categoria Comportamento
Data 16 de junho de 2026

A ativação mais cara de um festival pode ruir no primeiro “oi”. Quem decide se a experiência funciona não é a cenografia, a trilha sonora ou o brinde, e sim a pessoa que recebe o público no estande, entrega a amostra ou conduz a dinâmica.

Preparar a equipe de casting, os promotores que representam a marca na prática de qualquer ativação, pode ser uma das etapas mais subestimadas das produções. No entanto, é uma das que mais definem o resultado final, do ponto de vista de quem vive a experiência.

Em um momento em que tanto se fala sobre relações humanas e seu peso no marketing, pode espantar como boa parte das marcas que contratam brand experience, e até agências especializadas, ainda não parece levar realmente a sério a escolha e a capacitação de quem assume a linha de frente, mesmo nos pontos mais básicos.

Pensando nisso e em reunir boas práticas de orientação e treinamento de casting, o Promoview ouviu duas especialistas que conhecem de perto o custo dessa lacuna e o caminho para fechá-la:

Joice Santana (esq.), fundadora da Orí Casting e Raquel Boletti (dir.), fundadora da NS Operações.

Joice Santana é fundadora da Orí Casting, agência de casting e staff que atende marcas e eventos em todo o país, com mais de uma década de atuação e bandeira de diversidade, equidade e inclusão. Eventóloga com 20 anos de estrada e diretora de relacionamento dos Eventólogos do Brasil, coletivo de pesquisa da área, ela mobiliza um elenco de cerca de 4.800 profissionais, de eventos médicos a grandes ativações de marca.

Raquel Boletti é fundadora da NS Operações, referência em controle de acesso, credenciamento e operação de linha de frente nos maiores festivais do país, de Rock in Rio e Lollapalooza a The Town, Tomorrowland Brasil e Time Warp. Com mais de dez anos na produção de eventos, MBA em gestão de eventos e atuação como professora na área, comanda operações que chegam a mobilizar 1.000 profissionais simultâneamente envolvendo jornada do público, e gestão de acessos que vão da entrada ao backstage.

Afinal, o que é casting, promotor e staff em um evento?

No vocabulário de eventos e live marketing, casting é o time de pessoas contratadas para dar vida a uma ação: o elenco que recepciona, aborda, demonstra e atende o público. O termo nomeia tanto esse elenco quanto o processo, e as agências, de selecionar essas pessoas.

Casting para ativação de marca da Natura. Foto: Divulgação / Orí Casting

O promotor, ou promotora, é quem representa a marca diretamente no contato com o público. Faz a abordagem, distribui amostras, explica o produto e conduz a experiência no estande. É a função mais associada à linha de frente de uma ativação.

Staff é o termo mais amplo, que abrange toda a equipe operacional do evento, com funções variadas: recepção, orientação, monitoria, apoio e controle de acesso. Promotor é, portanto, um tipo de staff.

Outros nomes circulam para funções próximas: hostess (ou recepcionista), embaixador de marca (ou brand ambassador), líder ou coordenador de equipe, e o credenciamento, responsável por receber e identificar o público na entrada. Todos formam o primeiro contato humano entre a marca e quem vive a experiência.

O promotor é a marca: as quatro etapas de um bom casting

Para o público, o promotor não representa a marca. Naquele instante, ele é a marca. Tom de voz, postura e repertório definem a impressão que fica, às vezes mais do que o cenário ao redor.

Joice trata como evidente o que o mercado costuma deixar para depois: “eles literalmente são a marca, por isso se importam tanto com o perfil físico da pessoa”. A escolha do rosto certo, porém, é a ponta do iceberg.

Promotora em ativação de marca. Foto: Orí Casting

A profissional resume o trabalho em uma régua de quatro etapas encadeadas, em que cada uma depende da anterior:

  1. O briefing que a marca entrega
  2. A escolha do casting, feita a partir desse briefing
  3. O preparo e o treinamento da equipe
  4. O tratamento e o acompanhamento no dia do evento

E a primeira etapa é justamente a que mais falha.

Etapa 1 — O briefing: se tudo começa por ele, por que chega por último?

A primeira etapa de uma ativação bem entregue não é a escolha das pessoas, é o briefing da marca. É a partir dele que a agência faz duas coisas ao mesmo tempo: seleciona os profissionais certos para o perfil do evento e os treina para chegar preparados no dia.

Do lado de quem entrega, a relação com o briefing é levada tão a sério que vira imersão. Raquel conta que, diante de uma ativação ligada a um esporte, mobilizou a equipe inteira para estudar o assunto a fundo: todos assistiram a jogos, pesquisaram as regras e mergulharam naquele universo até dominá-lo.

O efeito apareceu no atendimento. “A galera já gostava de basquete, uns três ou quatro já eram viciados em basquete, então eles mesmos conversavam com o público como se o público fosse jogador de basquete”, lembra. Não foi um detalhe burocrático, foi dedicação: a equipe foi atrás da informação que faltava para chegar segura no momento da entrega.

Leitura de briefing e preparo do time. Foto: NS Operações

Na prática, porém, o caminho costuma se inverter. A marca avisa que terá o evento e quantas pessoas quer, a agência mobiliza o time, mas o briefing completo, com os detalhes da ação, do produto e do conceito, fica em aberto até os últimos momentos antes da entrega.

O problema, repetido pelas duas sem hesitar, é direto: os contratantes não entregam um briefing completo com antecedência, mesmo já tendo as informações básicas desde o início. E é esse detalhe, de aparência burocrática, que pode minar o resultado de uma ativação inteira.

Joice ouve a contradição em todo evento. “Eu sempre escuto o tal do briefing, mas ninguém passa o tal do briefing”, afirma. Raquel vive a mesma cena do lado da operação. “A agência ganhou o stand, e aí não rola um briefing para a promotoria. Eu sofro muito com isso”, conta. Para ela, o gargalo não é falta de tempo. “Não dão a importância que deveriam dar. Essa é a minha real opinião. Porque tempo tem”, completa.

O que um briefing completo precisa entregar

Se o briefing é o gargalo, vale destrinchar o que ele precisa carregar. Não é um manual extenso, é o essencial que dá sentido a cada interação.

O primeiro item é o conceito. A equipe precisa saber por que aquele estande existe antes de saber o que distribuir, e o público mais jovem cobra esse sentido. Na operação de Raquel, a geração Z é maioria. “Eles precisam de um briefing sobre o conceito do evento para ver se topam ou não”, explica. Sem motivo claro, o risco de não engajamento tende a subir.

Depois vêm os dados práticos. Joice resume o pacote mínimo quando há um produto envolvido: nome, perfil do público, para que serve e qual o diferencial. “Com isso eles respondem tudo”, garante. Mais do que decorar um script, a equipe precisa entender a lógica por trás dele para improvisar sem se perder quando a conversa foge do roteiro.

E tudo isso quanto antes. Não há prazo único, eventos e ativações fecham com meses de antecedência ou da noite para o dia, mas o essencial já pode seguir no momento do fechamento. Quando o material não chega a tempo, as duas recorrem ao mesmo atalho: enviam o site da marca e o link do evento para a equipe estudar por conta antes de entrar em campo.

Ainda assim, a pesquisa autônoma não substitui o briefing. Sem ele, a equipe tem mais chance de chegar à entrega se sentindo “no escuro” e transmitir insegurança ao público, o que gera alto impacto na percepção geral do evento.

Etapa 2 — A escolha do casting: pesquisa vale mais do que aparência

Com o briefing em mãos, a seleção começa. A agência de casting apresenta um portfólio de profissionais, e a escolha se faz a partir do objetivo da ação, não necessariamente do rosto mais encantador da lista.

O que direciona a escolha é o perfil da marca, o ambiente e a função do profissional in loco. Uma ocasião formal pede um tipo de presença; um festival ou um estande, outro. Vai haver um momento de palco? Abordagem em circulação? Atendimento em balcão? Cada formato muda o profissional ideal para a vaga.

Muitas vezes a decisão envolve habilidades além do óbvio. Dança, teatralidade ou desenvoltura para improviso entram na conta quando a função pede um personagem, uma performance ou uma conversa que segure o público no ponto.

O perfil comportamental pesa tanto quanto a aparência e precisa ser ponderado em relação à posição que a pessoa vai ocupar. Há profissionais de grande desenvoltura, ideais para abordagem e palco, e há quem renda melhor em funções de menor exposição ao público.

Cabe alinhar com a empresa de casting a ser contratada sobre a personalidade de cada um, sobretudo quando a vaga envolve receber o público numa entrada ou conduzir interações diretas. “A gente não vai escolher somente pelo físico, a gente vai ter que analisar tudo”, resume Joice.

Antes de escalar, vale entender também o que a marca quer que o público sinta em cada etapa da jornada e escolher a pessoa que encarne isso. Por isso a Orí pede abertura para montar o elenco em vez de receber uma lista fechada de funções: quem domina o briefing acerta melhor a cara de cada posição.

Foto: Orí Casting

Repertório real fecha a conta. Quem já vive o universo da ação, seja esporte, música ou um tipo de produto, conversa com naturalidade que não se ensina na véspera. “Se você colocar uma pessoa que é a cara dela esse produto, marca ou experiência; e ela tiver o básico, ela vai vender o que for necessário muito bem”, resume Raquel.

Ainda assim, nada disso dispensa o essencial: pontualidade, briefing entendido e preparo. Trocar a pessoa de função na última hora, aliás, costuma desfazer todo o encaixe construído na seleção.

Etapa 3 — O preparo: como preparar a equipe antes do público chegar

Aqui existe uma suposição cômoda de que o promotor improvisa, que basta fazer o que ele sempre faz. Na maioria das vezes, porém, aquele é o primeiro contato dele com a marca. Sem intimidade com o produto e com a proposta, não há jogo de cintura que sustente a abordagem por muito tempo.

Por isso a equipe precisa receber, o quanto antes, uma base mínima para trabalhar com segurança. Não são os detalhes miúdos de como tudo vai acontecer, e sim o suficiente para entender a ocasião e o que a marca quer passar. Transmitir segurança é parte do serviço, e ninguém transmite o que não domina.

Na prática, vale transformar essa base em um checklist que o profissional tenha em mãos antes do dia. Um roteiro curto resolve mais do que um manual extenso:

  • Objetivo da ação: o que a marca quer transmitir, o que é o produto e, principalmente, qual o resultado esperado, seja vender mais, dar a conhecer um produto ou coletar dados do público
  • Como funciona a ativação: o passo a passo das atividades, se há brinde e como o público o conquista (a pergunta que mais se repete), e se algo acontece fora daquele espaço
  • O que pode e o que não pode: os limites de fala e de conduta, de preço a promessas
  • Para quem direcionar: a pessoa a quem o promotor encaminha dúvidas técnicas ou fora do escopo
  • Situações difíceis: como agir diante de uma reclamação ou de alguém que extrapola
  • Logística do profissional: horário, apresentação (uniforme e, quando for o caso, se precisa vir maquiado e a referência), horários de pausa, onde se hidratar e os pontos de apoio para descanso e alimentação

Com isso em mãos, o treino se concentra na abordagem: como iniciar sem ser invasivo, como ler quem quer interagir e quem só quer passar, como agir diante de uma reclamação sem perder a linha. Simular os cenários difíceis, e não apenas os ideais, prepara a equipe para o que de fato acontece no chão da ativação.

Foto: Orí Casting

Boa parte dessa lista pode parecer óbvia, e é justamente o óbvio que costuma ficar de fora, por se supor que todos já sabem. Joice ressalta que “o óbvio deve ser dito, sempre”. Combinado por escrito e em voz alta, ele deixa de ser suposição e vira regra clara para quem, naquele instante, representa a marca.

Etapa 4 — Tratamento e acompanhamento até o fim

A etapa final começa quando a operação entra em campo e tem a ver com a forma como a equipe é tratada ao longo do dia. Tratamento, no vocabulário de Joice, é o “básico que poucos garantem”: condições de trabalho dignas, alimentação e hidratação dos profissionais, pausas respeitadas e valorização de quem está na ponta.

Esse cuidado se organiza com alguém de olho na operação inteira. A Orí mantém, a partir de equipes com quatro pessoas, uma figura dedicada a coordenar a entrega in loco para enxergar o 360 e a fazer a ponte com o contratante, da chegada às pausas. Essa pessoa concentra a informação completa e repassa eventuais mudanças de função à equipe.

A intermediação evita o atrito direto. “Elenco direto com contratante não é o mais indicado”, justifica Joice. Na pressão do evento, nem sempre a produção fala com calma, e o intermediário absorve a tensão, traduz a demanda e protege a relação antes que um desentendimento vire problema.

O custo de ignorar isso aparece rápido, e manter alguém cuidando do clima e das informações é, muitas vezes, o que segura a equipe de pé quando o dia aperta.

O acompanhamento também corrige no momento e repõe energia quando o cansaço baixa a guarda, perto do fim do dia. De quebra, transforma o casting em fonte de aprendizado: o que funcionou na abordagem e o que ajustar na próxima saem de quem esteve no chão da ativação.

Extra: A postura que nenhum briefing entrega

Nem tudo entra na conta da marca ou da agência. Quem está na linha de frente responde pelo resultado tanto quanto, e por uma camada que nenhum briefing alcança. Empatia, paciência e tato não se imprimem num documento, mas decidem como o público é recebido.

Essas competências, hoje reunidas sob o nome de inteligência emocional, são apontadas como o que mais separa um profissional de atendimento acima da média, e são mais difíceis de treinar do que o conhecimento do produto. Na prática, significam ler o humor de quem se aproxima, calibrar a abordagem e não descarregar na próxima conversa a frustração da anterior, mesmo depois de centenas de interações num único dia.

Joice cobra esse preparo sem rodeios. “Não adianta ser só bonito e estiloso”, resume. “Tem que chegar no horário, tem que entender o briefing, com uniforme certinho, mas tem que se informar, tem que se preparar” . Dentro da Orí, parte desse cuidado passa por uma diretriz de comunicação não violenta, estendida aos freelancers para orientar como conversam com o cliente e com o público quando o clima aperta.

A camada humana que decide o resultado

Nenhuma dessas etapas disputa verba com outras áreas dos projetos. Todas pedem que o preparo da linha de frente entre em cena desde o briefing, e não como o último item antes de a porta abrir.

Diante de um público que abandona o estande quando não encontra sentido, preparar a linha de frente deixou de ser detalhe operacional: é o que separa a ativação que vira conversa genuína da que apenas consumiu verba.

Fonte: Promoview