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Data 02 de setembro de 2026

Há vinte anos, Grace Passô escrevia, dirigia e encenava Amores Surdos. A peça já carregava algumas das marcas que definem seu trabalho: a intimidade das famílias, os silêncios de uma casa, os corpos em suspensão e tudo aquilo que permanece escondido entre quatro paredes. Duas décadas depois, ela volta a esse universo em sua estreia na direção de um longa-metragem. Em Nosso Segredo, que está em cartaz em cinemas selecionados pelo Brasil, uma família tenta reorganizar a vida depois da morte do pai, enquanto cada um encontra uma maneira própria de lidar com a ausência. O que começa como uma história sobre luto aos poucos abre espaço para acontecimentos que fazem o cotidiano escorregar para o fantástico.
“Às vezes acontece, enquanto você faz uma peça de teatro, de se pegar pensando no que ela seria se fosse um filme. O contrário também acontece. Com parcerias sólidas, topei ir além de pensar e experimentar isso concretamente”, disse a diretora em entrevista exclusiva à Vogue Brasil. Mas, da peça para o filme, houve um movimento de reescrita. Afinal, transcorreram vinte anos de lá para cá e, agora, no filme, quis tratar com mais intencionalidade o fato de essa ser uma família negra. A negritude não exatamente como tema, mas como fundamento determinante para os personagens e para a trama”

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Essa escolha marca uma diferença importante em relação à peça. Em Nosso Segredo, a experiência de uma família negra não aparece como uma camada separada da história, mas está incorporada à maneira como aqueles personagens existem no mundo. Grace parte de uma estrutura familiar íntima para observar o que o luto faz com as relações, com a memória e com a própria percepção da realidade.
Suely, Gilson, Guto, Grazi e Tutu ganham vida pelas atuações de Ju Colombo, Robert Frank, Flip, Jéssica Gaspar e Efraim Santos. Depois da morte do pai, cada um parece encontrar uma forma diferente de continuar. Há quem se agarre à rotina, quem procure distrações, quem se feche e quem perceba coisas que os outros não conseguem enxergar. Tutu, o filho mais novo, é justamente quem concentra o segredo que dá título ao filme. “Não vejo mudança dessas abordagens, vejo que continuo pensando coisas parecidas em relação a outras criações. Em termo de mudança, a maior dela é mesmo a linguagem.”
Grace Passô
Divulgação/Nana Moraes
A linguagem do longa nasce desse encontro entre uma realidade muito concreta e aquilo que começa a escapar dela. O filme traz uma pergunta que aparece logo no início, “o que se esquece pelas ruas?”, e a partir dela Grace constrói uma narrativa em que memória e imaginação ocupam o mesmo espaço. “Eu procurei pensar em um realismo cheio de mistérios e encantarias porque, mesmo que de outra forma, a vida real também é assim.”
O mistério não funciona apenas como uma chave para descobrir o que aconteceu. Ele está espalhado pela casa, pelas relações e por aquilo que os personagens não conseguem ou não querem enxergar. Aos poucos, acontecimentos estranhos passam a fazer parte daquele cotidiano sem que o filme precise estabelecer uma fronteira muito clara entre o que é real e o que pertence a outro lugar. “Pra mim é uma pergunta que leva a pensar o que não se quer ou não se consegue enxergar, o que se deixou para trás.”
A casa onde a família vive ajuda a construir essa atmosfera. Em permanente reforma, ela parece carregar também a marca de uma vida interrompida, como se estivesse sempre prestes a ficar pronta e nunca chegasse completamente a esse momento. “Há vários motivos da casa em que essa família mora estar em construção, mas um deles eu sempre cito: muitas de nossas casas, na América Latina, sempre estão em construção enquanto moramos nelas. Essa é uma memória comum entre muitas de nós, viver dentro de um sonho de concreto que ‘um dia’ há de estar totalmente acabado. Além disso, vivi um luto paterno e acredito que inconscientemente isso ajudou a guiar essa escolha.”
Nesse cenário, Grace também recupera uma memória muito particular de Belo Horizonte. Não a cidade dos cartões-postais, mas aquela feita de quintais, montanhas, casas inacabadas e pessoas que atravessam a vida umas das outras. Dona Leda, vivida por Gláucia Vandeveld, é uma dessas figuras. Grace a descreve como “uma mulher que é invasiva mas com muita educação”, e a personagem ajuda a dar ao filme essa sensação de uma vizinhança em que as fronteiras entre a vida de dentro e a vida de fora nunca são completamente definidas. “Carrega memórias íntimas, um tipo de silêncio entre paredes e montanhas, quando havia isso em BH, aliás, típico de Minas, um tipo de quintal e um tipo de gente, como por exemplo Dona Leda, personagem do filme, uma mulher que é invasiva mas com muita educação.”
Essa memória também ajuda a ditar o tempo do filme. Nosso Segredo não tem pressa de explicar seus personagens ou conduzir o espectador de uma revelação à outra. Existe uma escolha deliberada por permanecer nas cenas, observar os rostos, ouvir os silêncios e deixar que determinadas imagens fiquem na tela por mais tempo do que o esperado em uma narrativa convencional. “Cyber-aceleração pode ser uma doença. O lento também é uma qualidade. O que é ruim é não ser excitante. Além disso, este filme propõe um ritmo de decantação.”
A passagem do teatro para o cinema transparece nessa maneira de olhar. Grace constrói personagens que parecem existir para além daquilo que o roteiro revela sobre eles, e o trabalho com o elenco parte de uma experiência que ela conhece muito bem dos dois lados da criação. “Quando acontece de eu exercer as duas funções, escrever me ajuda a maturar os personagens e a ganhar um repertório mais amplo para, posteriormente, dirigir as atuações.”
É mais adiante que o racismo aparece de maneira particularmente concreta. Guto, vivido por Flip, conta uma experiência que teve depois de um acidente. Ao chegar ao hospital, o médico imediatamente presumiu que ele fosse um criminoso que havia sido espancado pela polícia. Guto fala sobre aquilo tomado pela raiva, lembrando a sensação de ter ficado com o episódio entalado, preso na garganta.
É uma cena curta, mas que abre uma dimensão importante do filme. O racismo aparece ali não como um acontecimento isolado, mas como algo que interfere na maneira como aquele corpo é visto e tratado, inclusive em um lugar que deveria representar cuidado. Existe uma insegurança difícil de explicar na ideia de que, dependendo de onde se está, talvez seu corpo seja lido antes de sua história. Não são todos que vão entender essa situação e o sabor com certeza é amargo. Grace não precisou de muito para que o impacto fosse definitivo. Deixa a raiva existir, assim como o silêncio e aquilo que fica entalado.
E o longa tem impressionado por sua tour nos festivais. Depois de sua passagem pela Berlinale, o filme chegou ao Festival de Gramado, onde foi consagrado com três Kikitos: Melhor Filme, Melhor Fotografia (para Wilssa Esser) e Melhor Direção de Arte (para Lucas Osório). A recepção do público revelou uma característica essencial da experiência proposta por Grace: Nosso Segredo continua trabalhando na mente do espectador muito tempo depois que a sessão termina. “Depois de ter feito um curta e um média, é natural querer se aventurar em outro formato, mesmo eu continuando pensando em fazer curtas. Sobre a resposta do público, há de tudo. Mas o que mais me agrada é que é uma criação que impõe respeito e, sinceramente, ela não passa batido, independente do que você sinta, isso permanece por um tempo em você, há quem acorde pensando no filme. Como disse a diretora de fotografia: este filme é um disparador de memórias.”
A escolha de uma família negra se conecta a um debate maior na trajetória da diretora sobre quem ocupa os espaços de criação e quais perspectivas conseguem chegar ao centro do cinema brasileiro. Para Grace, essa presença ultrapassa a ideia de representação, firmando-se como uma necessidade real e uma potência artística urgente. Ela provoca essa reflexão ao questionar os rumos da nossa cultura: “Eu sinceramente sinto que, se determinados grupos sociais não continuarem ocupando ainda mais esses espaços, a tal arte brasileira simplesmente padece. Então, eu acho que estamos num tempo em que está mais nítido que, se pessoas, como por exemplo negras, não ocuparem espaços na dramaturgia e direção, vence o olhar colonial. E aí surge a pergunta para você, que é artista e não é negra ou não esteve à margem: você quer um olhar colonial na sua obra?”
Seu próximo trabalho no cinema também nasce dessa vontade de experimentar: em A Professora de Francês, dirigido por Ricardo Alves Jr., ela interpreta Graça, uma professora particular que vive com a namorada francesa em Belo Horizonte e retorna à casa da infância após uma emergência envolvendo o pai. O filme terá sua estreia mundial no Festival de San Sebastián e passa pelo Festival do Rio, em outubro deste ano. A melhor definição para esse momento da trajetória de Grace talvez se encontre na resposta que ela oferece quando perguntada sobre o que procura ao criar: “Experimentar formas. Compor novas formas com o mundo.”
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Fonte: Vogue