categoria Comportamento
Data 24 de junho de 2026

Por décadas, o futebol foi contado e protagonizado por homens. Foram eles que moldaram a emoção do gol, a memória das Copas e o ritmo das tardes de domingo. Pouco a pouco, e sob resistência, novas vozes começaram a atravessar esse território. Vozes femininas, que não apenas narram partidas, mas reescrevem o próprio lugar das mulheres na cobertura do esporte.
Na Copa do Mundo de 2026, sediada por Canadá, Estados Unidos e México, esse movimento ganha novos contornos. Embora as mulheres estejam cada vez mais presentes na comunicação esportiva, seja como repórteres, comentaristas, apresentadoras, produtoras ou cinegrafistas, a narração ainda segue como um espaço majoritariamente masculino. Entre as grandes transmissoras do torneio, apenas o Grupo Globo conta com narradoras na equipe principal. Outras plataformas, como ESPN e CazéTV, ampliam a participação feminina com comentaristas, mas ainda não avançaram na mesma medida quando o assunto é quem conduz o jogo com a voz.
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A ausência de mulheres na narração esportiva, no entanto, é histórica. Nos anos 1970, um experimento surgiu em São Paulo: a Rádio Mulher. Criada em 1971, a emissora tinha uma proposta radical para a época: uma equipe inteiramente feminina, da locução à operação. À frente das transmissões esportivas, nomes como Zuleide Ranieri e Claudete Troiano desafiaram o imaginário coletivo ao narrar partidas de futebol em um período em que mulheres sequer eram reconhecidas como parte legítima desse universo. O projeto, que também contava com profissionais como Léa Campos, primeira árbitra de futebol do mundo, enfrentou resistência, mas conquistou respeito, inclusive de atletas e dirigentes. Ainda assim, durou apenas até 1976. Era cedo demais para sustentar uma ruptura tão profunda.
Zuleide Ranieri
Arquivo pessoal
Claudete Troiano entrevista Pelé
Museu do Futebol
Décadas depois, nos anos 1990, Luciana Mariano abriria outro caminho ao se tornar a primeira mulher a narrar futebol na televisão brasileira. Em 2024, ela atingiu a marca simbólica de mil jogos narrados, um feito que consolida não apenas sua trajetória, mas a persistência de quem precisou legitimar sua presença repetidas vezes.
Nos últimos anos, a mudança começou a ganhar escala. Renata Silveira se tornou um dos rostos mais emblemáticos dessa transformação. Em 2014, foi a primeira mulher a narrar uma Copa do Mundo na Rádio Globo, depois de vencer o concurso “Garota da Voz”. Em 2022, foi a primeira a narrar uma partida de Copa do Mundo na TV aberta brasileira. Agora, em 2026, alcançou mais um marco: tornou-se a primeira brasileira a narrar um jogo de Mundial diretamente do estádio para a televisão aberta, durante a partida entre Bélgica e Egito. Um feito que, para além do simbolismo, reposiciona o lugar da mulher na linha de frente da cobertura esportiva.
Renata Silveira
Globo
Ainda assim, o caminho está longe de ser justo. “Ninguém critica o homem porque ele é homem, mesmo que não goste da sua narração ou não concorde com o que ele está falando. Já a crítica à mulher é sempre porque ela é mulher. Ponto”, resume a narradora Isabelly Morais, uma das vozes escaladas pelo SporTV para narrar os jogos da Copa deste ano. Em entrevista à Vogue Brasil, ela conta que sua história atravessa não apenas a paixão pelo esporte, mas também o enfrentamento cotidiano do preconceito. Segundo Isabelly, a resistência à narração feminina, muitas vezes, não é explícita, mas estrutural. Está na desconfiança automática, na necessidade constante de provar competência e na cobrança por perfeição.
Formada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ela também fez história, em 2017, ao narrar uma partida de futebol no estado mineiro, tornando-se a primeira mulher a fazê-lo, e isso com apenas 20 anos. Na época, o veículo em que trabalhava, a Rádio Inconfidência, chegou a perder afiliadas que se recusavam a retransmitir uma partida narrada por uma mulher. “Costumo brincar que para cada crítica preconceituosa, narro mais um gol”, diz bem-humorada. E, de fato, é isso o que ela tem feito desde então. No ano seguinte, em 2018, foi uma das três candidatas selecionadas entre 300 participantes para narrar a Copa do Mundo da Rússia. As outras duas escolhidas eram Renata Silveira e Manuela Avena, que hoje atua como narradora na TV do Esporte Clube Bahia.
Isabelly Morais
Globo/Estevam Avellar
Natalia Lara, também parte do time de narradores do SporTV, corrobora: “Estamos sendo analisadas o tempo todo, seja pela voz, pela aparência ou pelo simples fato de estar ali”, comenta. “A melhor forma de responder é narrando”. Para ela, a discussão ultrapassa a técnica e toca em construções culturais profundas. “Emoção não tem gênero, mas fomos ensinados a associar a emoção do futebol à voz masculina”.
Natália Lara
Globo/Estevam Avellar
A profissional, que se formou em Rádio e TV pela Faculdade Cásper Líbero e iniciou sua carreira no jornalismo esportivo estagiando na Rádio Gazeta, ainda aponta para outro aspecto dessa transformação: o poder simbólico da presença: “O jogo continua sendo o protagonista. O que muda, quando uma mulher assume o microfone, é a voz que conduz, que passa a palavra e organiza aquela narrativa. E isso transforma perspectivas”.
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Ao lado delas, novas vozes emergem. Letícia Macedo, revelada pela CazéTV, aos 19 anos, durante a Copa do Mundo feminina de 2023, tornou-se a narradora mais jovem a comandar um jogo do torneio. Hoje, ela segue construindo sua trajetória em plataformas digitais e narra as partidas da Copa 2026 na Flashscore. Letícia faz parte de uma geração que cresce já enxergando possibilidades que antes não existiam. No fundo, o que parece estar em jogo não é apenas quem narra, mas quem tem o direito de contar a história.
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Fonte: Vogue