecologista Igor Padovesi, especialista em menopausa. Ele lembra que a maternidade foi sendo postergada por escolhas relacionadas à carreira, estabilidade financeira e novos acordos afetivos. “Hoje também é mais comum divórcios e novos relacionamentos após os 40, o que pode levar ao desejo de uma nova gestação”, afirma. Ao mesmo tempo, ele reforça um ponto central: “Apesar disso, não mudou nada em relação ao impacto biológico. Depois dos 40, a fertilidade da mulher é muito menor do que aos 20 ou 30. Esse declínio começa a partir dos 30, acelera após os 35 e despenca depois dos 40”.
Essa combinação entre mudanças sociais e avanço da medicina reprodutiva ajuda a explicar o cenário atual. O congelamento de óvulos e a fertilização in vitro com óvulos doados ampliaram possibilidades que antes não existiam. Ainda assim, como ressalta o médico, isso nem sempre é evidente no discurso público. “Muitas mulheres não compartilham que recorreram a óvulos de doadoras, o que pode criar a falsa impressão de que engravidar tardiamente ficou mais fácil do que realmente é”, diz o dr. Padovesi.
A ginecologista obstetra Ana Paula Fabrício observa que essa mudança também está profundamente ligada ao comportamento feminino contemporâneo. “As mulheres hoje priorizam o sucesso profissional, a carreira, a estabilidade financeira e só depois a maternidade. Antes era o contrário”, afirma. Ela explica que os avanços da medicina tornaram a maternidade madura mais segura e previsível, com melhor controle de doenças crônicas, exames mais precisos e acompanhamento pré-natal mais estruturado. “O congelamento de óvulos também ajudou muito nesse processo”, diz.
Mas essa ampliação de possibilidades não altera o ponto de partida biológico. O ginecologista obstetra Rodrigo Rosa, especialista em reprodução humana, chama atenção para esse descompasso entre percepção e realidade. “As mulheres não estão ficando mais férteis. A fertilidade é a mesma de décadas atrás. O ápice continua entre os 20 e 30 anos”, reforça. Segundo ele, após os 40, a queda é importante e o risco de infertilidade cresce de forma significativa. Ele cita dados que ajudam a dimensionar esse cenário: “Aos 40 anos, cerca de um terço das mulheres pode não conseguir engravidar e, aos 42, esse número pode chegar perto de metade”.
O que mudou na medicina — e o que continua igual
Hoje, como explicam os especialistas, o pré-natal é mais preciso, a medicina fetal evoluiu, os exames de rastreamento genético ficaram mais sensíveis e o acompanhamento de condições como hipertensão, diabetes, doenças da tireoide e distúrbios autoimunes é mais rigoroso. “Melhoramos muito o cuidado pré-natal e o diagnóstico de doenças que podem complicar a gestação”, afirma o dr. Igor Padovesi. “Mas isso não rejuvenesce os óvulos”. A realidade é que a medicina consegue reduzir riscos e ampliar segurança, mas não reverte o envelhecimento reprodutivo.
Quando a gestação acontece nessa fase da vida, ela exige cuidado redobrado. “A mulher deve fazer uma avaliação completa antes de engravidar, controlando peso, pressão arterial, glicemia, doenças autoimunes e revisando medicamentos”, explica Padovesi. Ele destaca ainda a importância de um pré-natal considerado de alto risco, com rastreio precoce de diabetes gestacional, hipertensão e alterações cromossômicas.
A ginecologista Ana Paula Fabrício reforça: “É fundamental fazer check-up, corrigir deficiências nutricionais como ferro, zinco, vitamina D e B12, e adotar um estilo de vida saudável antes da gestação”, afirma. “O risco de pré-eclâmpsia aumenta, por isso o acompanhamento precisa ser mais rigoroso”, diz. O dr. Rodrigo Rosa acrescenta que o estilo de vida segue como um dos fatores mais determinantes para um bom desfecho da gestação. “Mulheres com alimentação equilibrada, atividade física regular e controle de peso tendem a ter menos complicações, mesmo após os 40”, afirma.
Apesar dos avanços, a gestação tardia ainda carrega riscos aumentados, afirmam os especialistas, especialmente para aborto espontâneo, alterações cromossômicas, como síndrome de Down, além de maior incidência de diabetes gestacional, hipertensão e complicações placentárias. “Quanto maior a idade, maior o risco — e mais criterioso deve ser o acompanhamento”, diz Padovesi.
A maternidade após os 40 anos não é mais uma exceção. Mas, como mostram os dados e os especialistas, a fertilidade feminina tem um tempo biológico próprio, e não dá para fugir disso. “Se existe uma decisão que muda completamente o cenário da maternidade tardia é o congelamento de óvulos feito mais cedo”, diz o dr. Padovesi. Para ele, isso, e óvulos de doação, são os fatores capazes de alterar significativamente a probabilidade de sucesso para uma gestação tardia.

Fonte: Vogue