categoria Comportamento
Data 03 de setembro de 2026

Estou trabalhando, hoje, no maior festival de música do mundo. Numa reunião de alinhamento essa semana, reparei em algo que me tocou: todas as produtoras responsáveis pelos diferentes setores da área em que atuo são mulheres. Temos só três homens no time inteiro; nós, mulheres, somos maioria ali dentro. Fiquei olhando aquela sala e pensando em como isso seria impensável há alguns anos, quando eu estava começando.

Essa cena me fez refletir sobre todo o caminho até chegar aqui. A minha empresa não nasceu de um plano perfeito. Eu vim da comunicação, migrei pro setor de eventos sem roteiro definido, e fui construindo clareza sobre o que eu realmente queria empreender ao longo do caminho, não antes de começar. Gosto de contar essa parte porque acho que ela carrega uma mensagem que poucas pessoas ouvem: não é preciso ter tudo resolvido pra começar.

O que veio depois foi mais difícil do que a mudança de área. Empreender num setor majoritariamente masculino, sendo mulher, exigiu muito mais do que competência técnica. Exigiu consistência, exigiu me posicionar o tempo todo, e exigiu aceitar ser questionada repetidamente por razões que nada tinham a ver com resultado.

Aprendi, na marra, que credibilidade se constrói entregando, não explicando. Você pode argumentar o quanto quiser sobre sua capacidade, mas numa reunião cheia de homens que já estavam ali há mais tempo, o que convence é o evento que roda sem falha, não o discurso.

Quando comecei, eu não tinha ninguém pra me espelhar

Uma pergunta que já me fizeram, e que até hoje me marca: quem foi seu modelo, sua inspiração, na hora de empreender? E a resposta honesta é: quando eu comecei, eu não tive nenhuma. Não encontrei, no setor de eventos daquela época, uma mulher que tivesse vindo da comunicação, que tivesse construído uma operação de staffing do zero, que liderasse com cuidado genuíno pelas pessoas e que ainda assim fosse levada a sério num mercado predominantemente masculino. Essa referência simplesmente não existia no meu campo de visão.

E foi exatamente essa ausência que me formou. Quando não existe um caminho já traçado, você aprende a confiar no próprio julgamento mais cedo do que gostaria. Erra sem rede de segurança. Decide sem manual. E vai construindo, na prática, uma forma de liderar que não é cópia de ninguém, porque não havia ninguém pra copiar.

Hoje, em 2026, esse cenário já é outro. Existem muitas mulheres incríveis ocupando espaço no nosso setor, e isso me deixa genuinamente feliz. E tem uma coisa engraçada que acontece direto comigo: toda vez que encontro uma mulher da área de eventos que também cuida de operação delicada, num universo onde a maioria dos líderes ainda é homem, a gente se reconhece quase instantaneamente. É como se bastasse um olhar pra eu pensar “te entendo”, sem precisar trocar uma palavra sobre o que cada uma já passou pra estar ali.

Uma escolha consciente, não coincidência

Hoje lidero uma equipe majoritariamente feminina, da direção às coordenações, e isso não é acaso. É uma escolha consciente, e também um reflexo natural de como construí a empresa inteira: apostando em gente que o mercado tradicional historicamente subestima.

Não foi sobre encher a empresa de mulheres por bandeira. Foi sobre perceber que, quando você mesma já sentiu na pele o que é ser subestimada num ambiente de trabalho, você enxerga talento em lugares que outros líderes simplesmente não olham. E esse talento, quando bem aproveitado, entrega resultado, não apesar da diversidade, mas justamente por causa dela.

Diferente também dá lucro

A maior ousadia que já tomei não foi fundar a empresa. Foi decidir que ela seria diferente do padrão do setor, e não ceder quando o mercado inteiro sinalizava, com todas as letras, que ser diferente era arriscado.

A empresa que construí prova, na prática, que dá pra escalar uma operação complexa sem abrir mão de ética e compliance. Que dá pra construir uma cultura de cuidado real com as pessoas, suporte psicológico, reconhecimento, atenção genuína, sem que isso torne o negócio inviável. E que dá pra liderar com presença, sem precisar imitar o estilo de gestão masculino que o setor normalizou como o único jeito de ser levada a sério.

Por que ser visível importa

Hoje treino e capacito staffs da nossa área, e faço isso com muito amor e dedicação. Esse tipo de acompanhamento próximo tem um valor que nenhuma iniciativa estruturada alcança: acontece no momento certo, com a pessoa certa, sem roteiro pronto. É o tipo de apoio que eu mesma precisei quando comecei, e que nem sempre encontrei disponível.

E é por isso que me importa tanto ser visível agora, inclusive numa coluna como essa. Para que a próxima empreendedora que vier de uma área diferente, que queira construir um negócio de operações com alma, que for mulher num setor que nem sempre esperou por ela, encontre pelo menos uma referência que se pareça com ela e, cada vez mais, encontre várias.

E esse caminho, pra mim, não para por aqui. Estou me preparando para o próximo passo: entender de gestão de negócio num sentido mais amplo, não só de operação de evento. Por isso, hoje participo de um grupo de empresárias de todas as partes do Brasil e dos mais diversos setores possíveis, trocando experiência com quem está construindo negócio tão diferente do meu quanto o meu foi diferente de tudo que existia antes.

Porque crescer também é isso: continuar se cercando de gente que te puxa pra frente, mesmo depois que você já achou que tinha chegado em algum lugar.

Fonte: Promoview