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04 de setembro de 2026
Gloria Steinem construiu uma trajetória marcada pela defesa dos direitos das mulheres e pela contestação de padrões sociais considerados tradicionais. Entre as decisões que mais chamaram atenção ao longo de sua vida está a opção de não ter filhos.
A ativista também passou grande parte da vida sem se casar e frequentemente falava de maneira aberta sobre suas escolhas pessoais. Para Steinem, a maternidade não deveria ser tratada como uma obrigação ou como o único caminho possível para uma mulher.
Gloria morreu na quarta-feira, 2 de setembro, aos 92 anos. Uma publicação conjunta feita no Instagram de Steinem e da Fundação Gloria confirmou que a ativista “faleceu pacificamente em sua casa na cidade de Nova York”.
Gloria Steinem
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A relação com o casamento
Ao longo de sua carreira, Steinem também questionou o papel tradicional atribuído ao casamento e as expectativas que a sociedade colocava sobre as mulheres dentro dessas relações.
Apesar de ter permanecido solteira durante boa parte da vida, ela se casou em 2000 com David Bale, pai do ator Christian Bale. A união durou até 2003, quando ele morreu em decorrência de um linfoma cerebral.
A decisão de se casar, porém, não mudou sua posição em relação à maternidade. Steinem nunca teve filhos e, em diferentes entrevistas, deixou claro que não considerava essa uma escolha da qual deveria se arrepender.
Gloria Steinem para a campanha do lip balm (Foto: Reprodução/Instagram)
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“Nem todo mundo precisa viver da mesma maneira”
Em 2020, durante sua participação no podcast How to Fail, apresentado por Elizabeth Day, Steinem comentou sobre a maneira como algumas pessoas interpretavam sua opção de não ter filhos.
Segundo ela, havia quem presumisse que uma mulher sem filhos necessariamente seria infeliz ou se sentiria incompleta.
“As pessoas presumem que eu devo ser infeliz ou insatisfeita”, disse Steinem durante sua participação no podcast How to Fail, de Elizabeth Day. “Não todo mundo, mas algumas pessoas, eu acho, presumem isso… de uma forma que não presumiriam sobre um homem.”
A ativista já havia defendido uma visão semelhante anos antes, durante uma entrevista concedida a Chelsea Handler no programa Chelsea Lately, em 2011.
“Nem todo mundo precisa viver da mesma maneira”, disse Steinem. “Como alguém disse: ‘Nem todo mundo que tem útero precisa ter um filho, assim como nem todo mundo que tem cordas vocais precisa ser cantor de ópera’.”
Gloria Steinem
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A maternidade não deveria ser uma obrigação
Em novembro de 2015, Steinem participou de uma conversa com a autora Cheryl Strayed e voltou a discutir as diferenças entre homens e mulheres, especialmente em relação à criação dos filhos.
Para ela, a educação tradicional contribuiu para colocar sobre as mulheres a responsabilidade de desenvolver determinadas características consideradas necessárias para a maternidade.
“Criar filhos ou ser criado para criar filhos é a forma como os homens se tornam pessoas completas, assim como nos tornamos completos ao sermos ativos no mundo fora de casa”, disse Steinem. “Todas essas qualidades que são erroneamente chamadas de femininas – atenção aos detalhes, empatia, paciência – são exatamente o que você precisa para criar filhos.”
Na mesma ocasião, ela defendeu que os homens também deveriam ser estimulados a desenvolver essas características.
“Os homens merecem o desenvolvimento completo das qualidades humanas, assim como nós”, continuou ela. “Então, simplesmente exijam isso… Finjam que estão vivendo com uma mulher e não abaixem seus padrões!”
Ela se arrependeu de não ter sido mãe?
A pergunta sobre um possível arrependimento acompanhou Gloria Steinem durante décadas. Em 2016, ela voltou a conversar com Chelsea Handler, desta vez para uma produção da Netflix, e foi questionada diretamente sobre a decisão de não ter filhos.
Ao lado da comediante Sarah Silverman, Steinem respondeu de forma bastante direta e ainda brincou ao falar sobre o assunto.
“Nem por um milésimo de segundo, devo dizer”, respondeu ela, rindo. “… Quer dizer, é uma escolha. E é uma escolha maravilhosa. Mas se todo mundo tiver que fazer isso, deixa de ser uma escolha.”
A declaração sintetizava uma das ideias que Steinem defendeu durante boa parte de sua carreira: a maternidade pode ser uma experiência importante e desejada, mas precisa permanecer uma decisão individual.
A admiração por mulheres que são mães
Mesmo sem ter experimentado a maternidade, Steinem dizia admirar profundamente as mulheres que escolheram esse caminho. Em março de 2025, durante uma entrevista à Jones Road Beauty, ela falou novamente sobre o assunto.
A ativista destacou especialmente as mulheres que criaram os filhos com pouco apoio e reconheceu a dimensão da responsabilidade envolvida na tarefa.
“Admiro especialmente as mulheres que criaram os filhos, talvez sem a mesma ajuda dos homens na maioria das vezes”, disse ela. “Eu não precisei fazer isso e acho que isso é muito importante.”
Apesar da admiração, sua própria decisão permanecia inalterada.
Uma experiência da infância pode ter influenciado
Na mesma entrevista, Steinem foi questionada novamente sobre a possibilidade de ter algum arrependimento por não ter tido filhos. Mais uma vez, respondeu negativamente.
“Não. Absolutamente não. Não sei bem porquê, talvez porque, quando era criança, cuidava da minha mãe, que não estava bem. Percebi que outras pessoas que eram crianças cuidando de adultos não querem repetir a experiência, mesmo que seja algo irrealista em comparação com ter filhos.”
A lembrança da infância apareceu, portanto, como uma possível explicação para sua relação com a maternidade. Steinem reconhecia, no entanto, que a experiência de cuidar da própria mãe quando ainda era criança não poderia ser diretamente comparada à experiência de criar os próprios filhos.
Um legado além da vida pessoal
A decisão de Gloria Steinem de não ter filhos acabou se tornando parte de uma discussão muito maior sobre autonomia feminina. Ao longo de décadas, ela defendeu que mulheres deveriam ter liberdade para decidir os rumos de suas próprias vidas sem serem julgadas por escolhas que fugissem dos padrões tradicionais.
Para Steinem, não ter filhos não significava ausência de propósito ou de realização. Sua vida foi dedicada ao ativismo, ao jornalismo e à luta por mudanças sociais e políticas.
Ao falar repetidamente sobre sua própria experiência, ela também ajudou a colocar em debate uma questão que continua atual: a maternidade pode ser uma escolha, mas não precisa ser um destino obrigatório para todas as mulheres.
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