Comportamento
18 de junho de 2026
Foi mais ou menos há um ano que Kim Petras dava os retoques finais em seu álbum mais recente, Detour, e começava a tocar parte do material para a (ex-)gravadora. A reação não foi exatamente calorosa. Aos seus 30 e poucos anos, Petras já acumulava 15 anos dentro da máquina da indústria musical, encarnando uma série de personas diferentes: o pop bubblegum de olhos arregalados em 2017, o synth-pop gótico de Turn Off the Light (2019), as faixas hipersexualizadas da fase Slut Pop e, claro, a aproximação do sucesso mainstream graças à parceria premiada com o Grammy ao lado de Sam Smith, “Unholy”. (Existe uma piada antiga entre os fãs sobre a quantidade de álbuns “de estreia” que ela já lançou.)
Mas Detour era outra história: uma fusão impactante de EDM industrial, grunge e pop que deixou o time da gravadora de pé atrás. Depois que o projeto foi engavetado, em janeiro Petras criticou publicamente a gravadora e pediu para ser liberada do contrato. Alguns meses depois, ela mesma comprou sua saída e decidiu lançar Detour de forma independente no fim de maio, bancando os custos do próprio bolso. Como deixam claro a faixa-título e abertura do álbum, é o começo de um capítulo totalmente novo para Petras. “Este é o começo do fim”, grita sua voz. “Tudo o que veio antes é só fingimento.”
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Poucos dias depois do lançamento, a euforia inicial de finalmente colocar o disco no mundo já tinha baixado, e Petras refletia sobre o que enfrentou para chegar até ali. “Foi um ano de negociações, de luta, de não receber uma resposta clara, de acreditar muito nessa música e não querer mudá-la”, conta Petras por Zoom, de casa, em Los Angeles, seguido de um suspiro. “Acho que nos últimos dois dias teve um pouco de luto misturado com a empolgação. Tipo… ai, droga, foi um ano em que eu não acordava animada de verdade de manhã, e não podia contar para os meus amigos, que estão tão orgulhosos disso, quando ia sair. Tudo era tão incerto.”
Então, quando finalmente recebeu o sinal verde para lançar, no começo de maio, ela foi com tudo. “A gente simplesmente decidiu: ‘Tá, a data mais próxima possível pra lançar isso é quando eu vou lançar.'”
Não é difícil entender por que Petras estava tão ansiosa para o álbum ver a luz do dia: Detour é, de forma um tanto notável diante das circunstâncias, seu trabalho mais consistente e bem realizado. Tem o eletrizante single de lançamento “Polo”, em que ela ruge com fúria justa contra as cobras da indústria (“jacarés pra todo lado”) que querem moldar sua imagem, sobre sintetizadores serrados e ruídos no estilo SOPHIE. Tem a linda “Jeep”, uma balada de pegada country que lamenta um relacionamento tóxico e a sensação de ser uma estranha nos Estados Unidos. Tem a caótica e ensurdecedora faixa de electroclash “101”, um hino deliciosamente cheio de si em que ela crava seu status de artista pop “única no mundo” sobre uma linha de baixo suja e distorcida e batidas de parque de diversões. É como uma faixa perdida de The Sweet Escape, da Gwen Stefani, só que na metanfetamina.
A mais marcante de todas, talvez, seja a faixa “Brutalist”, um relato autobiográfico das longas viagens de carro que ela fazia com o pai arquiteto durante a infância numa cidadezinha da Alemanha, rumo a clínicas distantes e especialistas que pudessem ajudar em sua transição de gênero. Pai e filha se conectavam pelo amor compartilhado por uma agência dos correios em estilo brutalista por que costumavam passar. Anos depois, Petras voltou à cidade e descobriu que o prédio tinha sido demolido, algo que ela transforma, com sagacidade, numa metáfora dolorosamente simples para sua identidade trans. Ao lado de outras tantas faixas, a música representa um modo de composição mais vulnerável e, no fim das contas, mais potente para Petras.
“É muito pessoal”, diz ela. “Teve momentos em que fiquei realmente preocupada: nossa, será que as pessoas vão interpretar isso errado? Será que eu tenho um pouco de vergonha de me expor tanto… de mostrar tanto de mim?”
Petras fez Detour com um novo grupo de colaboradores, com destaque para o produtor de pop underground Margo XS, a dupla de hyperpop Frost Children e o cantor e compositor indie Aaron Maine, do Porches. “Sem os meus amigos, isso não teria acontecido”, afirma Petras. Eles se reuniam no estúdio à noite, virando a madrugada compondo. (O caráter sigiloso da empreitada levou o grupo a se apelidar de “a sociedade de Detour”, numa referência a O Senhor dos Anéis.) “Teve muita conversa filosofando sobre música, sobre o que a gente acha que é mau gosto, sobre os anos 2010, aquela aspereza”, lembra Petras. “A gente pensava: ‘Como pegar isso e transformar em algo novo e fresco, em vez de explorar a nostalgia? Como fazer algo que soe como o futuro pra gente?'” Durante o dia, Petras seguia em sessões com produtores pop mais mainstream, “pra agradar a gravadora”.
Kim Petras em brechó em Los Angeles
Acervo Pessoal
No fim, decidiram “bagunçar um pouco as coisas”, indo contra o instinto de buscar a perfeição pop que tinha sido enfiado na cabeça de Petras ao longo dos anos no sistema das grandes gravadoras. Não foi fácil no início (“Sou de Virgem, então sou superperfeccionista”, ela observa), mas logo começou a abraçar tomadas vocais mais cruas, mantendo as pronúncias erradas e os trejeitos de quem fala inglês como segunda língua, em vez de aparar tudo como teria feito antes.
“Ainda me sinto um pouco de fora em LA, mesmo depois de 10 anos morando aqui”, diz ela. “Ainda sinto que às vezes não pego cada detalhe cultural. A gente só achou que tinha algo muito charmoso nisso. Na ideia da menina alemã que chega em LA querendo fazer sucesso, mas ainda tem sotaque, ainda tem dificuldade pra achar o amor e pra equilibrar isso com a sua ética de trabalho ferrenha. E que chega 10 minutos adiantada em tudo, porque eu sou alemã”, acrescenta, rindo.
Foram essas ideias que acabaram inspirando Petras a vestir um conjunto customizado decorado com as estrelas da bandeira europeia na capa do álbum, criado especialmente pelo designer irlandês Timothy Gibbons, uma das metades da marca Gabe Gordon, indicada ao CFDA.
Para construir as demais partes do universo visual de Detour, Petras trabalhou com seu diretor criativo, Eli Sheppard, embora, na parte de moda, ela tenha cuidado quase toda da própria produção. “Eu queria muito fazer isso, porque já estou montando ativamente um arquivo de roupas e looks de coleções pelas quais sou obcecada”, conta. Ela cita algumas das coleções mais icônicas de Marc Jacobs para a Louis Vuitton, como os florais açucarados e as sandálias douradas do verão 2007 e as enfermeiras de Richard Prince do verão 2008, como fixações específicas. (E fixações antigas: ela lembra de correr da escola para casa quando adolescente para assistir aos desfiles no FashionTV, no YouTube.)
O único look novo que ela pediu emprestado foi um vestido jeans da Dsquared2. Fora isso, foi tudo vintage, incluindo várias peças de marcas de shopping esquecidas dos anos 2000 que ela garimpou na Nine Two Five, no centro de Los Angeles.
Se os looks que ela usa nos visuais de Detour não são exatamente o que vestiria para tomar um café gelado de manhã (“meu estilo do dia a dia é muito moletom com zíper e minissaia ou jeans”, diz), do mesmo jeito que o disco traz algumas de suas composições mais sinceras até hoje, as roupas também funcionam como um reflexo mais autêntico de quem ela é. “Ainda tenho looks malucos das minhas fases antigas que guardo com carinho e dos quais eu nunca me desfaria”, afirma. “Mas estou tentando diminuir ao máximo a distância entre a Kim do palco e a Kim normal nos últimos tempos.”
Dá para imaginar que a resposta entusiasmada tanto ao álbum quanto ao mundo que ela criou ao seu redor seja imensamente validante, dado o quanto o material significa para ela e o quanto ela lutou para compartilhá-lo. “É a primeira vez que confio de verdade no meu próprio instinto e não dependo de gente que tem hits ou é muito grande na indústria pra me dizer que isso é bom”, diz. “Eu acho que isso é bom, e quero tocar pros meus amigos, e isso quer dizer que quero tocar pros meus fãs. E é a primeira vez que confio mesmo nisso, em vez de só pegar o caminho mais fácil de ‘tá, as pessoas estão dizendo que essa é uma boa jogada, então vou fazer.'” Houve muitas noites escuras da alma pelo caminho, mas, lá no fundo, Petras nunca chegou a perder a esperança: “Acho que eu sabia que ia lutar por isso, custasse o que custasse.”
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